Olá, vamos falar sobre a deusa africana Atete. Hoje, para quem não me conhece, eu sou a Flávia Esper, e esse vídeo faz parte do Oráculo da semana. Tem o link aqui embaixo na descrição, se você quiser participar.
Bom, então hoje a gente vai falar dessa deusa, que é uma das deusas mais importantes do povo Amoro, do sul da Etiópia. Ela é uma deusa que também representa a fertilidade, a abundância e que governa o destino de todo mundo, né? Então, governa a fortuna, a abundância, a fertilidade, tudo isso.
Ela era cultuada como celebração pelas colheitas, era invocada para que viesse a chuva e era celebrada quando as coisas iam certas para o povo. Mas ela tem uma questão especial com a igualdade, os direitos humanos, principalmente a proteção das mulheres. Então, a sociedade, o povo Amoro, tinha uma forma de governo e resolução de conflitos muito interessante, e essa deusa é uma das principais partes disso.
Então, vamos falar um pouquinho sobre essa história hoje e sobre qual mensagem essa deusa traz para a gente, principalmente para quem escolheu lá no oráculo a carta dela essa semana. Bom, eles tinham uma divisão, né? Para governar, tinha uma assembleia, tinha uma estrutura ali que incluía homens e também o papel das mulheres, né?
Essas estruturas não eram separadas e independentes, mas se comunicavam. Uma das funções para as quais Atete era chamada para resolver e proteger era quando algum direito de mulheres ou crianças era violado de alguma forma. Então, quando uma mulher se sentia ofendida ou uma criança era vista como tendo sido ofendida por um homem, essa deusa era invocada para que as coisas pudessem ser acertadas.
Como isso acontecia? Havia um hino, um canto, né, que dizia sobre as coisas que poderiam ter acontecido. E uma mulher que tivesse passado por isso ou presenciado começava a cantar esse hino, e todas as outras mulheres da tribo que iam escutando se juntavam em uma marcha até a assembleia, que chamamos de assembleia dos mais velhos, enfim, os homens que julgavam etc.
Essas mulheres iam fazendo uma marcha, formando uma massa cada vez maior de pessoas, né, até chegarem lá. Quando chegavam, havia todo um ritual, uma forma ritualística de fazer essa conversa, mas os mais velhos passavam uma das mãos com grama fresca exprimida, representando ali a vontade de paz, de chegar a um acordo pacífico. Na outra mão, colocavam um chicote de pele de rinoceronte, que representava o julgamento, o arbítrio também pacífico e harmonioso.
A partir dali, perguntavam o que tinha acontecido; a pessoa dizia o que tinha acontecido e começava todo um processo de ver como o ofensor — a pessoa que tinha ofendido, né, a mulher ou a criança — poderia compensar o que tinha feito. Até que se chegava a um acordo, se as mulheres aceitavam o que havia sido proposto ou não, até chegarem a esse acordo. Esse acordo sobre o que seria uma compensação justa, não era tanto uma punição, mas uma forma de igualar o que tinha acontecido, de equilibrar os pratos da balança.
Quando se chegava nesse acordo, isso era levado para o ofensor, e ele podia fazer a compensação que tinha sido exigida dele. Mas, se ele se recusasse, ele sofreria represálias, retaliações. Então, uma das coisas que podiam acontecer se ele se negasse a cumprir a compensação acordada era que a sua casa seria destruída, suas coisas quebradas.
Enfim, dependendo do grau de ofensa do que ele tinha feito, isso podia chegar até a perder todos os direitos e poderes ali naquele povo. E, em último caso, até ser banido. Na verdade, eles tinham um sistema de justiça que buscava a igualdade, a proteção dos direitos das mulheres, e em que a voz das mulheres era escutada.
Havia uma sororidade, as mulheres se apoiavam e havia um espaço para que essas vozes fossem escutadas com respeito e atenção, buscando nem tanto a punição, mas uma compensação que trouxesse uma justiça em que a vítima também se sentisse realmente compensada, reparada no que aconteceu, no que tivesse acontecido. Para que as coisas voltassem a ter uma igualdade, um equilíbrio. Portanto, era um sistema que buscava resolver através da paz, da justiça, do equilíbrio.
E isso só era possível porque as vozes eram escutadas, porque as vítimas eram escutadas, porque suas dores eram validadas e porque se buscava uma reparação que fosse justa à altura do que tivesse acontecido. Há muito a questão do diálogo, do se chegar a um acordo, da justiça, nem tanto como punição, mas como reequilíbrio das coisas, né? Então, é muito interessante, porque já é toda uma organização muito em busca desse equilíbrio, dessa proteção, principalmente das mulheres e das crianças.
E essa deusa era a deusa invocada para isso, né? Era para ela que se cantava, era a ajuda dela que se pedia nesse ritual de ir lá quando algo acontecia. Então, essa deusa, além de ser uma deusa da fertilidade, da abundância e do destino, é extremamente ligada aos direitos humanos, à proteção das mulheres e das crianças e à busca de uma justiça equilibrada e pacífica que acontece quando os lados são escutados.
Uma das coisas que é muito importante para que haja uma justiça eficaz, um reequilíbrio da harmonia depois que algo acontece, é que haja uma reparação à altura. Então, não é sempre colocar alguém num estado de dívida, com uma dívida impossível, ou de punir por punir, mas é de. .
. Reequilibrar, né? Então, se, por exemplo, eu tomei alguma coisa de você, eu tenho que, de alguma forma, reparar isso, ressarcir isso ou com algo além.
Além disso, por eu ter roubado, enfim, era uma justiça que visava a paz, visava reequilibrar as coisas. Esse processo todo só podia acontecer porque as mulheres tinham espaço para falar o que tinha acontecido sem serem questionadas. Elas eram validadas, as outras mulheres se uniam numa só voz e, quando elas chegavam onde elas chamavam de chegar, era feito um ritual exatamente respeitoso para que essa escuta pudesse acontecer.
Então, essa deusa fala muito sobre a mediação de conflitos, sobre a busca da justiça, sobre a importância da reparação quando a gente magoa alguém de alguma forma, né? Não adianta só se desculpar; é importante tentar reparar, tentar compensar a pessoa a quem você ofendeu de alguma forma, né? E, de preferência, perguntando a ela o que é justo para ela.
Senão, essa reparação pode não fazer sentido para quem sofreu a ofensa. Mas também, essa deusa fala muito sobre a importância de se dar voz, de se escutar de forma respeitosa quem se sentiu ofendido. A gente pode levar isso, né, pra questão do feminino e masculino, da importância do equilíbrio respeitoso, né?
De todos terem voz, de cada um ter a sua função ali, mas essas funções se comunicarem em busca de uma harmonia, de um equilíbrio. Mas a gente também pode pensar, quando a gente fala nessa deusa, no nosso dia a dia, nas nossas relações, principalmente na questão de quando a gente ofende alguém, querendo ou não. Se eu, sem querer, pisar no pé de alguém, eu posso machucar aquela pessoa.
Não foi intencional, mas o fato de não ter sido intencional não quer dizer que eu não machuquei e que eu não mereça me desculpar, né? Então, se eu atropelo alguém sem querer, por mais que eu não esteja tentando atropelar, o que é o ideal? Eu ir lá ver como a pessoa ficou, tentar levar pro hospital, tentar reparar de alguma forma, independente da intenção.
Muitas vezes, quando alguém nos diz que ficou ofendido por algo que a gente fez, ou que algo que a gente fez magoou, a nossa primeira reação é dizer: "Mas eu não tive a intenção". E, quando a gente fala em reparação, não quer dizer que você teve a intenção ou não; quer dizer que, independente da sua intenção, você causou um dano em alguém. Então, a primeira coisa que a gente deve fazer, buscar fazer para que haja uma comunicação pacífica, uma resolução ali daquilo, é escutar, é dar voz, é permitir que essa pessoa diga como se sentiu, validando isso, que é o que acontece quando uma mulher fala e as outras vêm e falam juntas até levar a quem de direito para julgar.
Então, se você magoou alguém sem querer e a pessoa vem te dizer que ficou chateada com algo que você fez, em vez de dizer: "Mas não foi isso que eu quis dizer", "Ah, mas você é muito sensível", "Ah, mas não foi minha intenção", em vez de começar assim, uma coisa que a gente pode tentar é se abrir pra escuta, porque a dor daquela pessoa, tendo a gente tido a intenção ou não de causar, é real. Então, escutar sem precisar se defender não é uma acusação quando o outro diz que se sente mal com algo que a gente fez, né? Sem levar pra o pessoal, sem tomar peito, escutar essa pessoa é o primeiro passo.
Depois, da mesma forma como eles fazem ali o ritual de mostrar que eles querem paz, né? Em vez de brigar, realmente validar aquilo. Nossa, vejo o que aconteceu, o que eu fiz te magoou, né?
Me desculpa por isso. E depois você pode também se explicar, você pode dizer do seu lado qual foi a sua intenção, mas depois de validar, né? E não como uma forma de: "Ah, o que você tá dizendo não faz sentido porque eu não tive a intenção", né?
Se eu atropelo alguém sem intenção, eu posso partir a pessoa no meio. Eu não vou dizer: "Não, tá doendo porque eu não tive a intenção". A primeira coisa é: "Tá doendo, machucou, vamos levar para o hospital, vamos cuidar".
Depois, eu posso dizer: "Olha, me desculpe, eu tava distraído", aí, em um outro momento, né? Mas não é para invalidar que a pessoa se sentiu chateada ou magoada. Depois, tentar buscar ali uma compensação, uma reparação, que é o que eles dizem, né?
O que eles faziam ali naquela assembleia, naquela forma de julgamento, né? De mediação de conflitos. Então, escutar a pessoa, né?
Validar o que ela sente, pedir desculpas, independente de ter tido a intenção ou não, você machucou alguém, né? Depois, sim, você pode dizer o seu lado, explicar qual foi a sua intenção e também, no fim, como que você pode ou se há algo que você pode fazer para reparar, para compensar a pessoa, né? E, claro, mudar a atitude.
Pedido de desculpa sem mudança de comportamento é quase uma manipulação; não é um pedido de desculpa real, né? Então, a gente pode levar também essa visão dessa deusa, além da questão do feminino e masculino, para as nossas relações do dia a dia: como é que você reage quando você, sem querer, ofende alguém ou machuca alguém, e a pessoa vem te comunicar isso? Você consegue se abrir, escutar, validar o que o outro sente, acolher a dor do outro, dizer também do seu lado e ver como as coisas podem ser reparadas?
Se há algo que você pode fazer para compensar, o que você pode fazer das próximas vezes, né? Às vezes, alguém tem uma sensibilidade para alguma questão, por traumas passados, seja o que for. E a gente não sabe.
A partir do momento que a. . .
Pessoa diz isso pra gente: como é que eu posso fazer para, numa outra vez, isso acontecer, né? É a reparação e a mudança de comportamento. Agora, eu já conheço um pouquinho mais de você; eu já sei que isso te incomoda, então eu vou tentar não fazer isso.
Como é que a gente lida com isso? Ou a gente já vai na defensiva, né? De um outro lado, isso também não é pra gente se sentir culpado.
Como eu já falei em vários vídeos, a culpa não a resolve nem ajuda, né? Assumir a responsabilidade pelo que a gente fez, entender por que é que isso foi tão difícil pra outra pessoa, é uma forma de se conhecer e de conhecer o outro, de conhecer essa relação. Como lidar com essa pessoa, né?
Não é pra gente falar: "Ai, mas eu não quis fazer isso! Meu Deus, eu tô culpada porque fiz isso, eu não sabia que ia ofender você! " Não é para ir por esse lado, mas é para ir para um lado de: "Estamos nos conhecendo.
Como a gente pode melhorar essa relação? Como a gente pode tornar essa relação, ui, meu Deus, cada vez mais justa? " E se algo aconteceu que magoou, como a gente pode reparar isso de alguma forma?
E, de um outro lado, quando você é a pessoa que se sentiu magoada ou ofendida ou machucada por alguma coisa, você consegue dizer, você consegue cantar e invocar essa deusa e pedir a voz das outras pessoas e levar isso para ser comunicado, para que se encontre uma forma de resolver esse conflito pacífica e harmonicamente? Para que isso possa nutrir a relação, para que você e a outra pessoa possam se conhecer melhor, para que essa situação não se repita e você não se machuque de novo. Ou você invalida o que sente, você guarda aquilo para você.
Não, melhor não falar, melhor não criar um conflito. "Ai, vou estar sendo chato. " Se eu tiver amando, como é que você lida com tudo isso?
Quando você foi a pessoa que se sentiu ofendida e magoada nas suas relações, há espaço para você dizer que se sentiu magoada, para ter essa sua emoção validada? Ou nas suas relações, quando você diz que algo te machucou, as outras pessoas debocham, menosprezam, dizem que você é muito sensível, não dão espaço? Porque, se isso acontece, não há essa justiça, essa paz, né, que se buscava ali nesses rituais.
Então, não é só a gente pensar em quando a gente é o ofensor, mas em como a gente consegue dizer quando algo nos incomoda. O outro não sabe o que nos incomoda no grau que nos incomoda, a menos que a gente diga. Como é que tá essa comunicação?
Você dá voz ao que você sente, valida o que você sente; essa deusa vem dizer que o que você sente tem importância. É preciso dar voz a isso. É aquela história, né?
Quando a gente evita o conflito, o conflito não desaparece; ele fica dentro da gente como uma forma de tensão que ou vai explodir em algum momento ou vai drenar a nossa energia, porque a gente tá se anulando; a gente tá anulando ou tampando ali o que a gente sente, né? Então, essa deusa traz muito essa lição de como os conflitos precisam ter voz, mas que isso não precisa ser uma guerra. Isso pode ser de uma forma harmônica, contanto que a gente possa validar o que a pessoa ofendida sente e chegar a um acordo.
Uma reparação é possível; resolver os conflitos de forma harmônica e justa, sim. Então, se você escolheu essa deusa hoje, como é que tá essa comunicação? Essa justiça nas suas relações?
Os seus pedidos de desculpa, eles são reais ou são da boca pra fora? Ou são só para que a outra pessoa cale a boca? Quando você se sente magoado, você consegue dizer?
Ou você diz: "Não, mas eu tô sentindo isso; é besteira, vou deixar pra lá. " E quando você consegue dizer, as suas relações são espaços seguros para que você tenha suas emoções validadas, respeitadas? O outro ou a outra, né, a pessoa que tá ali com você mostra interesse em entender o seu lado, seu ponto de vista, mostra interesse em aprender algo sobre você e não repetir aquilo que descobriu que te magoa, mostra interesse em reparar, muda o comportamento quando pede desculpa ou não.
Porque, se isso não acontece, talvez não seja uma relação segura. Talvez não seja uma relação que vale a pena continuar. Então, essa deusa traz todas essas questões e é importante a gente olhar isso num plano maior, das questões dos direitos das mulheres, que ela realmente, né, defendia; da questão dos Direitos Humanos, mas também no nosso mundinho pequeno do dia a dia, das nossas relações, dos nossos conflitos.
Essa deusa pede que você dê voz ao que sente e que você também acolha as vozes das pessoas que dizem o que sentem e que, em todo conflito, haja uma abertura para escuta, uma intenção de paz e uma abertura para uma compensação justa, uma reparação justa diante do que aconteceu. É isso. Então, se você escolheu essa carta hoje, tem todos esses temas para pensar.
E eu vou pedir mais uma vez para vocês curtirem o vídeo, se inscreverem no canal. É simples de fazer, parece besteira, mas me ajuda muito isso. E, semana que vem, eu volto lá no nosso grupo do WhatsApp com mais três cartas para vocês escolherem, tá bom?
Um beijo e boa semana.