Meu nome é Marta Martins, sou investigadora pós-graduada do ISCTE, Instituto Universitário de Lisboa, e trabalho na área das neurociências com interesse particular sobre a leitura, a aprendizagem, o desenvolvimento, o impacto do treino musical. Quando nós falamos sobre a neurobiologia de um processo e, neste caso, sobre as bases genéticas e cerebrais de alfabetização, na leitura e na escrita, estamos a falar de marcadores biológicos. Portanto, indicadores genéticos, aspectos estruturais e funcionais do cérebro, que nos permitem caracterizar a aprendizagem da leitura, perceber se ela vai acontecer ou não com sobressaltos.
E se houverem sobressaltos, que indicadores é que nós temos de resposta à intervenção? Portanto, a neurobiologia, as bases genéticas e cerebrais mais não são do que o estudo do substrato do comportamento. Neste caso, o comportamento nós estamos interessados é leitura e escrita.
A leitura e a escrita são para a neurobiologia, como para outras disciplinas, uma invenção o humana, no sentido em que nós não nascemos programados para executar essas funções. Na verdade, nós nascemos programados para falar e aprendermos a falar pela simples exposição a linguagem, mas para aprendermos a ler e a escrever, normalmente, nós temos que ser ensinados. Um aspecto muito importante a ter em conta é que, apesar da importância de conhecermos os marcadores biológicos, eles não conseguem explicar completamente o fenômeno.
Portanto, nós temos que continuar a avaliar o comportamento e perceber a influência de outros fatores, nomeadamente, fatores socioeconômicos para determinar o sucesso ou insucesso desses processos. A via fonológica e a via lexical são caminhos de processamento da informação, do texto, da palavra. A via fonológica dedica-se a descodificação de sequência de letras e a sua conversão no padrão sonoro, aquilo que normalmente nós chamamos de conversão grafema-fonema.
Enquanto que a via lexical analisa a palavra como um unidade, recorrendo ao léxico visual do leitor. Quando referimos a estas vias lexical e fonológica, estamos a falar de redes, de redes neuronais, regiões cerebrais, que suportam este processo. Ainda que esta referência seja implícita.
No caso da via fonológica, falamos de regiões como a localização cerebral mais dorsal, enquanto que, no caso da via lexical nos referimos às regiões mais ventrais. O leitor típico recorre a ambas as vias de forma constante e complementar, recorrendo mais a uma ou a outra, consoante a sua familiaridade com a palavra. Quanto mais familiar for a palavra, mais provável é recorrer à via lexical.
Assim nós sabemos que no início da aprendizagem, a via fonológica predomina. Portanto, a descodificação das sequências de letras e a conversão do padrão sonoro, mas à medida que nos tornamos leitores mais fluentes, à medida que a aprendizagem progride, há uma maior predominância da via lexical. Eu não sei se falaria de regiões cerebrais como algo isolado, mas, antes, de redes.
Quando o cérebro cresce e aprende, ele cria conexões. Portanto, criam-se conexões entre as diferentes partes do cérebro, e essas conexões vão sendo fortalecidas à medida que o comportamento é repetido e é melhorado. Nós sabemos, através da ressonância magnética, que para ler há determinadas regiões que se tornam mais ativas e comunicam entre si.
Na verdade, essas regiões têm diferentes nomes, dependendo da sua localização. Uma dessas regiões é a região occipito-temporal, que é considerada a "letterbox" do cérebro, que processa letras e palavras. Outra região é região é a temporo-parietal que nos permite brincar com os sons da nossa língua e saber que, por exemplo: banana sem o b é anana.
E a região frontal inferior que é como o capitão que nos comanda. Apesar de nós sabermos que estas regiões que eu acabei de referir são consistentemente implicadas nos processos de leitura, por vezes, em determinados estudos, surgem outras regiões. Por que é que isto acontece?
Porque vários fatores determinam os nossos achados na neuroimagem. Esses fatores são, por exemplo, a forma como nós avaliamos a leitura, o processo em que nós focamos, o momento da aprendizagem em que estamos interessados, a consistência ortográfica ou até questões estatísticas. A dislexia é uma perturbação de origem neurobiológica que se caracteriza por dificuldades persistentes e prolongadas, digamos assim, na aquisição da literacia.
Podemos falar da descodificação e reconhecimento de palavras, da compreensão leitora da fluência leitora ou até da precisão ortográfica. A dislexia contrariamente àquilo que nós normalmente pensamos ou as pessoas pensam de uma forma geral, é bastante difícil de estudar. Por quê?
Porque ela não tem um fenótipo único, no sentido em que os indivíduos com dislexia podem apresentar dificuldades em aspectos distintos do processo de leitura. E, por outro lado, também, estas dificuldades que eles apresentam o nível do processo de leitura são independentes de questões cognitivas gerais, de déficits sensoriais, de aspectos motivacionais e até de oportunidades educativas. Portanto, é difícil nós estudarmos as dificuldades leitoras e a dislexia.
Também porque, muitas vezes, elas surgem associadas a outro tipo de perturbações sejam: questões de desenvolvimento atípico, ou tardio da linguagem, dificuldades matemáticas, questões emocionais ou até questões de atenção ou de hiperatividade. Daí esta dificuldade de nós definirmos, de caracterizarmos e, muito mais ainda, de intervirmos sobre essas dificuldades. Na verdade, eu acho que neste momento é muito difícil as neurociências darem um contributo direto para a instrução, para a prática da alfabetização.
Eu poderia falar que a curto prazo nós poderemos identificar marcadores biológicos pré-leitores, ou seja, marcadores biológicos que surgem mesmo antes da criança começar a aprendizagem da leitura, e que nos permitem dizer, com alguma segurança, que aquele indivíduo vai ter mais ou menos dificuldades em aprender a ler. Mas isto ainda não é contributo direto para a instrução. Eu acho que isto vai ser um caminho longo, que exige um trabalho de parte a parte.
Portanto, para nós chegarmos ao destino teremos sempre que fazer esse caminho, mas não acho que seja uma coisa simples e a curto prazo. O contributo mais próximo será mesmo esse, de determinar marcadores que nos permitam dizer que o indivíduo vai ter no futuro próximo dificuldade de leitura, mesmo antes de ele ter começado a aprender a ler. Não sei se seria tanto perguntas, mas mais reflexões, e acho que a principal ou duas das principais seria: os atores educativos, portanto, quem pratica alfabetização, perceber como é que as pistas que vem da neurobiologia e das neurociências podem ser integradas na prática letiva.
E por outro lado, também perceber que pistas é que a prática letiva podem dar para os estudos que se fazem na neuroimagem. Se calhar, a grande questão será qual é o substrato desta partilha? Como é que se constrói esta ponte?
Quais são os alicerces desta ponte entre as neurociências/neurobiologia e educação? Eu acho difícil nós pensarmos numa mensagem única. Eu acho que há várias mensagens.
Talvez a primeira é que é difícil um fenômeno, seja ele qual for, ser completamente biologicamente determinado, mas ainda assim é importante perceber quais são os marcadores biológicos, o substrato biológico sobre o qual atuam em todos os outros fatores, sejam eles contextuais, sociais. Portanto, é essencial para caracterizarmos um fenômeno perceber diferentes pontos de vista ou olhar o fenômeno sobre diferentes ângulos. Uma segunda mensagem será então que, quanto mais cedo melhor.
No sentido em que, quanto mais cedo nós identificarmos um potencial déficit, caracterizarmos um perfil, intervirmos sobre ele, mais fácil e potencialmente mais eficaz será a nossa intervenção. Será mais fácil de minimizar e até eliminar um problema. Se nós pensamos na realidade portuguesa, nós começamos a intervir nos déficits de leitores, mais ou menos no segundo ou no terceiro ano de escolaridade, quando na verdade já estamos dois ou três anos depois da falha.
O ideal seria, segundo os estudos, intervir mesmo antes do início da aprendizagem da leitura. E por quê? Por um lado, evitamos as consequências emocionais e psicológicas da falha.
E, por outro, começamos a intervir sobre o processo antes mesmo dele iniciar e, portanto, temos aqui hipótese de minimizar o déficit ou até eliminá-lo, dependendo da situação. Uma terceira mensagem é que: nunca é tarde para aprendermos a ler e para tirarmos proveito dos benefícios cerebrais da leitura, nomeadamente, ao nível do processamento visual. E uma última mensagem é que não existe milagre das neurociências.
Portanto, as neurociências sozinhas nunca conseguirão caracterizar um fenômeno. Mas é essencial a educação saber como é que o cérebro aprende, como é que ele se desenvolve. Porque o cérebro é o substrato da mente.
Portanto, sem cérebro não há mente, não há alfabetização e não há escola.