“Não é papel do professor oferecer aos seus alunos as comidas e bebidas mais finas. É seu papel apenas ensinar a ter opções, a saber querer, a saber que o direito é o mesmo para todos. Querer é a condição básica para ter; ter consciência é a condição básica para ser.
Nenhum professor sabe o que vai acontecer com seus alunos no futuro. Não se pode ter garantias de como repercutirá o conhecimento em cada um deles. Professor é aquele sujeito que nunca sabe exatamente o que ensinou, porque uma avaliação dura a vida toda.
Mas o professor pode confiar que, se ensinar seu aluno para ser, acima de tudo, consciente, autônomo, ele saberá o que fazer com seu conhecimento”. João Batista Freire ♪ ♪ Quando falamos em estratégias pedagógicas, partimos do fato de que as pessoas são diferentes, diversas, únicas, plurais e, portanto, têm jeitos diferentes, diversos, únicos e plurais de aprender. A partir disso, um universo de possibilidades se abre com infinitas estratégias possíveis de serem construídas para os educandos e, principalmente, com eles, para que a aprendizagem se efetive da melhor maneira.
Partimos, então, dessa educação de possibilidades. Essa pluralidade de estratégias pedagógicas disponíveis talvez seja o que há de mais belo na educação, já que admite, a priori, a heterogeneidade da humanidade. Para nos ajudar a pensar sobre isso, vou apresentar um instrumento gráfico que procura mapear diversos percursos pedagógicos possíveis de se tomar.
Como em uma árvore, cada escolha não nos restringe, ao contrário, nos abre mais e mais possibilidades. É importante notar desde já que esse mapa é organizado por linguagens e possibilidades de criação, e não por disciplinas. Cabe a elas olhar para essas possibilidades e, a partir do conteúdo escolhido, pensar em como se valer dessas diferentes estratégias.
Vamos começar pelas experiências do corpo. Usando as palavras da professora Tatiana Passos Zylberberg, professora doutora da Universidade Federal do Ceará, tese defendida na Unicamp, cujo trabalho versa sobre as possibilidades do uso do corpo no processo de ensino-aprendizagem: “a gente tem uma constituição que preza pelo desenvolvimento pleno. Então, eu não posso desenvolver um pedaço, eu não posso desenvolver uma faixa, eu não posso desenvolver aquilo que aparentemente está restrito à minha disciplina.
Enquanto não tivermos uma educação em que todos os sentidos tenham vez e voz, a gente vai ter muito menos do que a gente poderia. E eu tenho feito a escolha de ter mais”. Essa fala nos lembra que o corpo, enquanto esse lugar que existe e que é onde o ser humano se experimenta enquanto existente, é a nossa forma de nos relacionarmos com o mundo e, por isso, ele é inteiro, integrado.
Assim, não é possível estabelecer diferentes importâncias dentro de um mesmo conteúdo e, portanto, não é possível estabelecer uma hierarquia entre corpo e mente: eles são um só. A cabeça não é o lugar exclusivo dos conhecimentos. O corpo inteiro é a nossa máquina e é com ele inteiro que aprendemos.
Com esse corpo, podemos realizar produções literárias dos mais diversos tipos: poesias, narrativas, dissertações em diferentes materiais e plataformas. Podemos realizar pesquisas autorais, criar produtos, montar instalações, exposições, arte performática. Podemos deixar o lugar de espectadores de mídia e criar vídeos, podcasts, rádios, fotografias.
Fazer ser possível por essas diferentes experiências, por essas inteligências múltiplas, sistematizar conhecimento, fazendo relações mais complexas dos conhecimentos. O trabalho não pode ser apenas interessante ou prazeroso, não podemos incorrer nesse erro. Ele deve trazer os conteúdos abordados de maneira consistente, sintetizando uma apropriação conceitual dos aspectos metodológicos e científicos do processo e daquilo que foi estudado, pois o pressuposto aqui é que todos podem aprender.
Considerar essas diversas linguagens na hora de pensar as estratégias didáticas e de avaliação não deve ter como objetivo tornar o caminho mais fácil. Ao contrário, a ideia é torná-lo mais complexo, mais inteiro, completo. É partir do pressuposto de que todos são capazes de aprender, mas que os caminhos que levam a essa aprendizagem podem ser únicos, ímpares, originais afinal, se existem diferentes formas de se locomover, diferentes formas de falar, diferentes formas de escrever, diferentes formas de sentir, existem diferentes formas de aprender.
É preciso partir da compreensão de que a divisão por disciplinas, além de ser artificial, é insuficiente. É preciso pensar fora dessas caixas convencionais e trabalhar para realizar aprendizagens realmente significativas e, portanto, que estreitem laços com a realidade interdisciplinar como ela é, escutando a experiência do outro, desconstruindo nossas crenças sobre as outras disciplinas e, assim, permitindo que um universo de possibilidades se abra à nossa frente. Assumir que cada um deve construir sua própria compreensão e não repetir a de outros é o cerne dessa questão.
Pensar um ensino flexível, atraente, sensível aos interesses e às experiências dos alunos, sem abrir mão de padrões de qualidade, é a proposta do Ensino para Compreensão. As bases teóricas da estrutura desse ensino foram escritas no livro “Ensino para a compreensão – a pesquisa na prática”, escrito por Howard Gardner, David Perkins e Vito Perrone, juntamente com a organizadora Martha Stone. Nessa nova perspectiva, não partimos de uma disciplina, mas de um tópico gerador, um grande tema que interligue áreas do conhecimento.
Estabelecemos metas de compreensão explícitas e públicas, ou seja, o que eu quero que o estudante entenda ao final do processo, do que ele deve se apropriar, definindo as ideias, os processos, as relações ou questões que os alunos compreenderão ao final da sequência. Determinamos quais são os desempenhos, ou seja, de que maneiras é possível perceber como o aluno vai se apropriar e aplicar os conceitos estudados, ou seja, sua capacidade de usar o que se aprendeu para operar no mundo. Por fim, como construir uma avaliação contínua, o que os estudantes podem fazer para demonstrar a compreensão.
É preciso abrir mão daquilo que pensamos que já sabemos, nos colocarmos permeáveis ao novo e realocar os limites. A falta de convivência com a diferença é que nos torna reticentes, é o que nos assusta, pois temos o olhar treinado para um jeito só de ser. As estratégias que incluem criam novas possibilidades de contato com o que nos é diferente.
O contato nos faz aprender a conviver com o outro. A convivência abre horizontes para o planejamento de estratégias inclusivas. O primeiro passo, o que nos coloca em movimento, é o mais trabalhoso.
Depois dele, o difícil é parar. Não há uma única receita. Assim como a macarronada de domingo, cada um tem seu método, seu segredo, seus temperos.
O que temos em comum é a fome e a vontade de comer.