Nível um, o sonhador. Você tem 18 anos. Você vê o Rio de Janeiro sangrar no noticiário toda a noite.
Você assistiu aos filmes do Tropa de Elite e torceu pro Capitão Nascimento. Enquanto seus amigos querem ser jogadores de futebol ou influencers, você quer ser herói? Você quer a farda preta?
Você começa a treinar. Corre na praia às 4 da manhã, estuda o código penal e treina Gilgitsu. Enquanto os outros estão na balada, sua mãe te pede para fazer faculdade de engenharia, mas você não quer um plano B.
Seu pai tem orgulho, mas também tem medo. Você passa no concurso da PMRJ, você acha que venceu, mas na verdade não sabe de nada. Você é apenas um civil com boas intenções.
A guerra nem começou ainda. Nível dois, o azulão e a justiça. Você entrou, está de cabeça raspada e fardado de cinza.
Está na rua, mas a realidade bate na sua cara. Você prende o vapor armado de manhã. À tarde, na audiência de custódia, o juiz manda soltar.
O bandido sai pela porta da frente rindo da sua cara antes mesmo de você terminar de preencher a papelada. É a definição real de enxugar gelo. Você arrisca sua vida para aprender e a lei frouxa devolve o problema para a rua.
Você se sente um palhaço fardado. Você volta para casa no trem, escondendo a farda na mochila para não ser executado. O medo vira ódio.
Você então se lembra do filme e pensa: "Se a justiça não funciona, faca na caveira. Você se inscreve para o COESP. Nível três, o inferno, o curso.
Bem-vindo ao inferno na Terra. Eles não querem te ensinar a atirar ainda. Eles querem te quebrar.
Você passa cinco dias sem dormir. Fome, frio, humilhação. Você carrega troncos, rola na lama, bebe água do esgoto.
A cada hora um companheiro toca o sino e pede para sair. Pede para sair. Os instrutores gritam no seu ouvido.
Sua mente começa a pregar peças. Você alucina, você chora, mas você não toca o sino. Você descobre que seu limite era uma mentira.
O menino que acreditava em contos de fadas morreu na lama. Quem levanta é outra coisa. Nível quatro, a caveira, a formatura.
De 100 que entraram, 10 chegaram até aqui. Você é um deles. A faca é cravada na caveira.
O ritual acontece e nesse momento algo em você muda para sempre. Você veste o luto. A farda preta não é um uniforme, é uma segunda pele, uma identidade que você não tira quando chega em casa.
Você agora pertence a uma irmandade silenciosa, uma que a sociedade civil não consegue compreender e talvez nunca vá conseguir. Você não é mais um policial comum. Você é uma máquina de guerra calibrada ao milímetro.
Cada movimento treinado, cada decisão condicionada, cada segundo calculado. Você entra na favela e não sente medo. Medo foi o primeiro a ser eliminado no curso.
O que resta é foco, puro, cirúrgico, mas o preço é alto. Sua família te estranha no almoço de domingo. Você fala pouco.
Você senta de costas para a parede, você conta as saídas do restaurante, você analisa cada rosto que passa, você não consegue desligar, porque no lugar onde você trabalha, desligar custa vidas. Para alguns, você é herói. Para outros você é símbolo de brutalidade.
Para a mídia você é pauta. Para os políticos, você é ferramenta. Mas para você, você é apenas o que o Estado chama quando tudo mais falhou.
A última rátio. O último recurso. O último recurso antes do caos vencer.
Nível CO, o operador e a mídia. Você tem 28 anos. A guerra é seu escritório.
Você sobe o complexo do alemão, troca tiro intenso, resgata refém, mas vê seu parceiro tomar um tiro de fuzil no peito. Você carrega o corpo dele sujo de sangue de volta para o batalhão. Você liga a TV no refeitório.
E o que você vê? um especialista de segurança no ar condicionado do estúdio, dizendo que a sua operação foi desastrosa e excessiva. A manchete chama o traficante de suspeito e vítima da sociedade.
A câmera foca na mãe do bandido chorando, mas ninguém entrevista a viúva do policial. Para a mídia, você é o vilão. Para o crime você é o alvo.
Você está sozinho, mas você engole seco, limpa o fuzil e se prepara, porque amanhã tem de novo. Nível seis, o capitão. Você chegou até aqui.
Você é o 01. Não existe posto acima de você dentro do batalhão. Você é o topo da pirâmide mais temida da segurança pública brasileira.
E o peso disso é esmagador. Você não entra mais em beco com fuzil na mão. Essa guerra acabou.
A nova começa dentro de salas fechadas com gravata, ata de reunião e jogo político. Sua munição agora é argumento. Sua trincheira é a burocracia.
Seu inimigo usa terno e assina portaria. Você é o escudo entre seus homens e um sistema que enxerga cada operação como um passivo jurídico. Cada tiro como uma manchete em potencial, cada morte como um problema administrativo a ser contido.
Você protege sua tropa do inimigo de fora e do inimigo de dentro também. Mas a solidão do comando não aparece nos manuais. Ela aparece quando você precisa olhar nos olhos da mãe de um policial que morreu sob seu comando.
Quando você aperta a mão dela firme e diz que o filho dela morreu cumprindo a missão, que ele foi bravo, que ele vai ser lembrado e você acredita em cada palavra que diz e isso torna tudo ainda mais pesado. Você deu anos, deu saúde, deu relacionamentos, deu partes de si que não voltam mais. Você deu sua alma para a instituição e a instituição te deu uma caveira no braço e uma solidão que ninguém do lado de fora consegue compreender.
Nível sete, o fim. Você vai para a reserva sem cerimônia, sem discurso, apenas um aperto de mão, um carimbo e 30 anos vira um papel. Em casa, você abre uma caixa no fundo do armário.
Lá dentro está a sua pistola, a mesma que você ganhou na formatura. Você assegura com as duas mãos e fica olhando por um longo tempo. Essa arma esteve presente em tudo.
Nos rostos que você viu apagar, nas decisões tomadas em fração de segundo que nenhum tribunal consegue julgar. Porque nenhum juiz esteve lá naquele beco, naquele segundo. Você fez coisas que não cabem em conversa de jantar.
Viu coisas que não saem nem com anos de silêncio. Sua vida não foi limpa, não foi justa. Você sabe disso.
E mesmo assim você coloca a arma de volta na caixa com o cuidado de quem guarda algo sagrado. Porque se pudesse voltar ao dia em que tudo começou, você olharia nos seus próprios olhos e diria: "Vai, vai, porque vai doer e vai custar tudo. Mas alguém precisa ser o que o mundo não quer admitir que precisa.
E esse alguém sempre foi você. Você fecha a caixa, apaga a luz e dorme.