Pessoal, sejam muito bem-vindas e bem-vindos ao 21º curso de verão em Bioquímica e Biologia Molecular do Instituto de Química da Universidade de São Paulo. Meu nome é Penélope Valente, eu sou aluna de doutorado e vou acompanhar vocês durante essa jornada. Quero começar falando sobre o laboratório de estabilidade genômica, que é onde eu faço o meu doutorado sobre as orientações do professor Nicolas Hoch.
trouxe para vocês algumas imagens dos meus colegas de laboratório em momentos de descontração, não em momentos de trabalho, porque a gente trabalha bastante, mas a gente também sabe se divertir. Nesse laboratório, a gente investiga uma modificação pós-traducional chamada de ADP e riboilação. Modificações pós-traducionais são aquelas que ocorrem nas proteínas depois que elas são traduzidas.
A mais famosa de todas, que com certeza vocês já ouviram falar, é a fosforilação. Existem várias outras, inclusive a ADP ribosilação. Nesse laboratório a gente tem algumas linhas de pesquisa, como a autofagia mediada por chaperonas, a ADP ribosilação no contexto da resposta interferon a patógenos virais e especialmente coronavírus.
Quais são as consequências moleculares de mutações em genes de reparo de DNA que ocorre em doenças genéticas humanas, e a linha de pesquisa mais legal de todas, que investiga os mecanismos moleculares da morte celular induzida pela hiperatividade de PARP1, que é o meu projeto de doutorado. Eu vou falar um pouquinho para vocês agora, mas se vocês tiverem interesse em saber mais sobre o professor Nicolas, sobre as outras linhas de pesquisa ou sobre qualquer coisa relacionada ao laboratório, por favor escaneie QR code que vocês estão vendo aí, que vai levar vocês direto pra página do laboratório na internet. No meu doutorado, eu busquei investigar quais são os genes que regulam a via de morte celular chamada PARthanatos.
Para falar de PARhtanatos, a gente tem que falar um pouquinho sobre a PARP1. A PARP1 é uma enzima que catalisa a ADP ribosilação, ela catalisa essa modificação pós-traducional que eu acabei de falar para vocês e ela tá envolvida no reparo de danos ao DNA. Então, quando o DNA ele é lesionado, a PARP1 é recrutada ao local do dano e sinaliza para que a maquinaria de reparo venha e repare essa lesão.
De que forma que ela vai sinalizar isso pra maquinaria de reparo? Através da ADP ribosilação das proteínas envolvidas que das proteínas no entorno dessa lesão, especialmente as histonas e também ela mesma. Pois bem, mas dependendo do tipo de dano ou da intensidade com a qual esse dano acontece, a PARP1 também sinaliza para a morte celular.
Então ela é recrutada ao local do dano, ela modifica as proteínas ao redor desse dano e a partir desse ponto não há um consenso na literatura sobre como PARthanatos ocorre. A gente sabe que a célula morre e que a morte dependente da hiperativação da PARP1, mas quais são os mecanismos moleculares, quais são as etapas, quais são as proteínas envolvidas nessa morte? Não se tem um consenso.
E é nesse cenário que entra o meu projeto. No meu projeto, eu fiz um CRISPR screen de todo o genoma para tentar identificar quais são esses genes que estão regulando a morte celular por PARthanatos. Antes de falar do que eu fiz, eu quero falar para vocês o que que é um CRISPR na natureza.
O CRISPR nada mais é do que um sistema de defesa das bactérias. É um sistema adaptativo de defesa das bactérias. No genoma das bactérias, a gente encontra genes correspondente às proteínas chamadas Cas, que são endonucleases, ou seja, são enzimas que vão clivar material genético, vão clivar o DNA.
E logo próximo dessas sequências de genes Cas, existem sequências repetitivas, que a gente chama de R, intercaladas de sequências S espaçadoras. Bom, quando então um bacteriófago invade uma bactéria, o sistema Cas reconhece esse DNA como sendo um DNA invasor e o incorpora em seu próprio genoma, não de forma aleatória, incorpora nessas sequências espaçadoras S que eu acabei de falar para vocês, que ficam justamente ao lado dessas sequências repetitivas. A bactéria, quando ela vai transcrever essas sequências, ela faz juntamente com as a sequência das proteínas Cas.
Desta forma, ela produz ribonucleoproteínas que ficam vigilantes por essa célula bacteriana. Quando essa estrutura ribunucucleoproteica, ela encontra um DNA invasor, esse sistema de vigilância consegue destruir esse DNA invasor. Como é que ele reconhece e destrói ?
o RNA consegue parear e reconhecer esse DNA invasor e a Cas9 vai fazer o que ela sabe fazer porque ela é uma endonuclease, vai clivar esse material genético. Então dessa forma destruindo desse sistema de defesa das bactérias, desenvolveu-se então o CRISPR como ferramenta de engenharia genética. Quem conseguiu fazer esse pulo do gato foram essas duas pesquisadoras, a Emmanuel Charpentier, que é essa morena, e a Jennifer Doudna, essa loira, que foram agraciadas com um prêmio Nobel, justamente por conseguir revolucionar a biologia molecular, a engenharia genética de forma a escalonar, baratear e também facilitar a vida dos biólogos moleculares que querem editar o genoma.
Bom, eu falei que eu fiz um CRISPR screen de todo o genoma. Eu tenho que agradecer à Universidade de Cambridge para onde eu fui fazer esse experimento. E eu tive a grande oportunidade de ver uma palestra da Jennifer Doudna e tá aí uma fotinho minha com ela que eu tenho muito orgulho de mostrar para todo mundo.
Pois bem, vamos voltar ao que interessa. CRISPR como ferramenta de engenharia genética. Esse sistema ele é composto por uma nuclease que normalmente é Cas9, mas existem outras nucleases, que vai clivar uma região específica do genoma e de que forma ela vai conseguir clivar esse uma região específica do genoma?
Como é que ela vai saber aonde clivar no genoma? Porque ela vai estar associada a um RNA guia. Esse RNA guia ele vai interagir com a Cas9 e também com o DNA, com a sequência de DNA que a gente quer editar.
Hoje em dia é possível comprar bibliotecas prontas de RNA guia. Você não precisa ficar desenhando RNA guia por RNA guia por RNA guia. Você compra bibliotecas prontas de RNA guia contra o seu genes de interesse.
No caso do meu screen, do meu CRISPR, eu usei uma biblioteca contra todos os genes do genoma, de forma que eu consegui nocautear todos os genes do genoma humano, porém um único gene foi nocauteado por célula. Quando você compra uma biblioteca dessas, um dos primeiros passos necessários é produzir uma biblioteca viral contendo seus RNAs guias. Ou seja, você vai produzir vírus que tem que cada vírus vai ter um único RNA guia.
Antes de mais nada, a gente não trabalha em laboratório com vírus inteiro. A gente trabalha com plasmídios virais que vão fazer o vão fazer o vírus apenas dentro das células modelo que a gente usa para produzir vírus. Isso, isso é uma questão de biossegurança.
Então, a gente vai transfectar os plasmídios contendo as informações para formar o vírus e o empacotamento dos RNAs guias em células modelo. Em seguida, a gente vai fazer a transdução e infectar as células de interesse que a gente quer estudar. A gente tem que fazer isso de modo que um único vírus infecte uma única célula para que cada célula seja nocaute para um único gene.
Eu não quero células com dois nocoutes, com dois genes nocauteados. Eu quero um gene nocauteado por célula. Então o vírus vai fazer o que ele sabe fazer de melhor, que é infectar as células e transmitindo para cada célula esse RNA guia que vai então fazer o nocaute na célula.
Com isso, eu vou chegar a uma população final heterogênea da célula de interesse que eu quero estudar, na qual todos os genes do genoma estão nocauteados, porém um único gene por célula está nocauteado. Essa população heterogênea, ela é então submetida a uma pressão seletiva que pode enriquecer ou depletar as células. No caso do meu screen, a pressão seletiva que eu utilizei foi uma pressão seletiva para induzir PARthanatos, ou seja, eu induzi a morte celular nessas células.
As células que receberam um RNA guia importante para PARthanatos foram enriquecidas, ou seja, elas conseguiram sobreviver. Por quê? Porque eu nocauteei um gene que é importante para que a célula morra.
Então ela não conseguiu morrer. Basicamente foi isso. Depois que a gente faz essa pressão seletiva e consegue enriquecer as células de interesse, chega a etapa final, que é extrair o DNA e purificar o DNA dessas células, amplificar por PCR e mandar para sequenciamento para poder saber quais foram os genes que provocaram a resistência dessas células.
Gente, eu não quero tomar muito tempo de vocês. Eu quero agradecer a presença de vocês aqui no curso de verão. Tô muito ansiosa pra gente poder conversar mais.
A gente vai ter dois momentos hoje. Um momento às 9 horas de apresentação e o outro momento às 15 horas para poder discutir o que vocês quiserem discutir. Façam as atividades e quem tiver mais interesse sobre PARthanatos, CRISPR conversar.
Tá bom? Tem aí o meu Instagram @Pvalente, quem quiser mandar mensagem pode mandar mensagem, a gente vai conversando. Tá aí de novo um QRcode que leva pro site do laboratório.
Se vocês perderam antes do QR code, mas se interessaram agora, aproveita e escaneia, tá bom, gente? Vejo vocês. Até mais.
Bons estudos.