Um disco de prata gira no céu. 70. 000 testemunhas gritam, choram, caem de joelhos na lama.
Mas o verdadeiro mistério não está no sol. Está em três crianças que preferiram a prisão [música] atrair um segredo do céu. 1917.
O mundo arde na guerra mais devastadora que a humanidade já conheceu. Nas trincheiras de Verdum e do Somei, milhões de jovens morrem entre o gás mostarda [música] e as metralhadoras. Os impérios desmoronam, a fé vacila.
Em Portugal a situação não é melhor. A república, nascida 7 anos antes, [música] declarou guerra à igreja. Con ventos fechados, sacerdotes deportados, cruzes arrancadas das escolas.
Em Lisboa, [música] os políticos maçons brindam pela morte de Deus. Acreditam que venceram. Mas a 200 km ao norte, na serra de Aire, existe um lugar que o progresso esqueceu.
Ajustrel é apenas um punhado de casas de pedra caiada, onde as mulheres fiam enquanto rezam, onde os homens trabalham a terra com as mãos de seus avós, onde as crianças aprendem o Pai Nosso antes das letras. Aqui nesta terra de azinheiras e rebanhos, o céu escolheu fincar sua bandeira. Lúcia dos Santos nasceu para ser pastora.
Aos 10 anos, já carregava sobre seus ombros delgados a responsabilidade do rebanho familiar, aquelas poucas ovelhas que representavam boa parte do sustento dos santos. Sua mãe, Maria [música] Rosa, era uma mulher forjada no ferro da fé portuguesa. Rezava o terço todas as noites, [música] conhecia as vidas dos santos como quem conhece seus vizinhos e não tolerava mentira nem preguiça.
Dela, Lúcia herdou a espinha dorsal que precisaria para os anos vindouros. Seu pai Antônio [música] era mais brando, mais dado à taberna que a igreja, mas amava seus filhos com aquela ternura calada dos homens do campo. Lúcia era a caçula de sete irmãos e, talvez, por isso desenvolveu essa mistura de independência [música] e liderança que a distinguia entre as crianças de Aljustrel.
Francisco Marto era água parada, onde Lúcia era torrente. Aos seus 9 anos, o filho de Manuel Marto e Olímpia de Jesus preferia a solidão às brincadeiras barulhentas. [música] Enquanto as outras crianças corriam e gritavam, ele se sentava debaixo de uma azinheira para tocar melodias em sua flauta de cana.
Melodias que ninguém lhe havia ensinado e que pareciam brotar de algum lugar muito profundo. Falava [música] pouco, observava muito. Seus olhos grandes e escuros pareciam olhar sempre além do visível.
Sua irmã Jacinta, dois anos mais nova, era seu oposto perfeito. Tudo nela era excesso, intensidade, paixão. Raia com [música] o corpo todo, chorava com o coração inteiro.
Quando via um mendigo, queria dar tudo o que tinha. Quando ouvia falar do sofrimento de Jesus, as lágrimas corriam por suas bochechas, [música] como se ela mesma sentisse os pregos. Juntos, esses três primos formavam um pequeno mundo à parte, um trio [música] que toda manhã levava os rebanhos para pastar e toda a noite voltava com segredos que só eles compartilhavam.
Mas no ano anterior às aparições da Virgem, [música] algo extraordinário começou a preparar suas almas para o que viria. Na primavera de 1916, enquanto cuidavam das ovelhas num lugar chamado Loca do Cabeço, um vento estranho sacudiu as árvores. As crianças ergueram os olhos e viram se aproximar uma figura de luz.
Um jovem de uns 14 ou 15 anos, mais branco que a neve, transparente como cristal atravessado pelo sol, apresentou-se como o anjo da paz. Ajoelhou-se, inclinou a testa até tocar o chão e lhes ensinou uma oração que repetiriam milhares de vezes ao longo de suas vidas. Voltou no verão junto ao poço da horta dos marto para insistir que orassem e fizessem sacrifícios.
e retornou no outono, novamente na loca do cabeço, trazendo um cálice e uma hóstia da qual caíam gotas de sangue. Deu-lhes a comunhão de forma milagrosa, a hóstia a Lúcia, o cálice [música] a Francisco e Jacinta. As crianças ficaram prostradas durante horas, [música] perdida toda a noção do tempo, submersas numa paz que não era deste mundo.
Francisco foi quem mais profundamente sentiu o peso daqueles encontros. Depois de cada aparição do anjo, permanecia [música] num estado de absorção que preocupava seus pais. Não tinha fome, não tinha sede, mal falava.
Quando Lúcia lhe perguntava o que sentia, respondia com palavras que pareciam vir de muito longe. Sentia que Deus estava em nós, mas não sei [música] explicar. Jacinta, por sua vez, experimentava uma mistura de alegria [música] e temor que a deixava mais calada que o habitual.
Ela que era tão tagarela. Os três haviam recebido uma graça que os separava das demais crianças da aldeia, embora ninguém soubesse ainda. Guardaram silêncio absoluto sobre as visitas do anjo.
Não disseram nada a seus pais, nem ao pároco, nem a seus irmãos. O anjo lhes havia ensinado, sem palavras, que há mistérios que devem ser guardados no mais profundo do coração, como sementes que esperam seu tempo para germinar. E assim, no silêncio e na oração, três crianças pastoras de [música] uma aldeia esquecida foram preparadas para se tornarem mensageiras do céu.
13 de maio de 1917, [música] o sol da primavera aquece a cova da Iria, aquela depressão pedregosa, onde crescem as [música] inheiras esparsas e onde a família de Lúcia possui algumas terras de pasto. Os três primos [música] levaram para lá o rebanho depois da missa, como fazem tantos domingos. Perto do meio-dia, enquanto brincam de construir uma pequena parede de pedras, um relâmpago rasga o céu limpo.
Não há nuvens, não há tempestade, [música] mas o clarão é inconfundível. Lúcia, a mais prudente, ordena recolher as ovelhas e descer em direção ao caminho. Correm alguns metros quando um segundo relâmpago os faz parar de repente e então, sobre uma carrasqueira de apenas 1 m de altura, eles a veem.
É uma senhora jovem, vestida inteiramente de branco, tão luminosa que os olhos dóem ao olhar para ela. Suas mãos juntas seguram um rosário de contas brilhantes. Seu rosto, dirá Lúcia, anos depois, era de uma beleza impossível de descrever com palavras humanas.
Lúcia encontra coragem para falar. De onde é vossa merc? A resposta chega com uma voz que é música e claridade.
Sou do céu. Ela pede que voltem a aquele mesmo lugar no dia 13 de cada mês, durante seis meses. Pergunta-lhes se estão dispostos a se oferecer a [música] Deus para suportar sofrimentos em reparação pelos pecados e pela conversão dos pecadores.
As três crianças, [música] sem hesitar, sem compreender completamente o que aceitam, respondem que sim. A senhora os adverte: "Tereis muito que sofrer, mas a graça de Deus [música] será vossa fortaleza". Depois se eleva em direção ao leste e desaparece na imensidão do céu.
O retorno para casa marca o início do calvário terreno. Jacinta, com seus sete anos e seu coração transbordante, é incapaz de guardar o segredo. Naquela mesma noite, conta tudo à sua mãe, que escuta com uma mistura de espanto e [música] ceticismo.
A notícia salta de casa em casa como fagulha em restolho. Ao anoitecer, metade da aldeia já sabe. Maria Rosa, a mãe de Lúcia, reage com fúria.
Sua filha caçula, justamente aquela que ela havia criado com mais zelo religioso, inventando [música] aparições. A vergonha a consome, interroga Lúcia uma e outra vez, a ameaça, [música] a bate, a arrasta diante do pároco para que confesse sua mentira. O padre Ferreira, um sacerdote prudente, mas desconcertado, não sabe o que pensar.
Poderia ser coisa do demônio, sugere, o que aterroriza Lúcia mais do que os golpes de sua [música] mãe. Na casa dos Marto, o ambiente é diferente. Manuel Marto, o pai de Francisco [música] e Jacinta, observa seus filhos com olhos de camponês sábio.
Conhece seus filhos melhor do que ninguém. [música] Sabe que Francisco jamais mente, que Jacinta é incapaz de sustentar um engano. Algo aconteceu, conclui.
O que exatamente? Não sei, mas meus filhos não mentem. Sua esposa Olímpia compartilha essa certeza calada.
Mas a divisão está semeada. Os que acreditam, [música] os que duvidam, os que zombam abertamente. O 13 de junho [música] traz a segunda aparição e novas revelações que pesam como pedras sobre os ombros infantis.
A senhora anuncia aos três pastorinhos [música] que Francisco e Jacinta serão levados em breve ao céu. Lúcia, por outro lado, deve ficar mais tempo na Terra. [música] Há uma missão para ela, difundir pelo mundo a devoção ao coração imaculado de Maria.
Jacinta, ao ouvir que irá ao céu sem sua prima, desata a chorar com aquele choro seu que parece vir das entranhas mesmas da terra. Não quer se separar de Lúcia, mas aceita como aceitará tudo o que vier. Francisco recebe a notícia de sua morte próxima, com uma serenidade que desconcerta quem o conhece.
Para ele, ir ao céu significa estar finalmente perto daquele Jesus escondido no sacrário que tanto o atrai. Desde esse dia, sua vida muda radicalmente. Passa horas diante do altar da pequena igreja de Fátima e móvel, [música] os olhos fixos no tabernáculo.
Quando lhe perguntam o que faz, responde com simplicidade esmagadora: "Consolo o nosso Senhor, que está tão triste [música] pelos pecados do mundo. " Aos seus 9 anos, Francisco compreendeu algo que muitos adultos jamais compreenderão. Que Deus pode ser consolado, que nosso amor lhe importa, que nossos sacrifícios aliviam de algum modo misterioso o peso da ingratidão humana.
As multidões começam a crescer. Em julho, vários milhares de pessoas se reúnem na cova da Iria. Vem de aldeias vizinhas, de povoados distantes, [música] alguns por curiosidade, outros por devoção, muitos por desespero.
A guerra continua devorando seus filhos na França e as mães portuguesas buscam qualquer esperança. As crianças, enquanto isso, aprendem a carregar o peso de ser o centro de todos os olhares. Lúcia desenvolve uma couraça de reserva que a protege dos interrogatórios constantes.
Francisco se refugia ainda mais no silêncio e na oração. [música] Jacinta, a mais frágil em aparência, demonstra uma fortaleza que surpreende a todos. Começa a praticar pequenas mortificações que ninguém lhe ensinou.
Cede seu almoço a crianças mais pobres. suporta a sede sobere cada desconforto pelos pecadores que tanto teme [música] que vão para o inferno. Os adultos observam essas três crianças e não sabem o que pensar.
São normais demais para serem impostoras, [música] extraordinárias demais para serem simplesmente crianças. Algo arde nelas que não tem explicação natural. E esse fogo, longe de consumi-las, parece purificá-las dia após dia, preparando-as para as provas terríveis que o verão trará consigo.
O 13 de julho de 1917 marca um antes e um depois na história de Fátima. A cova da Iria fervilha com vários milhares de peregrinos que vieram de todos os cantos de Portugal. Entre eles há devotos sinceros, curiosos, céticos e também espiões do governo republicano que tomam notas de tudo o que vem.
Os três pastorinhos chegam escoltados por uma multidão que os empurra, os toca, [música] arranca fios de suas roupas como relíquias. Lúcia, com seus 10 anos, aprendeu a se mover entre a multidão com uma determinação que espanta os adultos. Francisco caminha com os olhos baixos, refugiado naquele silêncio interior que é sua fortaleza.
Jacinta a pequena [música] treme de emoção e de algo mais. Um pressentimento de que este dia trará revelações [música] terríveis. Quando a senhora aparece sobre a azinheira, envolta em sua luz mais brilhante que o sol do meio-dia, as crianças caem de joelhos e então começa a visão que marcará suas almas para sempre.
A virgem abre as mãos [música] e delas brota um feixe de luz que parece atravessar a própria terra. As três crianças veem o inferno. Não é uma imagem, não é um símbolo.
É uma realidade que se abre diante de seus olhos como uma ferida no cosmos. Um mar de fogo onde flutuam demônios e almas humanas, transparentes como brasas negras, entre gritos de dor [música] e desespero que nenhum ouvido humano deveria escutar. A visão dura apenas um instante, mas esse instante se grava na memória das crianças com ferro em brasa.
Jacinta grita. Francisco empalidece até parecer morto. Lúcia sente que seu coração vai parar.
Quando levantam o olhar para a senhora, vem lágrimas em seus olhos. Vocês viram o inferno, onde vão as almas dos pobres pecadores. Ela lhes [música] diz: "Para salvá-las, Deus quer estabelecer no mundo a devoção ao meu imaculado coração.
A segunda parte do segredo flui dos lábios da Virgem como profecia e advertência. [música] A guerra que assola a Europa terminará em breve, mas se os homens não pararem de ofender a Deus, começará outra pior durante o pontificado de Pio X. A Rússia espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja.
O Santo Padre terá muito que sofrer. Várias nações serão aniquiladas, mas no final meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre me consagrará à Rússia, [música] que se converterá e será concedido ao mundo período de paz.
As crianças não compreendem tudo o que escutam, [música] não sabem o que é a Rússia, não conhecem nenhum papa, mas gravam cada palavra em sua memória com uma fidelidade que desafia toda explicação natural. A terceira parte do segredo permanece selada no coração de Lúcia, com ordem expressa de não revelá-la ainda. É um peso que ela carregará durante décadas, [música] um mistério que fará correr rios de tinta e especulações sem [música] fim.
Quando a visão termina e a senhora desaparece em direção ao leste, as três crianças ficam transformadas. Já não são as mesmas que subiram à cova naquela manhã. Viram o destino eterno das almas, receberam profecias sobre o futuro do mundo, carregam sobre seus ombros infantis [música] segredos que fariam tremer os mais sábios teólogos.
Desde esse dia, [música] Jacinta não consegue pensar em outra coisa senão nos pecadores. A visão do inferno a persegue de dia e de noite. Aquelas almas [música] que caíam no fogo como flocos de neve numa fogueira.
Aqueles gritos que nenhuma garganta humana deveria emitir, aquele desespero sem fim nem esperança. Começa a multiplicar seus sacrifícios com uma intensidade que alarma quem a conhece. Quando tem sede sob o sol escaldante do verão português, oferece a sacede pelos pecadores e não bebe.
Quando tem [música] fome, dá seu lanche às crianças pobres que encontra pelo caminho. Quando as pedras do chão machucam seus pés descalços, caminha mais devagar para prolongar o desconforto [música] e oferecê-lo por aqueles que não conhecem a Deus. 7 anos tem Jacinta, 7 anos apenas [música] e já compreendeu o mistério da redenção vicária.
Que o sofrimento aceito por amor pode salvar almas. [música] Que nossos pequenos sacrifícios unidos à cruz de Cristo tem um poder que escapa a toda medida humana. Francisco, por sua vez, mergulha ainda mais profundamente na contemplação.
A visão do inferno lhe revelou, por contraste, a infinita misericórdia de Deus, que oferece a salvação a todos. E essa misericórdia rejeitada, esse amor desprezado, lhe produz uma dor que só pode aliviar, [música] passando horas diante do sacrário. Consolo Jesus [música] repete quando lhe perguntam o que faz tanto tempo na igreja.
Ele está tão triste porque o ofendem muito, mas agosto traz uma prova que superará tudo o que veio antes. O administrador do conselho de Vila Nova de Ourém, Artur de Oliveira Santos, decidiu que a farça de Fátima deve [música] terminar. Este homem, maçom declarado e anticlerical militante, vê nas aparições uma ameaça ao projeto republicano de arrancar a fé do coração de Portugal.
No 13 de agosto, dia da quarta aparição prometida, apresenta-se em Aljustrel com seu automóvel e engana os pais das crianças, dizendo-lhes que as levará à cova da iria. [música] Em vez disso, conduz-as à vila nova de Ourém e as tranca na cadeia pública, junto com ladrões e bêbados. Durante dois dias e duas noites, os três pastorinhos permanecem numa cela fedorenta, cercados de criminosos, que a princípio zombam deles e acabam comovidos por sua coragem.
O administrador os interroga separadamente, utilizando todas as técnicas de intimidação que conhece. Diz-lhes que seus primos já foram executados por não revelarem o segredo. Ameaça fritá-los vivos em óleo fervente se não confessarem que tudo foi uma mentira.
oferece-lhes ouro e liberdade em troca da verdade. Francisco, com 9 anos, olha o administrador nos olhos e responde com voz [música] firme, que prefere morrer atrair a senhora do céu. Jacinta, [música] tremendo de medo, mas sem ceder 1 milímetro, declara que nem todo o ouro do mundo a faria revelar o que não pode revelar.
Lúcia, a mais velha, a líder natural do grupo, sustenta a postura diante de um homem adulto que representa todo o poder do [música] Estado. Depois de 48 horas de terror psicológico, o administrador compreende que foi derrotado por três crianças analfabetas, liberta-as sem acusações, humilhado perante toda a comarca. A notícia de sua coragem se espalha como pólvora.
Os pastorinhos venceram o governo com a única arma de sua fé inabalável. 13 de outubro de 1917. Desde as primeiras horas da madrugada, uma chuva persistente e fria enxarca [música] a serra de Aire.
As estradas de terra se transformaram em rios de lama, onde as carroças atolam [música] e os peregrinos escorregam, mas ninguém para. De todos os cantos de Portugal, da Espanha, de lugares ainda mais distantes, uma maré humana converge para a cova da Iria. São 70.
000 almas, segundo os cálculos mais conservadores, talvez 100. 000, segundo outros. Vem a pé em mulas, em carroças puxadas por bois, alguns nos escassos automóveis da época.
A camponeses analfabetos que caminharam dias inteiros, a burgues de Lisboa com seus guarda-chuvas pretos, a sacerdotes que arriscam sua liberdade num país que persegue a igreja. a jornalistas enviados por jornais anticlericais para documentar o fracasso do fanatismo religioso. Entre [música] eles se destaca Avelino de Almeida, redorchefe do influente [música] O século, o jornal mais anticlerical de Portugal, que veio com a missão expressa de desacreditar definitivamente esta superstição medieval.
[música] Todos esperam algo, muitos esperam um milagre, outros esperam poder rir dos crédulos. Ninguém imagina o que está prestes a acontecer. Os três pastorinhos chegam à cova, escoltados por uma multidão que os aperta, os empurra, quer tocá-los como se fossem relíquias vivas.
Lúcia caminha com aquela determinação que forjou em meses de interrogatórios e pressões. Francisco avança com os olhos semicerrados, já quase completamente submerso naquele mundo interior, [música] onde habita desde as aparições do anjo. Jacinta, encharcada até os ossos, treme não de frio, mas de expectativa.
sabe [música] que este é o dia prometido, o dia do grande milagre que a senhora anunciou para que todos acreditem. Quando chegam a azinheira sobre a qual aparece a Virgem, [música] mal conseguem se mover em meio à pressão dos corpos. Um sacerdote abre caminho para eles aos empurrões.
O relógio marca perto do meio-dia, embora o céu cinzento torne impossível precisar a hora. A chuva continua caindo implacável. De repente, Lúcia grita com uma voz que atravessa o rumor da multidão.
Fechem os guarda-chuvas. As pessoas obedecem sem saber porquê. E então a senhora aparece mais luminosa do que nunca, tão brilhante que as três crianças mal conseguem sustentar [música] seu olhar.
É Nossa Senhora do Rosário e veio cumprir sua promessa. O que acontece depois desafia toda explicação natural. A chuva cessa, de repente, as nuvens se abrem como cortinas de um teatro celestial e o sol aparece, mas não como o sol de cada dia.
[música] É um disco de prata pálida que se pode olhar diretamente sem que os olhos doam. começa a girar sobre si mesmo como uma roda de fogo, lançando feixes de luz de todas as cores do espectro sobre a paisagem, sobre as pessoas, sobre as árvores, vermelho, [música] amarelo, verde, azul, violeta. As cores se sucedem em ondas que tingem os rostos dos presentes, que transformam a lama num mosaico iridescente, que pintam as nuvens com matizes impossíveis.
10 minutos dura este espetáculo que nenhum olho humano jamais contemplou, mas o pior está por vir. O sol parece se desprender de seu lugar no firmamento. Começa a cair em direção à Terra em zigu-zague, girando cada vez mais rápido, aproximando-se da multidão com um calor que queima os rostos voltados para cima.
O pânico explode como uma onda. Milhares de pessoas gritam, [música] caem de joelhos. Confessam-se aos gritos uns aos outros, rezam o terço entre soluços, pedem perdão por seus pecados convictos de que chegou o fim do mundo.
Mães abraçam seus filhos, homens feitos e acabados choram como crianças. Ateus declarados invocam o nome de Deus. E então, quando parece que o sol vai se chocar contra a Terra, [música] ele para, volta ao seu lugar no céu com a mesma trajetória em zigue-zague.
As nuvens se fecham, tudo termina. O segundo milagre passa quase despercebido em meio à comoção, mas é igualmente inexplicável. As roupas de 70.
000 pessoas encharcadas por horas de chuva torrencial [música] estão completamente secas. A lama que cobria sapatos e saias evaporou. É como se a chuva nunca tivesse caído, como se o sol dançante tivesse absorvido toda a humidade naqueles 10 minutos de prodígio.
Avelino de Almeida, o jornalista anticlerical, permanece imóvel durante longos minutos, incapaz de processar o que seus olhos viram. Quando finalmente pega sua caneta, escreve uma crônica que dará a volta ao mundo e que lhe custará o desprezo de seus colegas livres pensadores. [música] Ele viu tudo, não consegue explicar, mas sua honestidade profissional o [música] impede de negar.
Enquanto isso, os três pastorinhos contemplaram visões que só eles podem ver. A senhora se mostrou a ele sucessivamente como Nossa Senhora das Dores com Cristo carregando a cruz, como Nossa Senhora do Carmo com o menino Jesus nos braços e finalmente ao lado de São José abençoando o mundo. Repetiu-lhe sua mensagem essencial com palavras que ressoam como sinos no silêncio da alma.
Que rezem o terço todos os dias, que se convertam, que não ofendam mais a Deus, nosso Senhor, que já está muito ofendido. A guerra terminará, prometeu. E de fato, 13 meses depois, o armistício de 11 de novembro de 1918, por fim à carnificina da Grande Guerra.
O céu falou, o sol dançou e três crianças de uma aldeia esquecida foram os instrumentos escolhidos para que o mundo lembre que Deus existe, que nos ama [música] e que espera a nossa resposta. A gripe espanhola chegou a Portugal no outono de 1918 como um anjo exterminador que não distinguia entre [música] ricos e pobres, entre crentes e ateus. Em Aljustrel, os da igreja dobravam cada dia por novos defuntos.
Francisco e Jacinta Marto adoeceram quase simultaneamente seus pequenos corpos consumidos por uma febre que nenhum remédio caseiro podia vencer. Mas enquanto o mundo via neles duas crianças a mais entre os milhões [música] de vítimas da pandemia, eles sabiam exatamente o que estava acontecendo. A senhora havia anunciado em junho de 1917 Francisco e Jacinta [música] seriam levados em breve ao céu.
A promessa se cumpria. Francisco recebeu a notícia de sua morte iminente com uma paz [música] que desconcertava aqueles que o rodeavam. Durante os meses de enfermidade, sua única preocupação era receber a comunhão, esse encontro com o Jesus escondido ao qual havia dedicado tantas horas de adoração silenciosa.
O pároco hesitava em dar o viático a uma criança tão pequena, mas Francisco insistia [música] com uma determinação imprópria de seus 10 anos. Quando finalmente recebeu Cristo [música] na Eucaristia, seu rosto se iluminou com um sorriso que os presentes lembrariam por toda [música] a vida. No dia 4 de abril de 1919, depois de pedir perdão a todos [música] por qualquer falta que tivesse cometido, Francisco Marto entregou sua alma a Deus.
morreu como havia vivido os últimos dois anos, em silêncio, em paz, consolando Jesus até o último suspiro. O calvário de Jacinta foi mais longo e mais doloroso, como se o céu quisesse purificar aquele diamante pequeno até alcançar um brilho insuportável. A gripe derivou em pleurisia purulenta, depois em tuberculose óssea.
Um abesso lhe devorava o lado. Os médicos de Aljustrel [música] nada podiam fazer. Então foi transferida primeiro ao hospital de Vila Nova de Ourém e depois ao de Lisboa, longe de sua mãe, de seu pai, de Lúcia, de tudo o que conhecia e amava.
Naquelas salas frias e anônimas, rodeada de estranhos que não compreendiam quem era aquela menina camponesa, Jacinta suportou operações sem anestesia. Extraíram-lhe duas costelas, drenaram o abesso purulento. Cada procedimento era uma agonia que oferecia pelos pecadores, [música] pelo Santo Padre, pela conversão da Rússia.
A Virgem apareceu-lhe várias vezes no hospital para consolá-la e revelar-lhe novas visões. Guerras futuras que assolariam o mundo, [música] perseguições terríveis contra a igreja, o papa vestido de branco caindo sob as balas. Jacinta guardava tudo em seu coração, como havia aprendido a fazer desde aquela primeira aparição do anjo.
No dia 20 de fevereiro de 1920, completamente sozinha em um quarto do hospital de dona Estefânia em Lisboa, Jacinta Marto morreu. Tinha 9 anos. A enfermeira que a encontrou declarou que seu rosto irradiava uma paz sobrenatural, como se no último instante tivesse visto algo de uma beleza indescritível.
Lúcia ficou sozinha com o peso do segredo e da missão. [música] A senhora havia dito que ela deveria ficar mais tempo na Terra para difundir a devoção ao coração imaculado de Maria. [música] E Lúcia obedeceu com essa fidelidade inquebrantável que a caracterizava.
Em 1921, ingressou como aluna no colégio das irmãs doroteias em Vilar, perto do Porto, onde poderia estudar longe do assédio constante de peregrinos e curiosos. Mais tarde, tomou o hábito religioso, primeiro como Doroteia, e depois em 1948 como Carmelita Descalça, no convento de Coimbra, [música] onde permaneceria até sua morte. Por obediência a seus superiores e aos bispos, [música] escreveu suas memórias em vários volumes, revelando progressivamente os detalhes das aparições que havia guardado durante décadas.
Em 1929, no convento de Tui, na Espanha, [música] a Virgem apareceu-lhe novamente para pedir formalmente a consagração da Rússia ao coração imaculado. A mensagem de Fátima começou a se expandir pelo mundo inteiro. Papas sucessivos a estudaram, a veneraram, a cumpriram parcialmente.
12 consagrou o mundo ao coração imaculado em 1942. João Paulo I, [música] que atribuiu à Virgem de Fátima ter-lhe salvado a vida no atentado de 13 de maio de 1981, realizou uma consagração mais específica em 1984 [música] e revelou a terceira parte do segredo no ano 2000, quando beatificou Francisco e Jacinta. [música] No dia 13 de maio de 2017, exatamente 100 anos depois da primeira aparição, o Papa Francisco canonizou os dois pastorinhos em uma cerimônia multitudinária na explanada do santuário de Fátima.
Francisco e Jacinta Marto se tornaram os santos não mártires mais jovens da história da [música] igreja. Testemunhos vivos de que a santidade não tem idade e de que Deus pode obrar maravilhas através dos mais pequenos. Lúcia não chegou a ver a canonização de seus primos.
havia morrido no dia 13 de fevereiro de 2005, aos 97 anos, depois de quase um século de fidelidade [música] silenciosa, a missão que o céu lhe havia confiado. Seu processo de beatificação está em curso, mas seu legado já é imortal. Graças a ela, conhecemos os detalhes das aparições, as palavras exatas da Virgem, o conteúdo completo do segredo que tanto [música] inquietou o mundo.
Três crianças pastoras de uma aldeia perdida de Portugal foram escolhidas para transmitir uma mensagem que chegou a todos os cantos da terra. Custodiaram-na com seu silêncio, quando o silêncio era necessário. [música] Selaram-la com seu sofrimento quando o sofrimento foi pedido.
Autenticaram-na com sua santidade, quando a santidade foi reconhecida. E o coração imaculado de Maria, como prometeu a senhora vestida de branco, continua sendo refúgio e caminho para todos os que querem encontrar Deus. O céu desceu à terra.
em uma aldeia portuguesa para nos lembrar verdades que o mundo moderno quer esquecer. Que existe um inferno e almas que caem nele como flocos de neve no fogo. Que nossas orações e sacrifícios têm poder real para mudar destinos eternos.
que uma mãe nos espera de braços abertos, disposta a [música] nos guiar até seu filho, se apenas aceitarmos sua mão. Francisco nos deixou o exemplo do silêncio contemplativo, das horas passadas diante do sacrário, consolando um Deus que sofre pela nossa indiferença. Jacinta nos legou a urgência do amor que se faz sacrifício, a certeza de que nenhuma renúncia é pequena demais [música] quando oferecida pela salvação das almas.
Lúcia nos mostrou a fidelidade inabalável, o sim pronunciado uma vez e sustentado durante quase um século de vida consagrada. O terço diário, os primeiros sábados de reparação. A consagração ao coração imaculado.
Não são devoções antiquadas, mas remédios urgentes para um mundo doente de soberba e esquecimento de Deus. O sol dançou sobre Portugal para que ninguém pudesse dizer que não havia sinais. O céu gritou sua mensagem através de três crianças para que ninguém pudesse alegar ignorância.
Nossa Senhora de Fátima, Rainha do Santíssimo Rosário e Mãe de Misericórdia, rogai por nós.