porque a boa literatura ela faz isso: ela desperta a curiosidade, ela desacomoda o sujeito, ela promove inquietações, ela promove angústias. Sou Elaine Assolini, eu sou pedagoga e linguista. Tenho alguns cursos de pós doutorado na área de linguística e literatura, sou docente da Universidade de São Paulo e desenvolvo pesquisas na área de alfabetização, leitura, letramento, escrita e formação de professores.
O que significa ter fluência na leitura? A fluência na leitura envolve o sujeito - a criança, o educando, o aprendiz - ler sem tropeçar, sem gaguejar. Aquele sujeito, aquela criança que não vai interromper a leitura em função de uma palavra, em função de um significante, ela continua porque ela vai pensando, ela vai raciocinando.
E é um sujeito também que interpreta. Eu tenho defendido que a escola deve partir do letramento para a alfabetização e não o contrário, como vem acontecendo nas políticas públicas brasileiras. A precisão, a decodificação, a exatidão, esses elementos, eles podem ser construídos, cultivados, podem ser edificados, tratados desde a educação infantil por meio do letramento.
Atualmente, espera se que por volta de sete ou oito anos este aluno, o estudante, já consiga ler, compreender e como eu estou trazendo aqui e interpretar e produzir sentidos. E por que os alunos estão lendo mal? Há pouca valorização para a leitura, para o leitor.
É muito comum escutarmos os alunos dizerem: “Eu vi na internet, eu vi no Tiktok” tudo resumido a um determinado número de caracteres, a um determinado tempo, a um tempo curto. O historiador francês Roger Chartier faz essa diferenciação entre leituras de fragmentos autônomos e leitura de um texto. Ele lê um fragmento, ele lê um trecho e sai emitindo suas opiniões.
Sem entender o contexto, sem entender as situações. Não por acaso, o número absurdo de de fake news. Colocar o aluno para pensar, para perguntar, para se incomodar, porque a boa literatura ela faz isso: ela desperta a curiosidade, ela desacomoda o sujeito, ela promove inquietações, ela promove angústias.
Então esse esse é um dos aspectos. Como os professores podem fazer avaliações diagnósticas de leitura dos alunos? É preciso compreender o sujeito que chega à escola.
Será que esse sujeito consegue ler um texto? Será que ele sabe o que é um texto? Será que ele sabe a importância de um título?
Tudo isso precisa ser trabalhado pela escola. Não adianta contar quantas palavras esse sujeito lê por minuto, ele não as articula, se ele não consegue dar um fecho, um acabamento para o seu texto. Então, como avaliar esse aluno?
Como fazer um diagnóstico? Pedindo para que esse aluno leia, como ele lê, o que ele lê e o que ele entende por leitura. Eles podem escolher textos de acordo com as faixas etárias e textos que sejam interessantes, que sejam instigantes para os alunos.
Textos que dialoguem com esse sujeito contemporâneo. O que considerar na hora de desenvolver atividades lúdicas para estimular a leitura? Atividades lúdicas não podem ser improvisadas e, mesmo que aparentemente pareçam ter sido improvisadas, ao contrário disso, elas precisam ser organizadas.
Elas precisam ser preparadas considerando se os conteúdos que têm sido trabalhados, os objetivos. Temos crianças que chegam à escola e que tem uma vida toda apenas na frente da televisão, apenas diante da tela do celular. É a hora que você chama essa criança: “ Vamos fazer uma roda, vamos brincar.
” A criança se intimida porque ela nunca vivenciou aquilo. Então é preciso cuidar também para que as crianças aprendam a brincar. E os jogos e as brincadeiras, dentro dessas inúmeras possibilidades, vão colaborar no desenvolvimento do caráter, da personalidade.
. . Quais características são fundamentais em projetos interdisciplinares de leitura?
Uma das características é o diálogo entre os professores. Porque cada sala vai trazer uma resposta, cada sala vai trazer um entendimento. Por isso que o trabalho com conteúdos interdisciplinares têm mais êxito, sucesso e possibilidades de se concretizarem quando trabalhados por meio de projetos.
Por meio de projetos interdisciplinares, todos os estudantes podem participar. O estudante mais tímido, o estudante que desenha mais não escreve, o o projeto pode durar duas semanas, pode durar dois meses, pode durar três meses. E dentro disso tudo é preciso a sistematização.
A exigência de projetos é que eles sejam concluídos por meio de exposições na escola, por meio de diálogos com o bairro, com a comunidade. Como os professores de diferentes disciplinas podem estimular a leitura dos alunos? O professor que está trabalhando química, por exemplo, ou iniciando os trabalhos de química, pode levar aí, a partir de um livro clássico como “Os Botões de Napoleão” transformar um livro que é lindo, mais complexo em um conto, em uma atividade para os alunos, pode levar texto e fazer um dia de leitura, uma tarde de leitura em que as crianças podem deitar se no tapete trocarem livros, contarem o que leu.
Isso faz muita falta na escola. As crianças contarem o que leram, como leram, o que elas aprenderam. O professor pode ler, fazer uma leitura extra sala de aula, pode levar, pode e deve levar os alunos semanalmente na biblioteca, pode ler no pátio da escola, pode levar os alunos a uma praça, e tudo é motivo para ler.