O milionário só parou naquele café para fugir do trânsito. 5 minutos, um café coado e de volta para a próxima reunião, até que lá do fundo do balcão veio uma risada e ele congelou. Era uma risada que ele não ouvia havia muito tempo e quando finalmente teve coragem de se virar, o mundo parou. [música] Apoie o canal deixando seu like e comentário e vamos para a nossa história. [música] O café ficava numa Esquina da rua dos Pinheiros e Henrique só entrou porque o motorista avisou que a Rebolsas estava parada e que até a Vila Olímpia
seriam no mínimo 40 minutos. Ele olhou o relógio, fez a conta e pediu para descer ali mesmo. 5 minutos de café eram melhores do que 40 no trânsito, ouvindo o Otávio no viva voz. Lá dentro estava quente e cheirava a pão de queijo. Tinha aquela mistura de gente que só pinheiro junta num fim de tarde. Dois rapazes de fone e notebook, Uma senhora dividindo uma fatia de bolo de fubá com a neta, um casal discutindo baixinho sobre quem ia buscar o cachorro no banho. Henrique pegou a mesa do canto perto da janela, sentou de costas
para o balcão e pediu um coado sem açúcar para a moça de trança que veio atender. Ela anotou num bloquinho, perguntou se ele não queria alguma coisa para comer. Ele disse que não. Ela disse: "Beleza". E sumiu. Ninguém ali sabia quem ele era. Era exatamente o que ele queria. O Celular tremeu em cima do mármore. Otávio ele deixou tocar. Logo depois veio a mensagem. Recife quer às 18 horas. Consegue? respondeu consigo e virou o telefone de cara para baixo, que era o máximo de rebeldia que se permitia numa terça-feira. O café chegou numa xícara branca
e pesada, dessas de padaria antiga. Estava bom, forte, meio amargo, sem aquela conversa de notas frutadas que os lugares caros adoravam escrever no cardápio. Tinha gosto de Café de casa. E Henrique ficou meio sem jeito com isso, porque fazia anos que não tomava café de casa. No apartamento dele, no Itaim, quem fazia café era uma máquina italiana que a assistente escolheu e que ele nunca aprendeu a limpar. Foi aí que ele ouviu uma risada lá do fundo de trás do balcão. Primeiro um hum preso no nariz. Depois um riso que escapava sem pedir licença e
no fim uma respirada funda, de quem ri e logo se arrepende. Henrique conhecia aquela Risada como conhecia a própria letra. Ficou com a xícara parada perto da boca e não terminou o gole. Não é ela pensou. Tem muita gente no mundo que ri parecido. Mesmo assim, não se virou. Ficou olhando pela janela para o reflexo apagado dele mesmo no vidro e percebeu que as mãos tinham ficado frias. Jéssica, o caixa fechou, tá? Se o seu Vanderlei vier com história, fala que eu contei duas vezes. Mineira. O tá subindo no final, o duas vezes arrastado, a
Pressa de quem já estava com metade da cabeça dentro do ônibus. Henrique fechou os olhos. Vai embora, Clarinha. Tu tá aqui desde às 8, respondeu a moça de trança. Tô indo. Tô indo. Amanhã quem abre sou eu, viu? 6:30 Clarinha. Ele desceu a xícara até o Piris devagar, sem fazer barulho, como se um barulho qualquer pudesse espantar alguma coisa. anos. Oito anos e um pouco se fosse contar direito. E ele sempre contava direito. Conheceu a Clara no terceiro Semestre da faculdade num corredor da PUC que cheirava a xherox. Ela nem estudava lá. Vendia pão de
mel numa caixa de isopor, cada um embrulhado em papel alumínio. E fazia isso meio escondida, porque o segurança já tinha mandado ela embora duas vezes. Ele comprou um, no dia seguinte comprou dois. Na outra semana, ela deu um de graça e disse que era porque ele tinha cara de quem esquecia de almoçar. Acertou. Ele esquecia mesmo. Ainda Esquecia. Moraram juntos, 5 anos, num apartamento pequeno na rua Harmonia, na Vila Madalena. O chuveiro queimava toda vez que esfriava e a janela da cozinha não fechava direito. Então, no inverno, eles cozinhavam de blusa. Ela fazia bolo por
encomenda e entregava de metrô com a caixa no colo, rezando para ninguém esbarrar. Ele montava a empresa numa mesa emprestada num galpão de Guarulhos, com três caminhões alugados e um contador que aceitava cheque pré-datado. Era tudo apertado. Olhando de longe, tinha sido a melhor época da vida dele. Mas ninguém avisa isso na hora. A lembrança mais nítida que ele tinha daquela risada era justamente daquele apartamento numa noite de junho em que o chuveiro queimou com ela ensaboada da cabeça aos pés. Ela saiu do banheiro, enrolada na toalha, tremendo com espuma no cabelo, e ele achou
que ia levar bronca. Em vez disso, ela parou no meio da sala, olhou para ele, olhou para a Toalha e começou a rir daquele jeito. E acabaram esquentando água no fogão, panela por panela, e ele despejou tudo devagar na cabeça dela, ajoelhado no box, enquanto ela reclamava que estava quente demais e depois que estava fria demais. Foi a noite em que ele decidiu que ia casar com ela. Nunca chegou a pedir, abriu os olhos e finalmente se virou. Ela estava perto da porta da cozinha de lado, tirando o avental verde do café. O cabelo estava
comprido, bem Mais do que ele lembrava, caindo em ondas escuras pelas costas. Ela vivia dizendo que ia deixar crescer e nunca deixava, porque cabelo comprido e cozinha não combinavam. Pelo jeito, agora combinavam. Desamarrou o avental sem pressa, dobrou em quatro, guardou num escaninho de madeira e ficou um segundo parada, com a mão na nuca, virando o pescoço de um lado para o outro. Ele já tinha visto aquele gesto mil vezes nas noites de encomenda Grande, quando ela passava horas batendo massa e depois reclamava que as costas estavam um nó só. Depois ela pegou um casaco
amarelo no cabide e vestiu. Henrique quase riu. Amarelo. Em 2016, ela tinha um casaco amarelo também de lã que pinicava, comprado num brechó da Teodoro Sampaio por R$ 20. Ele implicava. Dizia que ela parecia um táxi. Ela dizia que ele se vestia igual a um guarda-chuva fechado. Os dois tinham razão e ele olhou para o próprio Terno preto e achou que, pelo visto, nenhum dos dois tinha mudado tanto assim. Ela estava mais magra ou mais cansada, que às vezes dá no mesmo. Pegou a bolsa preta, abriu, mexeu lá dentro, procurando alguma coisa, fechou, contou umas
moedas na palma da mão, guardou no bolso do casaco. Henrique ficou olhando aquilo, as moedas, e sentiu uma coisa ruim no estômago que não sabia nomear direito. Não era pena. Clara nunca deixou ninguém ter pena dela, nem quando O dinheiro acabava no dia 20 e eles jantavam ovo com arroz por uma semana rindo, dizendo que era dieta, era outra coisa. Era saber que ele estava sentado ali com um relógio no pulso que pagava um ano de aluguel dela e que isso não servia para absolutamente nada naquele momento. O celular tremeu de novo em cima da
mesa e de novo. Otávio não desistia e a culpa era do próprio Henrique que tinha ensinado ao sócio que coisa importante a gente liga até a Pessoa atender. Ele ficou olhando o telefone virado e lembrou sem querer de outro telefone tocando num agosto de 8 anos atrás. Era a Clara, de Juiz de Fora, com a voz baixinha, dizendo que as coisas no hospital não estavam boas e que precisava dele lá. Ele disse que ia, que saía cedinho no dia seguinte. só tinha que resolver uma coisa com o banco. No dia seguinte, o banco pediu mais
um dia e ele pediu mais um dia para ela. Ela respondeu: "Tá bom. Do jeito Que Mineira diz, tá bom quando não está nada bom. Quando ele chegou, já tinha acabado. Tinha acabado até o choro. Ela abriu a porta da casa da mãe, olhou para ele e não brigou. E isso foi o pior, porque se ela tivesse gritado, ele saberia o que fazer. Ela só disse que estava cansada de ser o que ele fazia depois. Ele perguntou depois de quê? E ela, sem levantar a voz, respondeu: "Depois de tudo, Henrique. Três semanas mais tarde, ela
foi embora. Ele estava Dando o nó na gravata. Tinha reunião às 9, a reunião que ia salvar a empresa e salvou mesmo." Ela estava sentada no sofá com a mala do lado e pediu baixinho para ele ficar. Ele olhou o relógio, disse que à noite eles conversavam. Voltou às 11 com o contrato assinado e o apartamento pela metade. Na cozinha, pendurado no prego de sempre, ficou o coador de pano. Até hoje ele não sabe se ela esqueceu ou se deixou de propósito. Podia ter ido atrás. Sabia onde a mãe Dela morava. Tinha o telefone da
prima de Belo Horizonte. Não foi. Primeiro achou que ela precisava de um tempo, depois achou que quem precisava era ele. Depois achou que já era tarde. Enquanto achava essas coisas, a empresa cresceu. Três caminhões viraram 300. O galpão emprestado virou um centro de distribuição em Cajamar. E ele trocou de carro, de apartamento, de relógio, de terno. O coador ele não trocou. estava numa gaveta da cozinha do Itaim, dentro De um saquinho plástico, e nunca tinha contado isso para ninguém. Tchau, Clarinha. Vai com Deus. Fica com ele, Gé. Fica com ele. A avó dela falava isso.
A mãe dela falava isso e a Clara falava para o porteiro, para o motoboy, para o moço da farmácia. Henrique tinha esquecido. Não, mentira. Ele não tinha esquecido nada. Ela veio andando em direção à porta. Para sair tinha que passar do lado da mesa dele, entre um vaso de planta e um arranjo de rosas Brancas. Henrique endireitou as costas sem perceber. Ela ia ver. Não tinha como não ver. Não viu. Vinha olhando o celular, provavelmente o aplicativo do ônibus, a testa franzida, o polegar rolando a tela. Passou tão perto que ele sentiu o cheiro que
ela trazia na roupa, canela, fermento, café, cheiro de quem passou o dia inteiro dentro de uma cozinha. Tão perto que dava para encostar na manga do casaco. Ele não encostou, ficou ali e uma parte da Cabeça dele, a parte que fazia planilha, disse com toda a calma do mundo: "Atende o Otávio, vai paraa reunião e amanhã, se der, você volta aqui às 6:30. e conversa com calma. Era uma ideia razoável. Era a mesma ideia de 8 anos atrás, só com outro endereço. E mesmo que não fosse o que ele ia dizer. Oi, lembra de mim?
Ela lembrava. Desculpa. 8 anos depois, com cara de quem acabou de sair de uma reunião, parecia deboche. Quer uma carona? Pior ainda, toda frase que Passava pela cabeça dele tinha cara de contrato mal redigido e ele sabia que a Clara ia ler cada uma nas entrelinhas. Clara chegou à porta e empurrou o vidro. Entrou um vento frio, cheiro de asfalto molhado, barulho de ônibus freando no ponto. Tinha começado a garoar. Ela parou meio segundo, olhou pro céu com aquela cara de era só o que me faltava e ajeitou a bolsa no ombro. O telefone tremeu
na mesa. Henrique levantou tão depressa que bateu o joelho no tampo e a Xícara virou. O café escorreu pelo mármore e começou a pingar no chão. A cadeira arrastou alto. A senhora do bolo olhou. A Jéssica parou o pano no meio da vitrine. Clara saiu mais baixo do que ele queria, quase rouco, mas saiu. Ela parou, a mão ainda no vidro, a porta aberta pela metade, um pé praticamente na calçada. Não se virou. Ele viu os ombros dela subirem devagar e ficarem lá em cima, como de quem prende o ar, e ainda não decidiu se
vai soltar. Lá Fora, a garoa seguia caindo. Em cima da mesa, o celular parou de tremer. E Henrique, que tinha passado 8 anos imaginando o que diria se um dia a encontrasse, percebeu que não lembrava de uma palavra sequer. Ela demorou para se virar. Demorou tanto que Henrique chegou a pensar que ela ia simplesmente empurrar o resto da porta e ir embora e que ele teria que viver com a imagem daquele casaco amarelo sumindo na garoa pelo resto da vida. Mas os ombros Desceram. Ela soltou o ar, tirou a mão do vidro e virou o
corpo devagar, sem pressa nenhuma, do jeito que a gente se vira quando já sabe quem está chamando. Não tinha susto no rosto dela. Isso foi a primeira coisa que ele notou. E foi o que mais o desmontou. Ele tinha imaginado aquele momento de todas as formas possíveis, com ela chorando, com ela brava, com ela fingindo que não o conhecia, mas nunca com aquela cara tranquila e cansada de quem só estava Esperando a hora de ter que lidar com aquilo. Oi, Henrique. Ele abriu a boca e não saiu nada. Ela olhou para a mesa atrás dele,
para o café, escorrendo do mármore e pingando no chão. E alguma coisa no canto da boca dela se mexeu, quase nada. Continua derrubando tudo quando fica nervoso. "Você me viu?", ele disse. E não era pergunta. "Te vi." Ela ajeitou a alça da bolsa no ombro. "Quem passou o seu café fui eu. A Jéssica só levou." Henrique olhou para a Xícara caída, depois para ela. O gosto de café de casa, o coado forte, sem firula. Ela tinha visto ele sentar, tinha feito o café dele, tinha deixado a Jéssica levar, tinha tirado o avental, contado as moedas,
vestido o casaco e passado a um palmo da mesa dele, olhando para o celular. Tudo isso sabendo, ia embora sem falar nada. ia. Ela não pediu desculpa pela resposta. Eu tô de pé desde as 5 da manhã, Henrique. Não tenho mais idade para fazer cena em porta de Café. Atrás dele, a Jéssica tinha saído do balcão com um pano na mão e agora secava a mesa com a lentidão de quem quer ouvir tudo. A senhora do bolo de fubá tinha parado de dar pedaço para a neta. Até o casal do cachorro tinha resolvido a discussão
para prestar atenção. Clara percebeu, olhou para todos eles por cima do ombro dele e depois de novo para ele. "Meu ônibus passa em 7 minutos", disse. Se eu perder, o próximo é daqui a 40. Foi bom Te ver. Tá bonito o terno. E virou para a porta. Henrique ficou parado exatamente um segundo. Depois ouviu atrás de si o celular recomeçando a tremer em cima da mesa molhada e a Jéssica dizendo: "Moço, seu telefone." E ele não voltou para pegar. Passou pela porta atrás de Clara, sem guarda-chuva, sem palitó abotoado, com o joelho ainda doendo da
pancada na mesa, e a garoa gelada de fim de tarde bateu na cara dele como um tapa de mão aberta. Ela já Estava na calçada, andando rápido na direção do ponto, a bolsa apertada contra o corpo. Ele alcançou em poucos passos. Deixa eu te levar. Não, o motorista tá aqui perto. É só eu ligar. E Você deixou o telefone lá dentro? Ele parou. Tinha deixado mesmo. Olhou para trás, para a vitrine iluminada do café, onde dava para ver a Jéssica segurando o aparelho no alto e fazendo sinal para ele. Olhou de novo para Clara. Ela
também tinha parado e agora olhava para Ele com uma expressão que ele não conseguiu decifrar. Não era raiva. Parecia mais curiosidade, como quem vê alguém fazendo uma coisa que nunca tinha visto aquela pessoa fazer. Depois eu pego ele disse. Ela ficou um instante calada. Depois voltou a andar e ele foi junto. O ponto de ônibus era uma cobertura de acrílico riscada com um banco de metal onde ninguém sentava porque estava molhado. Tinha umas 10 pessoas esperando, a maioria de Uniforme, gente saindo de loja, de escritório, de cozinha de restaurante. Um rapaz de moletom comia um
pastel embrulhado em guardanapo. Uma moça falava ao telefone em voz alta sobre a janta das crianças. Henrique, de terno escuro e sapato italiano, ficou ali no meio deles, se sentindo mais deslocado do que em qualquer reunião de conselho da vida dele. Clara parou debaixo da cobertura e ficou olhando o painel eletrônico que não funcionava. Ele parou Do lado dela. Você voltou para São Paulo. Disse, porque precisava dizer alguma coisa. Faz 3 anos. 3 anos. Não é tão grande assim a cidade, né? Ela deu um meio sorriso sem olhar para ele. Mas pra gente se esbarrar
tinha que ser num café em Pinheiros numa terça-feira. Você nem mora para esses lados. Não moro. O trânsito estava parado. Ela soltou um riso curto pelo nariz e ele sentiu o estômago virar porque era um pedaço daquela risada. Olha só, 8 anos e quem Juntou a gente foi a Rebolsas. Ele queria perguntar tudo ao mesmo tempo. Onde ela morava? Com quem? se estava bem, se estava sozinha, porque um café e não a confeitaria, se ainda fazia pão de mel? Se ainda falava fica com ele para o motoboy? Mas cada pergunta parecia um direito que ele
não tinha mais. Escolheu a menor delas. Como tá sua mãe? Clara demorou para responder. Ajeitou o cabelo molhado atrás da orelha. Tá comigo? mora comigo agora lá no campo limpo. Fez uma Pausa. Por isso eu voltei. Na verdade, lá em Juiz de Fora não tinha mais nada pra gente e aqui eu conseguia trabalho. A cabeça dela não tá muito boa, Henrique. Às vezes ela esquece onde deixou as coisas. Às vezes esquece que ano é. Eu não sabia. Não tinha como você saber. Não disse isso com amargura. disse como quem constata que o céu está nublado.
E foi justamente por isso que doeu. Não tinha como ele saber, porque ele nunca tinha perguntado. 8 anos sem Uma mensagem, sem uma ligação, sem um Tudo bem por aí. E dona Lourdes, que fazia goiabada Cascão num tacho de cobre e mandava potes para ele em São Paulo, embrulhados em jornal, que o chamava de meu filho desde o segundo almoço de domingo, estava agora numa casinha no campo limpo, esquecendo que ano era. "E a confeitaria?", ele perguntou mais baixo. Clara olhou para ele pela primeira vez desde que saíram do café. Olhou de verdade de frente
e ele viu que Os olhos dela estavam mais escuros do que ele lembrava, ou talvez fosse só a luz amarelada do poste. "Sonho não paga aluguel, Henrique. Você me ensinou isso." Ele não respondeu. Não tinha resposta. Ele nunca tinha dito aquilo com essas palavras, mas tinha vivido daquele jeito todos os dias na frente dela e ela tinha aprendido. O ônibus apareceu na esquina. Um articulado verde com o letreiro piscando terminal Capelinha. E as 10 pessoas do ponto se Mexeram ao mesmo tempo, como um cardume. Clara deu um passo para a frente, já tirando o bilhete
único da bolsa. "Foi bom te ver", ela repetiu. E agora a voz saiu um pouco menos firme. "De verdade, fico feliz que deu tudo certo para você". O ônibus parou com um chiado de freio. A porta abriu. Clara subiu o primeiro degrau. Henrique ficou na calçada. Um garoua escorria pela gola da camisa, entrava pelo colarinho. E ele pensou no telefone nas mãos da Jéssica, No Otávio ligando, nos investidores de Recife, abrindo o notebook às 6 em ponto no motorista esperando na Teodoro Sampaio, sem saber onde ele estava. pensou em tudo isso e percebeu, com uma
clareza que quase o fez rir, que não se importava com nada daquilo. Não naquele minuto. Talvez pela primeira vez em 8 anos, subiu atrás dela. Clara já tinha passado o cartão e estava na catraca quando sentiu alguém encostar nas costas. Virou e deu de cara com ele no Degrau, pingando espremido entre o rapaz do pastel e a moça da janta das crianças. Você tá doido? Provavelmente o cobrador, um senhor de bigode grisalho e boné do Corinthians, olhou para Henrique de cima a baixo, do sapato ao cabelo molhado. Cartão, chefe. Henrique enfiou a mão no bolso
do palitó. Carteira. Abriu. Cartão de crédito preto, cartão corporativo, cartão da academia que ele nunca frequentava. Duas Notas de R$ 100, nenhum bilhete único. Estendeu uma nota de 100. "Não tenho troco para isso não, patrão", disse o cobrador, sem nem pegar. Atrás deles, alguém reclamou que estava chovendo e que queria entrar. O motorista buzinou curto. Henrique ficou ali com a nota de 100 na mão, dono de 300 caminhões, sem conseguir passar uma catraca de ônibus. Clara olhou para ele por um longo segundo, depois enfiou a mão no bolso do casaco amarelo, tirou as moedas que
Tinha contado lá no café, separou algumas na palma e entregou ao cobrador. Deixa que eu pago, Clara, não precisa. Precisa sim, senão a gente não sai daqui hoje. Ela empurrou a catraca, passou e esperou do outro lado. Anda e Henrique. Ele passou. A catraca girou com um estalo seco. O ônibus arrancou com um tranco e ele se segurou na barra de metal para não cair em cima de uma senhora com sacola de feira. Clara foi andando pelo corredor até o fundo, onde Tinha dois lugares vagos, um do lado do outro, perto da janela embaçada. Sentou
na janela. Ele sentou do lado. Ficaram em silêncio por um tempo. O ônibus sacolejava, passava pelos buracos da rua dos Pinheiros e os joelhos deles se encostavam a cada curva e nenhum dos dois afastava. Lá fora, São Paulo passava borrada, faróis vermelhos, luminosos de farmácia, gente correndo com a bolsa na cabeça. Ele ficou olhando para as mãos dela no colo, os dedos com Pequenas marcas de queimadura de forno e pensou que devia ter passado os últimos 8 anos querendo saber como eram aquelas mãos agora. Fazia quanto tempo que ele não andava de ônibus? tentou lembrar
e não conseguiu. A última vez devia ter sido na época do galpão, quando ele pegava o metrô até o Tatuapé e depois um ônibus lotado até Guarulhos, 1 hora e meia para ir, 1 hora meia para voltar e chegava em casa de noite com a camisa grudada nas costas. Clara esperava Acordada, com um prato no forno coberto por outro prato e perguntava como tinha sido o dia. Ele contava tudo, cada caminhão, cada cliente, cada boleto. Ela o via com os pés em cima das pernas dele no sofá e às vezes cochilava no meio da história.
E ele continuava falando baixinho mesmo assim. Nunca tinha passado pela cabeça dele perguntar como tinha sido o dia dela. Estava passando agora. sentado num banco duro no fundo de um articulado e parecia uma pergunta Pequena demais para 8 anos de atraso. "Eu te devo uma passagem", ele disse finalmente. Clara continuou olhando pela janela, passou a manga do casaco no vidro, abrindo um círculo no embaçado. "Você não me deve nada, Henrique." Ele não sabia se aquilo era perdão ou o contrário. Ela também não explicou. ficou um tempo quieta e depois virou o rosto para ele com
o círculo de vidro limpo atrás, a cidade escorrendo lá fora. Esse ônibus vai até o terminal Capelinha. Dá uns 50 minutos se o trânsito ajudar e hoje não vai ajudar. Ela cruzou os braços. Você tem até lá para falar o que veio falar. Depois você desce, pega um táxi, volta para sua vida e a gente finge que isso aqui não aconteceu. Henrique olhou para ela, lembrou da reunião com os investidores, que devia estar começando naquele exato minuto sem ele. Lembrou do coador guardado na gaveta. Lembrou do sábado de agosto dela sentada no sofá com a
mala Do lado pedindo baixinho para ele ficar. Tinha 50 minutos. anos atrás, ela tinha pedido muito menos do que isso. Henrique passou os primeiros 5 minutos sem conseguir dizer nada que prestasse. Abriu a boca duas vezes e fechou. Clara não ajudou. Ficou olhando pelo círculo que tinha aberto no vidro, os braços cruzados esperando, e ele percebeu que ela não ia facilitar em nada e que estava certa em não facilitar. "Eu queria te pedir Desculpa", ele disse por fim. Começou mal. Por quê? Porque eu queria. É coisa de quem ainda tá pensando se vai. Ela não
tirou os olhos da janela. Você sempre falou assim quando não tinha certeza. Eu queria ir no aniversário da sua prima. Eu queria jantar com você hoje. Queria. Queria. Eu passei 5 anos morando com um homem que queria. Ele engoliu em seco. O ônibus parou num ponto. Entrou uma turma de estudantes de mochila rindo alto e o barulho encheu o Corredor por um minuto antes de ir diminuindo. Tá bom. Desculpa. Sem queria. Desculpa pelo quê, Henrique? A pergunta veio simples, sem ironia. E foi por isso que ele travou, porque a resposta tinha tantas camadas que ele
não sabia por onde começar e porque tinha a sensação de que se escolhesse a errada, ela ia levantar e descer no próximo ponto. Por não ter ido quando você me chamou, por ter ficado no banco, eu achei que era um dia, que um dia não Ia fazer diferença, que a empresa eu sei da empresa. Ela cortou sem levantar a voz. Eu tava lá, lembra? Eu sei do banco, eu sei da dívida, eu sei que se você não assinasse aquilo, ia todo mundo pra rua. Os motoristas, a moça do escritório, você. Eu sei de tudo isso.
Eu entendia na época e entendo agora. Então, então [limpando a garganta] não foi isso que me fez ir embora. Henrique ficou olhando para ela. O ônibus deu um solavanco num buraco e os dois Balançaram juntos. e ela segurou na barra do banco da frente sem se apoiar nele. "Eu fiquei três semanas esperando você falar alguma coisa", ela disse: "Três semanas depois que eu voltei de Juiz de Fora. Você chegava em casa, jantava, perguntava se eu tava bem, eu dizia que tava, você ia dormir de manhã, a mesma coisa." Você nunca perguntou como foi, nunca perguntou
o que ele disse, se sentiu dor, se eu consegui me despedir. Parecia que tinha acontecido Com uma vizinha. Você resolveu o banco e seguiu a vida. E eu fiquei esperando você voltar para dentro de casa e você não voltou. Ele queria dizer que não era verdade, mas era. Lembrava daquelas três semanas como um borrão de trabalho, a renegociação da dívida, as reuniões com o banco, as noites em claro fazendo planilha, e lembrava da Clara quieta pela casa e lembrava de ter achado que aquele silêncio era ela precisando de espaço. Era mais fácil achar isso. Eu
Não sabia o que dizer, ele admitiu. E eu tinha vergonha. Toda vez que eu olhava para você, eu lembrava que não tinha ido. Então você parou de olhar. Ele não respondeu. Um vendedor subiu no ponto seguinte com uma caixa de isopor pendurada no pescoço, anunciando paçoca, bala de gengibre e água gelada 3x5, e foi passando pelo corredor, sacudindo a caixa. Quando chegou perto deles, olhou para o terno de Henrique com esperança. Uma paçoquinha pro casal. Doutor, não Temos troco. Clara respondeu antes que ele abrisse a carteira e o vendedor deu uma risada e seguiu em
frente. Henrique olhou para ela. Pela primeira vez desde o café, ela estava quase sorrindo, olhando para baixo, balançando a cabeça. Duas vezes no mesmo dia! Ela disse, o homem mais rico que eu conheço e não consegue comprar uma paçoca. Você conhece muito o homem rico? Só você. Mas é o suficiente para ter uma ideia. O quase sorriso durou pouco. Ela voltou a Olhar pela janela e ficou um tempo em silêncio. A rua dos Pinheiros tinha ficado para trás e agora o ônibus entrava na Avenida Francisco Morato, subindo devagar num trânsito de fim de tarde que
parecia não andar nunca. Você nunca me procurou", ela disse baixo. Isso eu nunca entendi. Eu achei que você ia ligar. Na primeira semana eu deixava o celular do lado do travesseiro. No primeiro mês, eu ainda olhava toda vez que tocava. Depois eu parei. Henrique Respirou fundo, ficou olhando para as próprias mãos. Eu fui lá. Ela virou o rosto devagar. Foi aonde, Juiz de Fora? Um ano depois, mais ou menos, tinha uma reunião com uma transportadora em Belo Horizonte e eu desviei o caminho. Fui até a rua da sua mãe lá no São Mateus. Parei o
carro na esquina perto da padaria. Clara não disse nada. Ele continuou porque tinha começado e não sabia mais parar. Você tava no quintal estendendo roupa, tava de cabelo preso Com uma camiseta velha do tupi e tava rindo de alguma coisa que sua mãe falou lá de dentro. Eu fiquei olhando uns 10 minutos, depois liguei o carro e fui embora. Por quê? Porque você estava rindo. A voz dele falhou um pouco. Eu achei que você estava bem, que tinha seguido, que eu ia chegar e estragar tudo de novo. Clara ficou olhando para ele. O rosto dela
mudou e ele não soube dizer se era raiva ou outra coisa. Quando ela falou, a voz estava mais Baixa, mas tinha uma coisa dura por baixo. Você foi até a porta da minha casa, me viu e foi embora de novo. Ela apertou os braços cruzados contra o corpo. Você entende o que você tá me falando? Você teve a chance de ir embora de mim duas vezes, Henrique, e aproveitou as duas. Não foi assim. Foi exatamente assim. Você decidiu por mim. Você decidiu que eu tava bem, que eu não precisava de você, que era melhor para
mim. Ninguém me perguntou nada. Ela Balançou a cabeça. Eu ria de tudo naquela época. Ra se eu parasse de rir, eu não levantava da cama. Minha mãe sabia disso. Você não sabia porque nunca ficou tempo suficiente para saber. Uma senhora no banco da frente se virou discretamente para o olhar e depois fingiu que estava arrumando a sacola. Clara percebeu e baixou ainda mais o tom. "Sabe o que meu pai perguntou antes de morrer?" Henrique sentiu o corpo inteiro ficar gelado. Eles nunca tinham Falado sobre aquilo, nem naquelas três semanas, nem nunca. "Seu Geraldo teve o
AVC numa quinta", ela disse, olhando para as próprias mãos. Na sexta, ele acordou meio confuso, falando enrolado, mas acordou. E a primeira coisa que ele perguntou foi: "Cadê o menino?" Ele te chamava assim, lembra? O menino queria saber se você ia chegar a tempo de ver ele tomar a sopa sozinho porque tinha feito aposta com a enfermeira que no sábado ia comer sem ajuda. Ela parou, Respirou. [música] Eu falei que você tava na estrada, que tinha saído cedo, que já estava passando por barbacena, que chegava de tarde. Ele sorriu, ficou o dia inteiro olhando pra
porta do quarto. De tardezinha perguntou de novo e eu falei que tinha pegado trânsito na serra. De noite ele dormiu e não acordou mais. O ônibus parou num semáforo. Ninguém falou nada. Lá fora, a garoa tinha engrossado e escorria pelos vidros em linhas tortas. Eu mentiu pai No último dia da vida dele. Clara disse, por sua causa. E eu nunca contei isso para ninguém, nem para minha mãe. Carreguei isso sozinha. E aí eu voltei para casa e você nem perguntou. Henrique não conseguiu dizer nada. sentiu os olhos arderem e virou o rosto para o corredor,
para os estudantes de mochila, para o vendedor de paçoca, que agora descia pela porta do meio. Seu Geraldo, que o ensinou a limpar peixe na beira do rio Paraaibuna, que ria das piadas ruins Dele, que no primeiro Natal que passaram juntos em Juiz de Fora, o puxou para o quintal e disse: "Sério? Que se ele fizesse a filha dele chorar, ia ter que se ver com ele? Seu Geraldo morreu, olhando para uma porta, esperando por ele. "Eu não sabia", ele disse com a voz quebrada. "Eu sei que não sabia." Clara passou a mão no rosto
rapidamente, sem deixar nada escorrer. "Por isso que eu tô te contando, não para você se sentir mal, mas porque você me pediu desculpa. E desculpa pela metade, eu não quero." Ficaram calados um bom tempo. O ônibus seguia pela estrada de Itapecerica. As luzes da cidade ficando mais baixas, mais espalhadas, os prédios dando lugar a casas de laje sem reboco, bares com mesa de plástico na calçada, uma igreja evangélica com a porta aberta e um teclado tocando lá dentro. Henrique nunca tinha estado naquela parte da cidade. Tinha caminhões dele que passavam por ali todo dia, levando
carga Para os mercados da zona sul, mas ele mesmo nunca tinha estado. "Eu passei 8 anos trabalhando", ele disse depois de um tempo, sem saber direito porque estava dizendo aquilo. "Todo dia, sábado, domingo, feriado, a empresa cresceu tanto que eu nem sei mais quantos funcionários tem. Eu tenho um apartamento que parece hotel e eu acordo de madrugada, quase toda a noite, com a sensação de que esqueci alguma coisa. Todo dia eu acordo, achando que esqueci Alguma coisa. Clara olhou para ele de lado. E esqueceu. Esqueci você na rua Harmonia. Ela não respondeu, mas desta vez
não virou o rosto para a janela. ficou olhando para ele e ele sustentou o olhar. E, por um instante o ônibus inteiro pareceu ficar em silêncio, embora não estivesse. O articulado entrou no terminal Capelinha, fazendo uma curva longa, com os freios chiando, e parou numa plataforma coberta, cheia de gente, esperando outras linhas. As Portas abriram, as pessoas começaram a descer, empurrando, puxando mochila, abrindo guarda-chuva antes mesmo de sair. Clara levantou e ajeitou a bolsa no ombro. Henrique levantou também. "Chegamos", ela disse aqui. "Eu pego outro até o campo limpo. Você pega um táxi ali na
saída." Clara, foram 50 minutos, Henrique. Eu falei que era até aqui. Desceram juntos paraa plataforma. Estava frio. O vento entrava pelas laterais do terminal trazendo a garoa, e As pessoas passavam apressadas entre eles. Ela parou, olhou para ele, como quem vai dizer tchau! E nesse momento, o celular dela tocou dentro da bolsa. Clara tirou o aparelho e olhou a tela. O rosto dela mudou na hora. É a dona Zefa, minha vizinha. Disse mais para si mesma do que para ele. E atendeu. Oi, dona Zefa. Aconteceu alguma coisa com a mãe? Henrique ficou ouvindo sem querer.
Do outro lado, uma voz de senhora falava rápido, alto, e ele só conseguia pegar Pedaços. Clara ouviu calada, com a mão livre, apertando a alça da bolsa. Depois fechou os olhos por um segundo. Tá, tá bom, dona Zefa. Não pode deixar ela aí com a senhora. Eu tô chegando. 20 minutos. Obrigada. Desligou. Ficou olhando para o celular sem guardar. Henrique deu um passo para perto. Tá tudo bem com a sua mãe? Clara levantou os olhos para ele e tinha no rosto uma expressão que ele não conseguiu ler. Uma mistura de cansaço, susto e alguma coisa
Que parecia quase uma risada presa. Ela saiu de casa sozinha e foi parar na porta da dona Zefa de chinelo na chuva. Clara fez uma pausa, tá lá sentada no sofá da vizinha tomando chá, dizendo que não volta para casa enquanto você não chegar. Henrique ficou parado. Eu? Ela pergunta de você quase todo dia, Henrique. Clara guardou o celular na bolsa devagar. Na cabeça dela, você só tá atrasado. O segundo ônibus demorava 20 minutos e Clara não tinha 20 minutos. Ficou parada na plataforma, olhando o painel, fazendo conta de cabeça. E Henrique percebeu que ela
estava decidindo se gastava o dinheiro de um táxi. Ele tirou a carteira do bolso e ofereceu pagar pelo menos aquilo. Ela olhou para a nota de 100 na mão dele e quase riu, dizendo que táxi aceitava dinheiro e que finalmente aquela nota ia servir para alguma coisa. Pegaram um táxi na saída do terminal, um espinho prata com terço pendurado no retrovisor E rádio sintonizado num jogo do Palmeiras. O motorista quis saber se era para ir pela estrada do campo limpo ou por dentro. E Clara foi explicando o caminho. Vira aqui, sobe ali. Cuidado com a
lombada, com a naturalidade de quem já tinha feito aquele trajeto mil vezes. Henrique ficou quieto ao lado dela, olhando as ruas estreitas passarem, cheias de subida, com fio de poste embolado e muro pintado com propaganda de festa de aniversário. meio Do caminho. Sem tirar os olhos do para-brisa, Clara avisou que a mãe podia chamá-lo de outro nome, achar que ainda era 2016 ou perguntar pelo pai, e pediu que ele não a corrigisse, porque o médico tinha dito que corrigir só a deixava nervosa. Também pediu que ele não falasse da empresa, nem de dinheiro, porque número
a deixava agitada. Ele concordou com tudo e viu que ela estava com as mãos apertadas no colo. A casa da dona Zefa ficava no meio de uma ladeira, Um sobrado de portão azul com vaso de espada de São Jorge na entrada. Quem abriu foi a própria dona Zefa, baixinha, de avental de florzinha e chinelo de dedo. Olhou primeiro para Clara com alívio. Contou que a mãe estava lá dentro quietinha, que já tinha tomado dois copos de chá de cidreira e comido meio pacote de rosquinha. E depois olhou para Henrique com uma curiosidade que não fez
questão nenhuma de esconder. "Esse aqui é o famoso?", perguntou. E Quando Clara fechou os olhos e murmurou o nome dela em tom de súplica, a senhora só deu de ombros. Ué. Ela falou o nome dele umas 20 vezes. Prazer, meu filho. Entra que tá frio. A sala era pequena, com um sofá de corino coberto por uma manta de crochê, televisão ligada sem soma novela, uma estante cheia de santos e porta-retratos. Dona Lourdes estava sentada no canto do sofá, enrolada num chale. com os pés de chinelo molhados, apoiados numa almofada. Estava menor do Que Henrique lembrava,
mais branca, mais frágil, com o cabelo curtinho e os olhos meio perdidos na tela. Mas quando virou o rosto e o viu, os olhos se acenderam de um jeito que ele não esperava. Oh, meu filho! Ela tentou levantar e não conseguiu de primeira. Que demora, gente! O Geraldo já limpou o peixe e tudo. Tá esperando você para fritar. Henrique sentiu a garganta fechar, olhou para Clara, parada na porta e ela fez um aceno mínimo com a cabeça. Ele foi até o Sofá, se abaixou e segurou as mãos da dona Lourdes, que estavam geladas. pensou em
seu Geraldo, olhando para a porta do quarto do hospital em clara, dizendo que ele estava em Barbacena, preso no trânsito da serra, e soube que não conseguiria mentir para aquela mulher, não depois do que tinha ouvido no ônibus. Cheguei, dona Lourdes, desculpa a demora. Era a única coisa verdadeira que ele podia dizer e bastou. Dona Lourdes apertou as mãos dele e Sorriu. Disse que estava desculpado, mas que a Clarinha tinha ficado chateada, que não falava, mas que mãe conhece e que ela tinha ficado esperando. Henrique respondeu que sabia da porta. Clara chamou a mãe para
ir para casa, que já estava tarde, e a dona Zefa precisava descansar. E dona Lourdes respondeu que só ia se ele fosse junto. Clara olhou para Henrique. Henrique olhou para Clara e dona Zefa assistia a tudo como se fosse o capítulo final da novela. Clara Acabou dizendo que ele ia. A casa delas ficava três portões acima, subindo mais um pedaço da ladeira. Henrique segurou dona Lourdes de um lado e Clara do outro, e foram devagar, passo por passo, com a garoa fina molhando o chale. Dona Lourdes falou o caminho inteiro do tempo, do preço do
tomate, de uma cachorra que tinha dado cria na rua de baixo e perguntou duas vezes se o Geraldo tinha comprado fubá para o Angu. Clara respondeu as duas vezes que sim, Sem pressa, sem aquele cansaço na voz de quem repete a mesma coisa pela décima vez no dia, como se cada pergunta fosse nova. Henrique, que perdia a paciência quando um diretor repetia um número em reunião, ficou pensando em quantas vezes por dia ela fazia aquilo e em quem cuidava dela quando chegava em casa depois de 10 horas em pé. Era uma casa pequena, de dois
cômodos e cozinha, no fundo de um terreno onde morava mais gente na frente. Por dentro era limpa e Apertada, com piso de cerâmica bege e cortina de pano na janela. E o que chamou a atenção de Henrique foram os bilhetes. Tinha bilhete colado em tudo com letra redonda e caneta azul na geladeira. Mãe, a comida tá no pote verde, é só esquentar. No fogão não acender sozinha. Na porta do banheiro, toalha limpa na gaveta de baixo. No espelho da sala, perto do telefone fixo. Clara chega a Sis. Se precisar, liga para dona Zefa com o
número em letra Grande. Na mesa da cozinha, coberto por um pano de prato, tinha um bolo de dois andares com chantilly, ainda sem decoração, uma bandeja de morangos do lado e um papel com a anotação. Encomenda Nilsa. Amanhã cedo, 15 pessoas escrever. Parabéns, vó Teresa. Henrique levantou uma pontinha do pano, olhou para Clara, que tirava o chale molhado da mãe, e perguntou baixinho se Sonho não pagava aluguel mesmo. Ela não respondeu, mas corou, e ele não comentou Mais nada. Dona Lourdes foi acomodada na poltrona da sala com uma manta nas pernas e Clara se ajoelhou
na frente dela para tirar o chinelo molhado e secar os pés com uma toalha. fazia aquilo com uma paciência que Henrique nunca tinha visto em ninguém, conversando enquanto secava, prometendo uma sopinha, dizendo que amanhã ia fazer sol. Em certo momento, dona Lourdes olhou para Henrique, parado no meio da sala, sem saber onde se colocar, e pediu Que ele fizesse um café para eles, do jeito que a Clarinha fazia. Ele ia dizer que não sabia, mas parou. Sabia, sim. tinha aprendido na rua Harmonia com Clara de pé atrás dele corrigindo tudo. A água não pode ferver,
o pó não pode apertar, derrama devagar e em círculo. Parece que você tá com raiva do café. Foi para a cozinha. Havia um coador de pano pendurado num prego ao lado da pia. Não o mesmo, claro, mas igual, manchado de marrom do mesmo jeito. Encheu a Leiteira, acendeu o fogo, pegou o pó num pote de sorvete com etiqueta escrita café e ficou observando as bolinhas pequenas se formarem no fundo sem deixar ferver. Clara apareceu na porta e ficou encostada no batente, olhando, e disse que ele tinha lembrado. Ele respondeu sem se virar que não podia
ferver, senão queimava o pó, e derramou a água devagar em círculo, com o cheiro subindo e enchendo a cozinha, e sentindo o olhar dela nas costas o tempo inteiro. Serviu Em três xícaras diferentes, que eram as que havia, e levou para a sala. Dona Lourdes segurou a dela com as duas mãos, soprou, tomou um gole de olhos fechados e disse que estava bom, quase igual ao da filha. Ficaram os três em silêncio, com a novela passando sem som, até que dona Lourdes abriu os olhos e olhou para Henrique de um jeito diferente. Os olhos pararam
de flutuar e ficaram fixos, lúcidos, examinando o rosto dele como se o vissem pela primeira vez. Você tá mais Velho", disse devagar. E quando ele confirmou com a xícara parada no colo e clara e móvel ao lado, ela quis saber quanto tempo fazia. Henrique olhou para Clara, que não fez sinal nenhum, e respirou antes de responder que eram 8 anos. Dona Lourdes ficou calada um tempo, olhando para a cozinha, para o corredor, para a porta do quarto, e alguma coisa no rosto dela desmoronou devagar. perguntou se o Geraldo não estava esperando por ele para o
peixe e Ele disse que não, senhora, que não estava. Ela não chorou alto. Chorou do jeito que as pessoas daquela idade choram, quieta com as lágrimas descendo sozinhas. Clara se levantou para ir até ela, mas dona Lourdes ergueu uma das mãos e a fez parar, e estendeu a outra para Henrique, que assegurou. Você sumiu, menino", disse. E quando ele pediu perdão, ela apertou a mão dele com uma força inesperada. "Não é a mim que você tem que pedir. Essa menina aí não Sabe pedir nada para ninguém, nunca soube. Pede para Deus e olhe lá. Fica
carregando tudo sozinha até o dia que cai." Clara tentou interromper e a mãe não deixou. "Não deixa eu falar enquanto eu lembro, Clara. Se você voltou, é para ficar. Se não é para ficar, vai embora hoje, antes dela se acostumar de novo. Ouviu? Henrique olhou para ela e depois para Clara, de pé no meio da sala, com os olhos cheios e a mão tapando a boca, e respondeu que tinha ouvido. Dona Lourdes a sentiu satisfeita, soltou a mão dele e tomou mais um gole de café. Em poucos segundos, os olhos voltaram a flutuar e ela
perguntou se aquela novela era nova. Clara disse que era. Dona Lourdes dormiu meia hora depois, na poltrona mesmo, e os dois a levaram para o quarto. Quando voltaram, passava das 10 da noite. A reunião com Recife tinha acabado havia muito tempo e Otávio devia ter ligado umas 30 vezes. Henrique percebeu que não tinha pensado nisso uma Única vez desde o terminal. Em 8 anos, nunca tinha faltado a uma reunião daquele tamanho, nem com febre. nem no dia em que a mãe dele operou a vesícula e agora estava ali numa sala de dois cômodos no campo
limpo, com a barra da calça ainda molhada e as mãos cheirando a café, sem a menor vontade de estar em outro lugar. Clara recolheu as xícaras e ele foi atrás. Ficaram na cozinha apertada, ela lavando, ele secando com o pano de prato, sem que ninguém tivesse Combinado nada do mesmo jeito que faziam na rua Harmonia. Ela contou, sem olhar para ele, que a mãe tinha aqueles momentos poucos de um ou dois minutos, e que fazia meses que não tinha um assim. Ele disse que dona Lourdes estava certa, que ela não sabia mesmo pedir. Clara fechou
a torneira e ficou com as mãos apoiadas na pia, olhando a água escorrer pelo ralo, e respondeu baixinho que ele também não sabia ficar e que então estavam kits. Ele não teve o que dizer. Ela enxugou as mãos, pegou uma manta dobrada em cima da geladeira e entregou a ele, explicando que estava chovendo, que não passava táxi ali em cima à aquela hora e que ele estava sem celular e que o sofá era duro, mas cabia. já estava saindo da cozinha quando parou na porta de costas com a mão no interruptor, exatamente como tinha parado
na porta do café mais cedo. "Aquele coador que eu deixei na rua Harmonia", disse sem virar. "Você jogou Fora?" Henrique apertou a manta contra o peito e disse que não. Ela ficou parada mais um segundo. Depois apagou a luz e foi para o quarto sem dizer mais nada. E ele ficou no escuro, ouvindo a chuva no telhado de Zinco, sabendo que ela também não ia dormir tão cedo. Henrique acordou com cheiro de café e uma dor nas costas que ia do pescoço até a cintura. Ainda estava escuro lá fora. Pela fresta da cortina entrava a
luz amarela do poste da rua e da cozinha vinha o barulho Baixinho de uma colher batendo numa xícara. Ele levantou do sofá devagar, dobrou a manta sem saber direito onde deixar e foi até a porta da cozinha. Clara estava de pé perto do fogão, já de calça preta e camiseta do café, com o cabelo preso num coque apressado, olhando o celular com a testa franzida. Ela levantou os olhos, desejou bom dia, sem muito entusiasmo, e apontou a garrafa térmica em cima da mesa, dizendo que ele podia se servir. Ele se serviu e Percebeu que alguma
coisa estava errada pelo jeito como ela mordia o canto da unha. perguntou o que era. Clara virou o celular para ele e mostrou uma mensagem da dona Zefa, enviada às 4:30 da manhã, avisando que tinha esquecido completamente, mas que hoje tinha exame de sangue no posto às 8 em jejum e depois consulta, e que só voltava lá pelo meio-dia. Era a dona Zefa quem ficava com a mãe durante o turno. "Não tem mais ninguém", Clara disse guardando O celular no bolso. "Se eu faltar hoje, o seu Vanderlei me manda embora. Ele já avisou no mês
passado, quando a mãe caiu no banheiro e eu tive que sair no meio do expediente. Henrique pousou a xícara na mesa e disse que ficava com a dona Lourdes. Clara olhou para ele como se ele tivesse falado em outra língua e ele entendeu o olhar. Em 5 anos morando juntos, ele nunca tinha cuidado nem de um vaso de planta. Quando ela ficou gripada na rua Harmonia, foi ela mesma Quem se levantou para fazer a própria sopa, porque ele tinha uma visita a um cliente em Campinas. Ela sabia disso tudo e ele sabia que ela sabia.
Henrique, ela não é fácil de manhã. Às vezes acorda sem saber onde tá, sem saber quem eu sou. Chora, quer ir embora para Juiz de Fora, quer ir atrás do meu pai. Então me diz o que eu faço quando isso acontecer. Ela ficou um bom tempo olhando para ele. Depois pegou um caderno na gaveta do armário, arrancou Uma folha e começou a escrever depressa, em pé, apoiada na geladeira. escreveu o horário do remédio, o que ela comia no café da manhã, que ela gostava de mingal de aveia com canela e pouco açúcar, que não podia
deixar ela perto do fogão, que se ela ficasse agitada, era bom colocar o rádio na Aparecida, ou chamar para jogar dominó, que o dominó ficava na lata de biscoito em cima da estante. Afinal, escreveu o telefone do café e o da dona Zefa, embora ele estivesse sem Celular. Entregou a folha e ficou segurando a ponta um segundo a mais antes de soltar. disse que voltava no intervalo do almoço lá pela uma e saiu sem se despedir direito, com a bolsa no ombro, o casaco amarelo pendurado no braço e a caixa do bolo da Nilsa equilibrada
nas mãos para entregar no caminho. Dona Lourdes acordou às 7:30 e não o reconheceu. Ficou sentada na cama, olhando para ele, parado na porta do quarto, e perguntou com uma voz Assustada: "Quem era ele? E o que estava fazendo na casa dela? Henrique sentiu o pânico subir e leu de novo a folha na mão, embora soubesse de cor. Não se aproximou. Ficou na porta e disse que era um amigo da Clara, que ela tinha ido trabalhar e pedido que ele fizesse companhia e que tinha mingal de aveia com canela esperando na cozinha. Dona Lourdes pensou
um pouco desconfiada e disse que canela tudo bem, mas que açúcar era pouco. Foi uma manhã Comprida. Ela quis ir embora duas vezes. Na primeira, pegou a bolsa e foi até o portão, dizendo que o Geraldo estava esperando na feira. E Henrique, sem saber o que fazer, perguntou se podia ir junto. Ela aceitou. Desceram a ladeira até a padaria da esquina, de braço dado devagar, e ele comprou pão na chapa com o troco do táxi. E quando chegaram lá, ela já tinha esquecido da feira e quis sentar no banquinho de fora para ver o movimento.
ficaram ali um tempo, ela Comendo o pão em pedacinhos, ele tomando um pingado num copo americano, os dois vendo o ônibus passar lotado, as crianças indo para a escola de uniforme, um senhor empurrando o carrinho de mão com saco de cimento. Foi ali, sem nenhum aviso, que ela começou a contar do Geraldo. Contou que em 1979, quando eram noivos, ela foi visitar a irmã [limpando a garganta] no rio e, na volta o ônibus quebrou na serra de Petrópolis. chegou na rodoviária de Juiz De Fora com seis horas de atraso de madrugada, sem ter como avisar
ninguém, e encontrou o Geraldo sentado no banco de madeira de terno, com um buquê de margaridas murcho no colo. Ele tinha ficado lá o tempo todo, não foi em casa nem para beber água, com medo de ela chegar e não encontrar ninguém. Ele me disse assim: "Dona Lourdes", contou, limpando as migalhas da saia: "Quem ama espera, Lurdinha". Mas eu respondi para ele que quem ama também tem que chegar. Não adianta um ficar esperando se o outro não vem. Henrique ficou quieto. Ela terminou o pão, olhou para ele e perguntou se ele era amigo da Clara.
E ele disse que sim. Voltaram para casa. Ela ficou agitada de novo perto das 10, querendo acender o fogão, e ele lembrou da folha, pegou a lata de biscoito na estante e espalhou o dominó na mesa da sala. Ela ganhou as quatro primeiras partidas. Na quinta, ele desconfiou que ela estava roubando pedra e ela riu. Uma Risada que ele reconheceu na hora. O mesmo hum preso no nariz, o mesmo riso escapando. E ele entendeu de onde a Clara tinha tirado aquilo. Enquanto isso, no Café de Pinheiros, Clara tinha aberto a loja às 6:30, como prometido,
e encontrado a Jéssica, que tinha chegado mais cedo só para devolver o aparelho, com o celular de Henrique na mão e cara de quem não tinha dormido. Jéssica contou que o telefone não parou de tocar a noite inteira, que ela acabou Atendendo lá pelas 11 para dizer que o dono tinha esquecido o aparelho e saído atrás de uma moça, e que o homem do outro lado quase teve um treco. Às 11:20, esse mesmo homem entrou pela porta de vidro. Otávio era alto, careca, de terno cinza, amarrotado de quem tinha dormido de roupa, e foi direto
ao balcão perguntar por Henrique. Quando entendeu quem Clara era, sentou numa banqueta e esfregou o rosto com as duas mãos. contou que tinha dispensado o motorista Na noite anterior e depois explicou tudo de uma vez, sem rodeio. Os investidores de Recife tinham ficado ofendidos com a ausência dele, mas tinham aceitado remarcar a assinatura para as 3 da tarde daquele dia no escritório da Faria Lima, com uma condição. O contrato só valia com a assinatura de Henrique, que era o único com poder para fechar negócio daquele tamanho. Sem ele, os caras iam fechar com a concorrência
e a empresa perdia o maior contrato da história Dela. 200 motoristas novos, uma rota inteira pelo Nordeste. Otávio olhou para Clara com uma mistura de desespero e vergonha e perguntou se ela sabia onde ele estava. Clara ficou parada atrás do balcão com o pano de prato na mão. Poderia ter dito que não sabia. poderia ter guardado aquilo, deixado o tempo correr até às 3 da tarde e resolvido por ele do jeito que ele tinha feito com ela na esquina da casa da mãe. Por um instante, ela pensou exatamente nisso. Depois tirou o avental, avisou a
Jéssica que ia adiantar o intervalo do almoço e voltava até 1:30 e pediu ao Otávio que a levasse até o campo limpo. Audi preto de Otávio subiu à ladeira, raspando o para-choque na lombada, com três crianças correndo atrás e um cachorro latindo. Clara abriu o portão pouco depois do meio-dia e encontrou Henrique sentado no chão da sala, com a camisa branca amarrotada e as mangas dobradas jogando dominó com a mãe. Dona Lourdes Estava rindo. Clara ficou parada na porta olhando aquela cena e Otávio atrás dela também ficou sem entender nada. Henrique levantou os olhos, viu
o sócio e perdeu a cor. Clara entrou na sala, tirou o celular dele da bolsa e estendeu. Contou em poucas palavras o que Otávio tinha dito, a assinatura, as 3 horas, a condição, e terminou dizendo que ele tinha que ir. Dessa vez sou eu que tô pedindo, Henrique. Vai. Ele não pegou o celular, levantou do chão Devagar, olhou para ela e disse que ela estava fazendo exatamente a mesma coisa que ele fez, que estava decidindo por ele, do mesmo jeito que ele decidiu por ela quando ligou o carro e foi embora da esquina da padaria
em Juiz de Fora, que ela estava mandando ele embora antes que ele tivesse a chance de ir sozinho. Clara apertou o celular na mão. Dona Lourdes no chão, tinha parado de mexer nas pedras e olhava de um para o outro. Otávio fingia examinar os bilhetes Colados na geladeira. Tô mesmo, Clara disse, e a voz tremeu. Tô sim, porque se você ficar e perder essa coisa toda por minha causa, um dia você vai acordar de madrugada, achando que esqueceu alguma coisa e vai olhar para mim do jeito que olhava pro telefone. Eu não aguento isso de
novo. Prefiro que você vá hoje inteiro do que fique e vá embora aos pouquinhos. Henrique chegou mais perto. Diz que a empresa nunca tinha sido o motivo, que ele tinha entendido isso Naquela noite, enxugando xícara na pia dela, que ele se enfiou no trabalho, porque o trabalho nunca perguntava o que ele sentia, nunca olhava para ele esperando alguma coisa que ele não sabia dar e que era isso que ele fazia com ela, fugir para onde era mais fácil, que os três caminhões viraram 300 porque ele não tinha para onde voltar. a noite e que ele
não ia fugir de novo, nem para o trabalho, nem para longe dela. "Então, o que você vai fazer?", ela perguntou. "Deixar tudo afundar?" Ele não respondeu a ela, virou-se para Otávio e perguntou há quanto tempo eles trabalhavam juntos. Otávio, pego de surpresa, disse que 11 anos. Henrique quis saber quem tinha negociado cada cláusula daquele contrato com Recife, quem tinha viajado seis vezes para lá, quem conhecia os motoristas pelo nome. E Otávio foi respondendo que tinha sido ele, ele, ele. Henrique assentiu e disse que então era Otávio quem ia assinar. explicou que Existia um cartório no
campo limpo, que ele tinha visto a placa na Avenida do Táxi na noite anterior e que uma procuração pública resolvia aquilo em meia hora. Disse que ia até lá, passava os poderes para o sócio e voltava e que Otávio chegava na Faria Lima com folga antes das 3. Otávio ficou olhando para ele de boca aberta. Em 11 anos, Henrique nunca tinha deixado ninguém assinar nada no lugar dele, nem um contrato de aluguel de empilhadeira. Henrique então Se virou paraa Clara. Ela continuava segurando o celular com os olhos vermelhos e ele pegou o aparelho da mão
dela, mas não soltou os dedos dela junto. "Me espera?", pediu baixo. "Eh, 20 minutos. Eu vou no cartório e volto. Clara olhou para ele por muito tempo. Lembrou do sábado de agosto dela sentada no sofá com a mala do lado, pedindo baixinho para ele ficar. Lembrou do pai olhando para a porta do hospital. Lembrou da mãe contando pela centésima Vez a história da rodoviária e terminando sempre do mesmo jeito que quem ama também tem que chegar. Ela nunca pedia nada a ninguém e ele nunca tinha voltado quando disse que voltaria. 20 minutos ela respondeu, soltando
a mão dele devagar. Eu vou contar, Henrique. Clara ficou na janela da sala depois que o Audi desceu à ladeira. Não disse a ninguém que estava contando, mas estava. Olhava o relógio da cozinha pendurado torto em cima da porta e depois voltava A olhar a rua, o portão, a curva lá embaixo, onde os carros sumiam. Dona Lourdes tinha voltado a espalhar o dominó na mesa e perguntou, sem levantar os olhos, para onde o menino tinha ido. Lara respondeu que ele tinha ido resolver uma coisa e que já voltava, e só depois de falar percebeu que
era o mesmo tipo de promessa que tinha feito ao pai no hospital. Sentiu um frio no estômago e apertou os dedos no parapeito. Passaram 5 minutos, depois 10. Uma moto subiu à ladeira e não era ele. Um carro de entrega de gás passou tocando a musiquinha de sempre. Dona Lourdes chamou para jogar e Clara sentou, mexeu nas pedras sem prestar atenção e perdeu duas partidas seguidas. Aos 15 minutos, levantou de novo e voltou para a janela. Aos 17 começou a achar que tinha sido boba, que Cartório não resolvia nada em meia hora, que ele ia
ter que ir junto para a Faria Lima, que ia ligar do carro pedindo desculpa e Dizendo que passava a noite e que à noite ia surgir outra coisa. já estava se preparando para aquilo, do jeito que tinha aprendido a se preparar para tudo. Quando ouviu alguém subindo à ladeira correndo, era ele. Vinha a pé, sem o Audi, com o paletó jogado no ombro, a camisa grudada nas costas e um saco de papel pardo na mão, subindo a última parte da rua de um jeito que nenhum homem de terno sobe ladeira no campo limpo. E as
mesmas três crianças corriam Atrás dele, rindo. parou no portão sem fôlego, apoiou a mão no muro e olhou para a janela onde ela estava. Clara olhou o relógio da cozinha, 19 minutos. Ela abriu a porta antes que ele batesse. Henrique entrou ofegante, explicou aos pedaços que a procuração estava assinada, que Otávio tinha seguido direto para a Faria Lima e que ele tinha voltado a pé porque o sócio precisava do carro e não dava tempo de esperar táxi. Tirou do bolso a cópia da procuração Dobrada em quatro e mostrou como quem mostra um boletim com nota
boa. Depois estendeu o saco de papel. Dentro tinha [limpando a garganta] seis pães de queijo da padaria da esquina, ainda quentes. "Comprei com o troco do táxi", ele disse, ainda recuperando o fôlego. Eu não ia chegar de mão abanando. Clara ficou segurando o saco de pão de queijo sem dizer nada. Dona Lourdes da mesa perguntou se o menino tinha trazido alguma coisa e quando ouviu que era pão De queijo, diz que ele era um bom menino que sempre tinha sido, e voltou para o dominó. Clara riu. Foi um riso molhado, meio sem querer, com os
olhos cheios. E Henrique ficou parado olhando para ela como quem olha uma coisa que achou que nunca mais ia ver. "Você chegou?", Ela disse baixinho. Ele respondeu que tinha chegado e que dessa vez não tinha trânsito na serra nenhum. Ela entendeu, passou a mão no rosto depressa e foi para a cozinha colocar os pães de queijo Num prato porque precisava fazer alguma coisa com as mãos. Foi lá, encostada na pia, que ela lembrou do café. O intervalo do almoço acabava à 1:30 e já passava de uma. pegou o celular, olhou a tela um tempo e
ficou parada com o polegar em cima do contato do seu Vanderlei. E Henrique da porta viu que ela estava travada. Ela nunca tinha pedido uma tarde de folga na vida. tinha trabalhado com febre, com o pé torcido, no dia do aniversário da mãe. Pedir Parecia fraqueza e ela tinha passado anos sem se permitir aquilo. Henrique não disse nada, só ficou ali esperando. E ela percebeu que ele estava esperando. Então apertou o botão. Seu Vanderlei atendeu mal o morado. Clara explicou que precisava da tarde, que era um assunto de família, que nunca tinha pedido nada e
que estava pedindo agora. Ele resmungou do outro lado, falou do movimento, falou da Jéssica sozinha e então lá no fundo da ligação deu para Ouvir a voz da Jéssica gritando que ela cobria, que a Clarinha podia ficar, que pelo amor de Deus alguém naquele café merecia um dia de folga. Houve um silêncio. Depois, seu Wanderley disse que tudo bem só aquela tarde e que amanhã ela abria às 6:30. Clara desligou e ficou olhando para o telefone como se ele tivesse feito um milagre. "Eu pedi", ela disse espantada. "Eu vi". Ele respondeu sorrindo. E ninguém morreu.
Dona Zefa apareceu no portão pouco Depois, voltando do posto com o curativo do exame ainda no braço e um pote de bolo de fubá. E quando viu Henrique sentado à mesa com dona Lourdes, de mangas dobradas, perdendo no dominó, só levantou as sobrancelhas, entregou o bolo para Clara e disse com toda a calma do mundo que tinha rezado para isso a semana inteira. Não explicou para quê, nem precisava. Às 3:40, o celular de Henrique tocou. Era Otávio falando alto, rindo, contando que o contrato estava Assinado, que os caras de Recife tinham gostado de ver o
sócio que conhecia cada motorista pelo nome e que o diretor deles tinha perguntado por o Henrique não tinha vindo. Otávio disse que respondeu a verdade, que o chefe estava cuidando da família. Henrique ficou quieto um instante ao ouvir aquela palavra. Otávio completou, dizendo que ele não aparecesse no escritório pelo resto da semana, que a empresa tinha sobrevivido 11 anos com ele e ia Sobreviver até segunda sem ele. Henrique agradeceu, desligou e pela primeira vez colocou o celular no bolso sem olhar de novo. Clara estava na cozinha separando os ingredientes. Ele perguntou o que ela ia
fazer e ela disse que pão de mel. tinha uma encomenda pequena para uma colega da Jéssica, 30 unidades para sexta, e se ela não fizesse naquela tarde, não ia ter outra. Ele perguntou se podia ajudar. Ela olhou para ele, para a camisa branca de marca que devia Custar o aluguel dela e jogou um avental de florzinha no peito dele. Passaram a tarde naquela cozinha apertada. Ela peneirava a farinha, ele o mel e errava a quantidade. Ela corrigia. Ele derramou chocolate derretido no fogão e ela riu daquele jeito. E ele sentiu que podia passar o resto
da vida só tentando fazer ela rir assim de novo. Em algum momento, ela contou, sem que ele perguntasse, que nunca tinha parado de fazer doce, nem nos piores meses, que tinha um caderno Com todas as receitas da avó passadas a limpo e um nome escolhido para a confeitaria desde os 19 anos. e que só não tinha coragem de dizer esse nome em voz alta, porque dizer em voz alta tornava tudo real demais. Dona Lourdes vinha de vez em quando da sala, provava a massa com o dedo, dizia que estava faltando cravo e voltava para a
novela. No meio da tarde, com as mãos sujas de massa e a janela embaçada do vapor, Henrique parou e ficou olhando Para ela. Deixa eu te ajudar a abrir a confeitaria, disse. Clara parou de mexer a panela. respondeu sem se virar que não queria o dinheiro dele, que não queria ser a moça do café que o milionário resolveu ajudar, que não queria que ele pagasse nada, nem o passado, nem a passagem de ônibus, nem nada. Ele disse que não era isso e esperou que ela olhasse para ele antes de continuar. Não tô oferecendo dinheiro, tô
pedindo para ser sócio. Você faz os doces, eu cuido Da entrega. deu meio sorriso. Tenho uma certa experiência com caminhão. Um caminhão para entregar pão de mel, Henrique, a gente começa com uma moto. Eu aprendo a pilotar. Ela riu de novo, dessa vez alto, e desligou o fogo. Ficou olhando para ele de avental de florzinha com farinha na barba e disse que ia pensar. Ele disse que tudo bem, que podia esperar. Ela respondeu que sabia que ele podia esperar, mas que queria saber se ele ia ficar. que limpou as Mãos no avental, se aproximou e
segurou o rosto dela com cuidado, sujando a bochecha dela de chocolate sem querer. "Eu vou ficar clara. Amanhã eu vou no Itaim, pego o coador na gaveta e trago para cá, que é o lugar dele. E depois de amanhã e no outro dia e no outro eu fico. Não tô pedindo para você acreditar hoje. Tô pedindo para você me deixar provar." Ela ficou olhando para ele um longo tempo. Depois fez uma coisa que ele não esperava. Pegou a bolsa preta Pendurada na cadeira, abriu a carteira, tirou um bilhete único, meio gasto e colocou na mão
dele. Era o reserva para quando o meu dá problema, explicou com a voz embargada. Toma. Para você nunca mais ficar preso na catraca vindo para cá. Henrique olhou para aquele cartão de plástico azul na palma da mão, como se fosse a coisa mais valiosa que alguém já tinha dado a ele. E era, guardou na carteira do lado do cartão preto, disse que então ela aceitava. Ela respondeu Que aceitava tudo, a sociedade, a moto, o coador, ele e foi ela quem o beijou primeiro ali no meio da cozinha, entre a panela de chocolate e a bandeja
de massa, com gosto de mel e 8 anos de saudade. sala. Dona Lourdes aumentou o volume da televisão e comentou autto o suficiente para os dois ouvirem, que até que enfim, e que o Geraldo ia ficar muito satisfeito. Mais tarde, quando os 30 pães de mel estavam prontos, embrulhados um a um em papel alumínio, Como ela fazia no corredor da faculdade, Henrique pediu para falar com dona Lourdes. sentou-se no chão ao lado da poltrona, segurou a mão dela e, sem saber se ela ia entender, pediu a mão da Clara em casamento. Dona Lourdes olhou para
ele, depois para a filha parada na porta da cozinha e, por um instante, os olhos dela ficaram firmes outra vez. Disse que ele tinha demorado demais, mas que tinha chegado e que era isso que importava. Depois perguntou se tinha pão De mel. Clara sentou no chão ao lado dele, encostou a cabeça no ombro dele e disse sim antes que ele fizesse a pergunta a ela. Ele riu e disse que ainda não tinha perguntado. Ela respondeu que já sabia a pergunta de Cor, que ele tinha 8 anos de atraso para fazer e que dessa vez não
ia deixar ele ficar no queria. Naquela noite, o café foi coado três vezes, porque dona Lourdes esquecia que já tinha tomado e pedia de novo. E Henrique Fazia de novo sem reclamar, água sem ferver, pó solto, derramando devagar e em círculo. Em cima da mesa, a bandeja de pães de mel esperava a entrega de cesta. No bolso dele, o bilhete único. Na sala, a televisão sem som e a risada de dona Lourdes, ganhando mais uma partida de dominó. Ele tinha parado só para tomar um café de 5 minutos, fugindo do trânsito da Rebolsas, e tinha
ouvido uma voz que nunca esperava ouvir de novo. Agora, sentado no chão de uma Casinha no alto de uma ladeira do campo limpo, com a mulher da vida dele encostada no ombro, rindo daquele jeito com um hum preso no nariz e o suspiro no final, Henrique teve certeza de que ia ouvir aquela risada todos os dias pelo resto da vida e dessa vez ele estava em casa. Yeah.