Você acha a caatinga seca? A melhor resposta seria: depende. Há um lugar na Terra onde durante meses o céu simplesmente se recusa a chorar.
Ali a chuva é tão rara que em um ano inteiro o solo recebe apenas o equivalente a meio copo de água por semana. É pouco demais para um homem, quase nada para um bioma. [Música] Já no interior de nossa caatinga, as nuvens são mais generosas.
[Música] Em média, precipitam entre 300 e 800 mm de chuva por ano, 10 vezes mais. E em alguns anos, esse número passa de 1000. Mas enquanto um desses lugares se tornou referência mundial em agricultura, exportando bilhões em alimentos, o outro carrega o estigma da fome, do abandono, do desprezo, mesmo possuindo o maior rio de integração nacional da América do Sul, com quase 3.
000 m cúbicos de água correndo por segundo. [Música] Essa é a história de Israel e do interior do Nordeste brasileiro. Nesse vídeo, vamos entender como a ausência pode gerar abundância e de como a abundância pode se transformar em desperdício.
Mesmo sendo tão distintas, essas duas terras sedentas fizeram escolhas opostas. Israel, um país menor que o estado de Alagoas, o segundo menor estado do Brasil, encontra-se espremido entre o Mediterrâneo e o deserto. 60% do seu território é árido.
O Negev se estende por todo o sul do país, um mar de pedras e areia onde a vida parece desafiar as leis da natureza. O Ibex Núbio, espécie rara de cabra selvagem, é um dos poucos que conseguem sobreviver aqui. Seu corpo se moldou ao calor extremo, as montanhas pedregosas, a escassez de água.
Em vastas áreas dessa região, por meses, a chuva simplesmente não cai. E o rio Jordão, o rio bíblico, símbolo sagrado, tem apenas 20 m cúbicos de vazão por segundo, menos do que muitos córregos brasileiros. Em 1948, quando Israel foi declarado territorialmente como nação, a questão era uma só: como alimentar um povo em uma terra que não dá nada.
[Música] Antes, o abastecimento vinha de dois principais aquíferos, o da montanha e o costeiro e dos poucos rios da região, mas isso não era o suficiente. Foi diante dessa incerteza que surgiu a ideia improvável. Se a Terra não dava, talvez o mar pudesse dar.
E ali começou a história da osmose reversa. Essa tecnologia força a água salgada a passar através de membranas microscópicas, retirando todo o seu sal e impurezas. Parecia um sonho distante.
Era cara, impraticável, mas Israel não tinha escolha. Década após década, o investimento continuou, o custo despencou. Hoje, cinco grandes plantas de dessalinização produzem mais de 600 milhões de metros cúbicos de água por ano.
85% da água potável de Israel vem do mar e eles ainda produzem 20% a mais do que precisam por segurança, porque a memória da escassez nunca se apaga. Mas não parou aí. A água de Israel não é só a oriunda do oceano.
Quase todo o esgoto é tratado e reutilizado. Água que sai de pias e chuveiros retorna purificada, irrigando tomates, uvas, pimentões. [Música] A irrigação moderna por gotejamento foi inventada em Israel nesse mesmo período e revolucionou a agricultura.
mundial. Sensores calculam em tempo real a umidade do solo. Cada gota vai direto à raiz.
Nada evapora, nada se perde. 70 anos, bilhões de dólares, 5% do PIB investido em pesquisa e desenvolvimento. O resultado: Sua população alimentada e cerca de 2 bilhões de dólares anuais em exportações agrícolas de um deserto que não deveria produzir nada.
[Música] Israel não fez milagre, fez engenharia. A 12. 000 km dali, existe outra terra que também conhece a secura, o sol inclemente e a luta diária por água.
Mas ao contrário de Israel, lá a abundância está por toda parte. Só não é enxergada e nem aproveitada como deveria. No coração do seu interior nasce um gigante, o rio São Francisco.
2850 m³ de água por segundo, 100 vezes mais que todos os rios de Israel juntos. Ele nasce nas montanhas de Minas Gerais, percorre cinco estados até desaguar no Oceano Atlântico. [Música] No percorrer de sua jornada, ele é alimentado por diversos outros rios e afluentes.
[Música] São quilômetros de vida e esperança. E não é só ele. Sob o solo nordestino, aquíferos gigantes como Urucuia e o Missão Velha guardam bilhões de litros, reservas que Israel nem pode sonhar em ter.
E ainda há 3. 000 km de litoral, um oceano infinito banhando o Nordeste todos os dias. [Música] Mas aqui a abundância virou escassez.
Nas últimas três décadas, o São Francisco perdeu 60% de sua vazão. Desmatamento das margens, assoreamento, barragens, poluição. Toneladas de esgoto caem em suas águas sem tratamento.
Em Petrolina, análises encontraram coliformes fecais 200 vezes acima do limite seguro. O rio que sustentou gerações está padecendo. E não é só ele.
Outros rios importantes da região recebem um tratamento nada adequado durante seu percurso até o oceano. O rio Ipojuca, por exemplo, é considerado um dos rios mais poluídos do Brasil. É esse o tratamento que eles merecem?
Você conhece algum rio poluído da região Nordeste? Escreve aí nos comentários. Entre 1877 a 1879, o nordeste do país sofreu uma enorme e devastadora seca.
A grande seca, como ficou conhecida, vitimou entre 400. 000 a 500. 000 pessoas.
Fome, doenças e condições insalubres levaram uma onda de migração em massa de pessoas para os grandes centros. Na época, o Brasil ainda era uma monarquia, sendo as províncias mais afetadas a do Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte. A economia local baseada na agricultura e na pecuária foi quase totalmente aniquilada.
Com a perda dos rebanhos e das lavouras, muitos proprietários de terra faliram e os pequenos vilarejos perderam sua base econômica. Em 2012 a 2017, a região sofreu outra enorme estiagem, 5 anos de chuvas abaixo da média. Isso acarretou no colapso de inúmeros reservatórios.
Até quando vamos ficar dependentes exclusivamente das chuvas? Quando é que as políticas de enfrentamento a seca resolverão esse problema com seriedade? Por décadas, a resposta foi abrir a açudes, mas muitos foram erguidos em terras privadas, não atendendo a todos.
E quando a seca aperta, até os grandes açudes secam. Podemos ver logo de início que o problema nunca foi a seca, foi a seca de prioridades. [Música] Aqui o descaso não recebe punição e mesmo em meio a ele, cidades souberam aproveitar os recursos do rio.
Petrolina e Juazeiro provaram que o impossível pode florescer. Usando irrigação por gotejamento, assistência técnica e investimento contínuo desde os anos 70, elas se transformaram em oases. Milhões de toneladas de frutas são exportadas todos os anos, além de grande parte do abastecimento nacional, transformando em cidades prósperas.
Mas ainda há muita gente fora dessa bonança. Enquanto Israel investe 5% do PIB em pesquisa e desenvolvimento, o Brasil investe menos da metade disso e dessa porcentagem, menos de 1/3 é voltado para a prevenção das estiagens. Possuímos instituições importantes que trabalham no projeto de desenvolvimento de variedades de plantas adaptadas à seca.
Sistemas de captação de água, manejo sustentável da caatinga. Porém, há anos, seus orçamentos vêm sofrendo reduções. Não é falta de conhecimento, não é falta de capacidade, é escolha.
Israel escolheu tratar água como prioridade de sobrevivência nacional. O Brasil por décadas escolheu tratar a seca do Nordeste como um problema crônico. As soluções existem, as tecnologias existem, o conhecimento existe, mas são ilhas, exceções, projetos piloto que não se multiplicam quando deveriam ser regra pensar nos mais de 26 milhões que residem nessa região do país.
É verdade que a caatinga sofre, mas o sertanejo sempre encontrou formas de sobreviver. Muito antes da chegada das grandes obras, comunidades já cavavam barreiros, armazenavam cada gota de chuva em sistemas artesanais. Sabedoria ancestral que hoje poderia dialogar com ciência e tecnologia modernas.
As poucas alternativas oferecidas até agora ao povo sertanejo provam que quando se tem a ferramenta certa, o chão floresce. No sertão, a água nunca foi apenas recurso. Ela é cultura, memória, identidade.
É o canto que anuncia a chuva. É a fé nas procissões. É o olhar esperançoso voltado para o céu.
Quando falta a água, falta também uma parte da alma desse povo. Em comparação com Israel, temos um clima mais ameno, o que é excelente para a produção de diversas variedades de plantas e criações de rebanhos. Sem contar a fauna e a flora encontrada na Caatinga, além de possuir as chuvas um pouco mais previsíveis do que em um deserto.
Imagine este Nordeste tratando a água como Israel trata. Imagine plantas de dessalinização nas capitais, liberando água do rio para o sertão. Imagine saneamento universal, reflorestamento das margens, crédito acessível para irrigação, ciência fortalecida.
Não é utopia, é escolha. Israel provou que deserto não é destino. O Brasil precisa provar que a seca também não é.
Falamos tanto do São Francisco e não mencionamos sua maior obra recente, a transposição de suas águas. O vídeo que aparece agora na sua tela vai mostrar a origem desse rio, como ele mantém a caatinga viva e como ele está sendo aproveitado. Te espero por lá.