Havia um homem na terra de US. O texto sagrado nos diz que ele era íntegro e correto. Temia a Deus e se mantinha afastado do mal.
Tinha filhos, tinha riqueza, tinha honra. Numa visão mais humana, talvez Jó fosse a pessoa mais feliz do mundo. Tinha tudo que uma pessoa em seu tempo desejaria ter com o plus de ser o homem de Deus reconhecido por todos, inclusive pelo próprio Deus e também pelos seres celestiais.
Mas acontece a primeira grande virada da narrativa. Em uma sequência de dias, ele perde tudo. Os bois foram roubados, o fogo caiu do céu e queimou os rebanhos.
Os camelos foram levados por saqueadores. A casa onde os filhos festejavam desabou com um vento e todos morreram. Quatro mensageiros, quatro golpes.
E o homem se levantou, rasgou o manto, raspou a cabeça e se prostrou no chão. E ainda assim não amaldiçoou a Deus. O problema que tudo isso coloca é talvez a mais antiga questão da fé humana.
Por que os que temem a Deus sofrem? Ou se você colocar a pergunta de outra maneira, por que o justo sofre? Porque a integridade não é uma proteção contra os males?
Porque Deus permite que o mal atingja exatamente quem lhe é fiel? Perguntas que o livro de Jó enfrenta de frente, sem nos oferecer, porém, uma resposta simples. Afinal, quem disse que a vida é simples?
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E se você quiser apoiar o nosso trabalho, considere se tornar membro do canal e ter acesso a vídeos exclusivos. O livro de Jó se passa numa terra chamada US, provavelmente uma região ao redor de Edom, talvez na periferia do mundo bíblico. Jó não é israelita.
Ele não é da família de Abraão. Ele sequer conhecia a lei de Moisés. Ele não tem acesso ao templo, ao sacerdócio, ao calendário das festas de Israel.
Jó é um homem de outra nação que, no entanto, teme o mesmo Deus de Abraão. E é exatamente esse enquadramento que torna o livro de Jó tão universalmente acessível, porque ele não é a história de Israel, é a história de qualquer ser humano que acredita em um Deus justo e se depara com uma realidade que parece contradizê-lo. Nesse sentido, Jó poderia ser contemporâneo de Abrão ou ser o nome de qualquer pessoa que já perguntou a Deus por sofrendo.
Eu gosto muito de pensar em Jó numa pessoa histórica, real, como real também são nossas dores. Sobre a posição de Jó no canon, o livro de Jó é anônimo. Nenhuma tradição consolidada identificou o seu autor com certeza.
O Talmud, o código rabínico das tradições dos judeus, menciona Moisés como possível autor, mas é uma sugestão sem evidências internas consistentes. O que o texto revela é que o autor conhecia profundamente a literatura sapiencial do antigo Oriente próximo, dominava a poesia hebraica com rara sofisticação e era capaz de sustentar um argumento filosófico de altíssimo nível por 42 capítulos. No canão hebraico, Jó integra a sessão dos escritos junto com os Salmos e os outros livros de sabedoria.
É lido pela tradição como um dos textos mais profundos da Bíblia inteira. Ezequiel já cita Jó, por exemplo, como modelo de justiça ao lado de Noé e Daniel, o que indica que o livro era reconhecido e reverenciado muito antes do período persa. O livro de Jo, na verdade não responde diretamente à pergunta por o justo sofre.
Ele redireciona essa pergunta para algo mais profundo. Ou seja, qual é a relação verdadeira entre um ser humano e Deus quando não há explicação disponível? A questão do sofrimento é o gatilho da narrativa, mas a resposta que o livro oferece no final não é uma explicação do sofrimento, mas sim um encontro com Deus.
E esse encontro transforma mais profundamente do que qualquer explicação teria conseguido. A estrutura do livro se divide em três partes principais. A primeira é o prólogo em prosa nos capítulos 1 e 2, que apresenta Jó, sua integridade, a cena do conselho celestial e as duas rodadas de provação.
A segunda parte que vai do capítulo 3 até o final do capítulo 37 é O corpo poético do livro, ou seja, os grandes ciclos de discursos entre Jó e seus amigos, seguidos pelos quatro discursos de Eliu, um personagem que entra tardeamente na cena. A terceira parte começa no capítulo 38 com os discursos de Deus no meio do redemoinho e a resposta final de Jó com o epílogo em prosa no capítulo 42. Essa alternância entre prosa e poesia não é acidental.
O prólogo e o epílogo funcionam como um enquadramento narrativo. Tudo o que acontece no meio, os discursos, os debates, os clamores, é poesia de altíssima qualidade literária. Vamos lá, então.
O prólogo dos capítulos 1 e 2 abre com uma das apresentações mais memoráveis da Bíblia hebraica. Havia um homem chamado Jó, que vivia na terra de US. Ele era íntegro e correto, temia a Deus e se mantinha afastado do mal.
Em seguida, o texto nos transporta para uma cena que Jó não vê, o conselho celestial, onde o Senhor pergunta a Satanás, o acusador, o seguinte: "Você reparou em meu servo Jó? Não há ninguém na terra como ele. Ele é homem íntegro e correto, teme a Deus e se mantém afastado do mal.
" Então o acusador lança um desafio direto. Jó teme a Deus porque recebe proteção e bênção em troca. Retire tudo isso e ele te amaldiçoará na tua face.
Deus aceita o desafio e autoriza a primeira rodada de provação. Os filhos morrem, os bens somem. E Jó responde com uma das declarações mais extraordinárias.
O Senhor me deu o que eu tinha e o Senhor o tomou. Louvado seja o nome do Senhor. Em seguida, uma segunda rodada.
Satanás agora recebe permissão para atingir o corpo de Jó, mas não para matá-lo. Jó é coberto de feridas da sola dos pés ao alto da cabeça. Senta-se em cinzas raspando a pele com um caco de cerâmica.
Sua esposa, no limite do suportável, diz: "Você ainda tenta manter sua integridade? Amaldiçoe a Deus e morra. " A resposta de Jó é direta.
Aceitaremos da mão de Deus apenas as coisas boas e nunca o mal. Três amigos chegam para consolá-lo. Ele faz de Temã, Bieldade de Suá e Zofar de Naam.
Quando vem, mal reconhecem. Sentam-se no chão com ele durante sete dias e sete noites sem dizer nada. O terceiro capítulo marca ruptura.
Depois de sete dias de silêncio, Jó fala: "E o que sai de sua boca não é louvor, é maldição. Não contra Deus, tá? Contra o dia que nasceu.
" Ele diz: "Apagado seja o dia em que nasci e a noite em que fui concebido". É um lamento brutal, cru, sem ornamento piedoso. Jó deseja nunca ter existido.
Essa é uma das passagens mais humanamente honestas de toda a Bíblia. E ele existe para que o leitor entenda que o que se segue não é um debate intelectual entre teólogos, é um homem destruído falando de dentro do sofrimento. O ciclo dos discursos dos capítulos 4 ao 31 formam o coração do livro.
Três ciclos, cada um com um discurso de cada amigo seguido de uma resposta de Jó. O argumento dos três amigos pode ser resumido em uma frase: você está sofrendo porque pecou. Ele faz faz isso com elegância teológica, apelando a sua experiência e a visões que recebeu.
Bildade faz isso com uma lógica implacável. Ou seja, os ancestrais e a tradição dizem que Deus não rejeita o íntegro. Zofar faz isso com franqueza agressiva e diz abertamente que J merece ainda mais do que está recebendo.
É a teologia da retribuição em forma dialogada. Bem gera bem, mal gera mal e quem sofre deve ter feito alguma coisa de errado. Essa teologia parece razoável, é ordenada, é reconfortante para quem não está sofrendo.
O problema é que ela é falsa, ou pelo menos incompleta. E Jó sabe disso, porque ele é o personagem que sofre sem motivo declarado e seu relacionamento com Deus ao longo de toda a vida testifica contra o argumento dos amigos. A resposta de Jó em cada ciclo cresce em intensidade e ousadia.
Ele acusa os amigos de consoladores miseráveis que distorcem a realidade para proteger sua teologia. Ele questiona Deus diretamente, reclama, protesta, exige uma audiência e no 19º capítulo, no meio de tudo isso, irrompe um dos versículos mais luminosos, que parece surgir de um lugar mais profundo do que os argumentos ao redor dele. Quanto a mim, sei que meu redentor vive e que um dia por fim se levantará sobre a terra.
E depois que meu corpo tivesse decomposto, ainda assim em meu corpo verei a Deus. Eu o verei por mim mesmo. Sim, o verei com meus próprios olhos.
Meu coração muito anseia por esse dia. É um dos momentos mais desconcertantes e mais belos da literatura sapiencial. Um homem no fundo do poço, sem explicação, sem consulação, sem os amigos ao lado e ainda assim afirmando que há um redentor vivo e que ele vai vê-lo com seus próprios olhos.
É uma expressão genuína da sua fé. O 28º capítulo é um interlúdio, um poema sobre a sabedoria que irrompe os ciclos de discurso. É uma das joias literárias do livro.
O homem pode minerar prata e ouro nas profundezas da Terra. pode encontrar pedras preciosas nos lugares mais inacessíveis, mas onde se encontra a sabedoria? O capítulo responde: "Ela não está nos oceanos, nem nos abismos, nem no mundo dos mortos.
Ela não tem preço, não pode ser comprada. Somente Deus sabe onde ela se encontra e ele sabe onde ela mora. " E a conclusão, o temor do Senhor é a verdadeira sabedoria.
Afastar-se do mal é o verdadeiro entendimento. É uma pausa dentro do caos, um momento para respirar antes da última rodada. Os capítulos 29 ao 31 são o monólogo final de Jó.
Ele recorda os dias de antes, quando a bênção de Deus estava sobre ele, quando os jovens o respeitavam, quando os pobres o bendiziam. e então contrasta com o presente, o escarnio, o abandono, a humilhação. No capítulo 31 faz o equivalente de um juramento de inocência, uma lista de tudo que poderia ter feito de errado e que nega ter feito e termina com uma demanda: que Deus responda.
Os capítulos 32 ao 37 trazem um personagem novo, Eliu, filho de Baraquiel. Ele é mais jovem que os três amigos e ficou em silêncio porque esperava que os mais velhos resolvessem a questão de Jó. Quando percebe que não resolveram, fala e com um tom diferente.
Eliu não defende a teologia da retribuição pura. Em vez disso, sugere que o sofrimento pode funcionar como instrução, como meio de Deus moldar e purificar uma pessoa antes que ela perca o caminho. É uma perspectiva mais nuançada, mas Deus, ao final do livro não valida nem condena Eliu explicitamente.
E o silêncio pode ser teológico. Eliu chega mais perto, mas ainda não chegou lá. E então vem o que todo o livro esperava.
A partir do capítulo 38, no meio de um redemoim, o Senhor fala. E o que ele fala não é uma explicação, é uma série de perguntas. Perguntas sobre a criação, sobre o cosmos, sobre o funcionamento do universo.
Onde você estava quando eu lancei os alicerces do mundo? Diga-me já que sabe tanto. Ele pergunta sobre as estrelas, sobre o mar, sobre a neve e o granizo reservados para os tempos de guerra, sobre as leis do universo, sobre o orvalho e o gelo, sobre as constelações e os corvos.
Aliás, Deus não responde nenhuma das perguntas que anteriormente Jó havia feito. Deus faz novas perguntas e esse é um ponto muito interessante para nós pensarmos. Dois discursos imensos, capítulo 38 a 41, sem uma única explicação sobre o sofrimento de Jó.
O que Deus faz é expandir o horizonte de Jó até que a pergunta original perca a sua escala. Não porque o sofrimento de Jó seja insignificante, mas porque o universo que Deus governa é incomparavelmente maior do que Jó poderia imaginar. E o governo desse universo é incomparavelmente mais complexo do que qualquer teologia de retribuição consegue capturar.
A resposta de Jó no capítulo 42 é a de alguém que encontrou o que precisava encontrar. Não respostas, mas a presença de Deus. Antes eu só te conhecia de ouvir falar.
Agora eu te vi com os meus próprios olhos. Retiro tudo que disse e me sento arrependido no pó e nas cinzas. E então acontece algo que surpreende qualquer leitura superficial do livro.
O Senhor diz aos três amigos que está irado com eles porque não falaram o que é certo, como fez Jó. Os amigos, com toda a sua teologia organizada erraram. Jó, com todos os seus clamores, protestos e questões ousadas, acertou.
A integridade de Jó, ao falar com honestidade radical diante de Deus, foi mais aceita do que a piedade defensiva dos consoladores. E o livro termina com a restauração de Jó, o dobro do que ele tinha antes e com uma vida que se prolongou por mais 140 anos, plena e abençoada. Queria destacar os grandes temas de Jó.
Eu escolhi cinco, então anota aí. O primeiro é insuficiência da teologia da retribuição. O argumento "Você sofre porque pecou", é derrotado não por um contraargumento teológico, mas pela própria narrativa.
No prólogo, o leitor sabe que Jó é inocente. Os amigos não sabem e sua teologia os fecha para essa possibilidade. Toda vez que uma teologia não consegue acomodar a realidade do sofrimento do inocente, ela está incompleta.
O segundo tema é a honestidade como forma de oração. Jó clama, questiona, acusa, exige e Deus ao final diz que Jó falou certo. O Deus de Jó é grande o suficiente para receber perguntas sem resposta e protestos sem resolução.
A lamentação não é o oposto da fé, ela pode ser sua forma mais intensa. O terceiro tema é a transcendência de Deus como resposta ao sofrimento. Os discursos de Deus não explicam o sofrimento de Jó, mas revelam um Deus cujos caminhos são infinitamente mais amplos do que qualquer esquema humano de retribuição.
O encontro com a imensidão de Deus não elimina a dor, mas a reposiciona. O quarto tema é a esperança como âncora no meio da escuridão. Jó 19:25.
Eu sei que meu redentor vive. Essa declaração não vem de um momento de clareza e conforto, vem do fundo de um sofrimento devastador. É uma fé que existe, apesar das evidências imediatas e é exatamente isso que a torna tão extraordinária.
O quinto tema é a amizade como responsabilidade teológica. Os três amigos chegam com boa intenção, ficam em silêncio por sete dias, que é em si gesto de profunda solidariedade, mas quando abrem a boca transformam a solidariedade em acusação. O livro de Jó é um alerta permanente para quem pretende consolar.
Às vezes o silêncio é mais sábio do que uma explicação. E é aqui que Jó aponta para Jesus Cristo de maneira que vai muito além de qualquer outro livro de sabedoria. O redentor vivo de Jó 19 é uma das antecipações mais impressionantes da Bíblia inteira.
Alguém que um dia se levantará sobre a terra e diante de quem o sofredor vai encontrar vindicação final. Mas há algo mais profundo. O livro de Jó é sobre um inocente que sofre e cujo sofrimento é permitido por Deus para aprovar a fé verdadeira.
Jesus Cristo é o inocente por excelência que sofreu e cujo sofrimento foi permitido por Deus para remir o que nenhuma inocência humana poderia remir. Jó clama que Deus é seu inimigo e seu advogado ao mesmo tempo, que o mesmo Deus que permite o sofrimento é o único que pode justificá-lo. Em Cristo, essa tensão se resolve.
O próprio Deus entra no sofrimento do seu povo, absorve a injustiça e emerge do outro lado da vida. A ressurreição é a resposta final de Deus para Jó. Não uma explicação, mas uma vitória.
Para nós que lemos Jó hoje, o livro faz uma oferta e lança um desafio ao mesmo tempo. A oferta é esta: você pode dizer tudo a Deus. O lamento, a raiva, a confusão, a sensação de abandono.
Você não precisa maquiar a oração para soar mais espiritual. Deus prefere a honestidade radical de Jó, a teologia organizada dos seus amigos. E o desafio é este.
Na ausência de explicação, confie no Deus que governa o cosmos. Não porque tudo faz sentido, mas porque ele é quem é. Jó não recebeu uma resposta sobre o sofrimento, recebeu uma presença.
E essa presença foi suficiente para que ele se levantasse das cinzas. Ela pode ser suficiente também para você. Não leia Jó procurando respostas simples a perguntas complexas da vida.
Leia a Jó para ter um encontro com um Deus em cuja presença as tão sonhadas respostas perdem sua importância. Se você quiser aprofundar a sua caminhada com Deus, conhecer melhor as escrituras e entender a grande narrativa da Bíblia, eu te convido a conhecer a plataforma de A a Z com Deus. Acesse www.
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Deus te abençoe e até o próximo vídeo. Ciao. Ciao.