Tá, eu tava descansando uns dias ali no finalzinho de janeiro, numa casa de uns amigos aqui no Tororó e tava literalmente na piscina e o padre Atos me ligou perguntando onde eu tava tal que ele tinha um convite para me fazer. Daí eu falei: "Do que se trata? " Ele falou: "Não, é, vou te explicar, vou te adiantar e mas por isso que você venha aqui em Brasília".
Eu falei: "Tá bom". Então, o convite partiu de uma conversa dele com uma religiosa que trabalha na CNBB. Eles estavam procurando um professor de bioética, um professor do Brasil para dar aula para os seminaristas da Guinebal.
Daí ele já foi logo dizendo que o convite se tratava assim e que eh olhando para mim, né, no caso celibatário, jovem, ou seja, não tendo família, não tendo outros compromissos, provavelmente teria uma disponibilidade que outros padres ou outras pessoas não teriam. Daí eu disse assim: "Bom, eh, deixei aí, eh, houve um pouco melhor proposta e vamos rezar". Aí eu fui até o CCM, encontrei essa religiosa eh que trabalha na CBB e o padre Adon explicaram e disseram assim: "Olha, é para junhor.
" Eu falei: "Ah, tá um tempo razoável para eu me preparar porque eu trabalho, dou aula, enfim, tenho campus feed aí, beleza. " E aí com menos de 24 horas e veio a informação que não era mais para junho, era para maio e que e que precisava da resposta imediata por conta da aquisição das passagens. Ainda falei: "Meu Deus!
" Tipo assim, tá? Eu fui rezar e eu partilhei com Danilo, meu irmão de missão, partilhei com alguns padres e senti paz no coração da decisão eh de poder ir servir essas duas dioceses, a diocese de Bafatá e a diocese de Bissal, ali no país da Guiné Bissal, servindo aqueles seminaristas, já que naquele país não se tinha um professor na área de bioética. Bom, a resposta foi dada e aí começou então os trâmites, né?
eh eh visto, preparar viagem, vacinação, enfim, tudo aquilo. E tinha feito o propósito de não conhecer muito da realidade daquela eh daquela gente, daquele povo, porque eu queria mergulhar. Então, cada vez que eu contava para alguém alguma coisa, a pessoa fazia questão de pesquisar no Google e vê a informação, ah, um país muito pobre, é um país que não tem ruas asfaltadas, é um país que passa fome e eu dizia: "Meu Deus, é, foi para isso que eu disse, meu sim".
Tipo assim, não, então é isso mesmo, eu quero mergulhar. Então, foi mais ou menos isso que aconteceu desde 31. Olha que interessante, lembrei agora.
Essa, esse convite apareceu dia 31 de de janeiro, dia de Dombosco, padroeiro, né, um dos padroeiros da nossa arquidiocese. E ali eu vi a mão de Deus conduzindo para que eu fosse estar com aqueles jovens, porque no fundo era isso que eu ia fazer, experiência com os jovens seminaristas, como professor deles. Olha, ao mesmo tempo que eu não queria e saber muita informação sobre o país, não porque eu não quisesse e, aliás, não porque eu quisesse ser indiferente, mas porque eu queria ser surpreendido dentro do campo fido.
A gente tem uma máxima que a gente diz, que a gente aprendeu com o Papa Francisco, né? Deixarse ser surpreendido por Deus. Então eu pensava, eh, não vou criar muita expectativa porque ela vai certamente me frustrar, mas ao mesmo tempo eu quero estar aberto a surpresas de Deus para aquilo que Deus eh queira que eu viva.
No entanto, confesso que eu quis entender pelo menos a dinâmica da casa do tipo assim, por exemplo, e tem internet aí porque eu preciso continuar estudando, trabalhando de longe e ao mesmo tempo eu tinha intenção já proposital de compartilhar minha experiência. Então essa foi a minha primeira expectativa, se eu ia poder fazer, digamos, tornar conhecido a minha experiência. Ótimo.
Aí eles disseram: "Sim". Mas ao mesmo tempo eu tinha um medo, confesso a vocês, eu tinha medo de ficar doente, que eu pensava: "Meu Deus, é só um mês, pessoal, são quatro semanas. Se eu chego lá e fico doente, um mês vai virar nada, né?
" Então eu confesso que eu comecei a perguntar como era a questão sanitária, como era a questão se tinha médico, já que tinha tanta pobreza e tudo mais. E daí eles foram informando, não, não se preocupem, a gente vai assumir você, fique tranquilo. Então essa foi a expectativa e aí o que que eu fui então surpreendido?
Tinha internet na casa, eh, assim, bem estável, porque o país é pobre e tal, então tudo muito precário. E ao mesmo tempo eu não fiquei doente, então tive assim um desconforto, confesso a vocês, né? o desconforto.
A primeira semana foi exigente. Olha, a primeira semana por imagine, eu peguei ali primeiro dia tava 40º, suava bastante, tal, coisa que aqui em Brasília não é muito comum, ser muito seco. E eu comecei estranhar o a parte do clima, estranhar o ambiente e a alimentação.
Então eu fiquei, né, não fiquei doente, mas eu tive o que a gente chama, né, de diarreia, de enfim, eu passei muito mal e eu pensava: "Meu Deus, eu falei que não queria ficar doente, mas assim, dá uma aliviada aí na dor de barriga, porque eu preciso dar aula e eu preciso estar bem na sala de aula". Então, a adaptação da primeira semana, ela foi um pouco exigente. Não fiquei doente literalmente, né?
Mas eu fiquei fragilizado porque tá um processo de adaptação, o organismo, a alimentação, o clima, eh, a água, enfim, tudo isso. E aí a primeira semana que foi mais exigente, eu já escrevi ao povo, dizendo, né, o quanto que aquilo tava sendo exigente no sentido da fragilidade de adaptação. Passada a primeira semana, aí eu comecei então a me adaptar ao calor, é, aos mosquitos, naturalmente, a alimentação e também a exigência do dia a dia, né?
Porque é um curso intenso, então tinha que dar aula, fazer atividade, estar com os alunos o tempo inteiro, porque, enfim, quatro semanas apenas. E aí eu na quarta semana já tinha uma máxima comigo que era assim que na Gnebsal primeiro você estranha e depois você entranha. E era isso que eu tava vivendo.
O estranhamento foi dando lugar ao entranhamento. Por quê? Como sou muito intenso e gosto de me propor a ser inteiro, eh, aquele estranhamento das coisas que eu ficava assim meio querendo entender a cultura, o ambiente, o lugar, de repente foi dando, tendo, dando espaço ao meu coração, um entranhamento.
E então eu falei, se é para mergulhar, eu não quero ficar aqui com o pé, só com pezinho na água. Vamos mergulhar com tudo. Então, sai de lá com essa máxima agnebal.
Aqui na África Ocidental, primeiro você estranha e depois você entranha. Olha, [Música] eu cheguei no aeroporto de Bissal a de madrugada e eu já no aeroporto eu já estranhei. Olha que coisa interessante, porque eh assim, a grosso modo a comparação, sabe?
Parecia que eu estava numa rodoviária de Santa Luzia, minha cidade de natal, onde tudo é muito assim precário, tudo escrito à mão. Então, informação escrita à mão, um teto quebrado, um banheiro sujo, assim, esse era esse esse aeroporto internacional, ou seja, o único do país, era nessas condições, tudo muito manual, as pessoas chamando você, a esteira que não funcionava, eu pensava: "Meu Deus! ", Então, já no primeiro momento, eu estranhei estar ali diante do aeroporto, que não tinha eletricidade normal, as luzes piscam no tempo inteiro, uma esteira que não funcionava direito, as pessoas que não davam informação e ao redor informações escrita à mão.
Beleza, eu pensei, não é só aeroporto que às vezes tá abandonado, né, e tal. Beleza. Quando eu saio do aeroporto, Júlia, à procura do padre que ia me buscar, eu tava diante, tava no centro da cidade, mas diante de uma calçada de pó, de terra.
Eu pensei, se eu estou no aeroporto internacional da Guinebal e a calçada do aeroporto na hora que você sai é pó, terra, por que que eu não vou encontrar aqui? Imediatamente eu já peguei o celular e comecei a filmar porque aquilo me chamou atenção. Beleza?
Daí o padre chega, me e tal, me põe no carro e vamos em direção ao seminário. E quando a gente sai do aeroporto em direção ao seminário, começa começa a ficar escuro, as luzes começam a escurecer. E daí eu pensei, uai, gente, por que que tem luz para lá e não tem luz para cá?
Daí entramos, saímos da da da parte de asfalto e entramos na estrada de chão. Eu pensei: "Ah, o seminário é na assim da roça, na zona rural, não estava na cidade, numa região, numa rua que não tinha eletricidade e que era estrada de chão e poeira subindo e tal. E daí desço tudo escuro no seminário, ficava 10 minutinhos do aeroporto.
Você ter ideia de que eu estava no centro da cidade. Aí tudo escuro, eu pensei: "Ah, madrugada, né? Não precisa a luz estar acesa.
" Tá, subo, tento dormir um pouquinho, não consigo porque o fuso horário já tava já, né? passado, acordo e penso: "Estou na Guinepsal, no centro da cidade, no seminário". E aí eu comecei a ver a realidade, um seminário simples, naturalmente, né?
Para formar o seminarista na simplicidade, mas não era simples porque tinha que formar o seminarista na simplicidade, era simples, porque essa era a realidade deles. Daí o padre fala: "Jerô, vamos tomar café? " "Vamos".
A eu desço eh uma garrafa de água quente, uma caixinha de sachê de chá e um pão. Até aí tudo bem. Quem não Isso é tipo assim o normal aqui também, né?
Não tinha café porque lá não tem não tem produção de café. Eu gosto muito de chá, então me senti em casa. Mas o chá era importado porque lá não se tem produção.
Então eu olhei na caixinha assim, made friends, ou seja, feito na França. Aí na hora pensei: "Nossa, que chique". Não, não era chique.
Era porque lá não tinha chá de chá de sachê. Tudo é literalmente importado. Beleza.
Tomei café. padre falou: "Vamos na rua para você conhecer um pouco da cidade e depois vamos na casa do bispo. " Daí eu saio do seminário e chego na rua, na avenida principal.
E daí eu comecei a ver o que era Agnebssa. Como era um sábado, ases estavam tomadas de pessoas, isso tipo assim, 8 da manhã e aquelas pessoas todas vendendo suas coisas ali no chão e e animadas, felizes. Eu perguntei pro padre, por que que elas estão contente, felizes?
Eles dizes não, porque foram buscar produtos no contêiner para revender. Aí eu falei no contêiner. Falei: "Não é porque a gente não tem nada disso aqui.
Então a gente pega do que vem de fora, compra e revende pras pessoas que vem do interior. E aí a gente foi entrando, entrando, entrando nas ruas e mais situações de pobreza foram se apresentando. E eu pensava: "Meu Deus, que que eu tô vendo aqui?
Que que eu vi assim de pobreza? Para explicar. Por onde eu estava passando era o mercado principal da Guinebsa.
O mercado principal da Guine Absal é ao céu aberto. A barraquinha, a loja, vamos dizer assim, né? É no chão com o pano forrado.
E ali eles vendem a cabra, a galinha, o porco, o tomate, a roupa, a farinha. E eles têm que vender exatamente o do dia, porque senão estraga. E no dia seguinte eles vão de novo pro porto buscar mais produtos.
E assim foi. E de repente chegamos num lugar, bom, eu era a novidade do lugar, né? O turista, né?
Se vi que era diferente. Eu tava, enfim, tava arrumado, tinha acabado de chegar de viagem e aquelas crianças todas vindo em cima, pedir dinheiro. Bom, não tinha dinheiro.
Eu falava pro padre, o que que eu faço? Ele disse: "Não, é isso mesmo, fique tranquilo". É absolutamente normal, porque você é a novidade, então elas olham, tipo assim, ele vai nos dar dinheiro.
E crianças muçulmanas, crianças que você via pela vestimenta e disse assim: "Padre, mas isso aqui é porque hoje é sábado? " Ele falou: "Não, isso é todos os dias. " Não, padre, não é possível todos os dias.
E à medida que eu fui tocando naquela realidade ali da da saída, digamos assim, pra cidade, eu pensei como deve ser então nas casas, no interior, porque isso aqui é um reflexo, né? E daí então o padre me levou. Então, quando eu cheguei lá na casa de uma minha família que já sabia que ia um missionário brasileiro, tava lá mesa posta com a garrafinha de suco importado, uma garrafinha de água importada, uns biscoitinhos e um omelete.
Aí, daí me apresentei e ela disse assim: "Meu Deus, que alegria um missionário do Brasil visitar a minha casa. Venha, venha, venha. Nós estamos esperando, venha pro nosso pequeno almoço.
O pequeno almoço espécie de lanche, sabe? Das 10. E daí eu tô lá comendo e tal.
E daí o padre disse assim para mim: "Você não tem noção, elas foram cedo pegar o que tinha de melhor lá no mercado, porque era o missionário do Brasil que estava vindo". naquele momento, o que para mim poderia ser algo tão simples, uma garrafinha de suco, uma garrafinha d'água, um omelete, para eles era o que era de melhor. Aí eu desconsertei.
Sabe quando o estômago, a gente fala assim, o estômago embrulha, que você fica assim, chega perde a fome, eu fiquei assim, meu Deus, é o que é de melhor? E daí eu pensava assim, não quero agora que eles comam, né, porque tipo não fique sem comer. E aí eles não comiam, não começaram a comer enquanto eu não comecei a me servir.
Então eu pensava, bom, ter que vou ter que comer, né? Mas e eles se o que é de melhor, quando eles terão? E aí isso me no primeiro dia, nas primeiras horas, eu já tive essa experiência.
Por quê? Sei lá, aqui a gente no Brasil, né? Não, não quero fazer comparações, mas de algum modo a gente acaba, né?
Isso seria um lanchinho para eles. Era assim o nosso pequeno almoço. E eu teria outras experiências para contar, sei lá.
Por exemplo, eu me recordo que quando eu cheguei numa casa para para visitar uma família, aí eles vieram, né, com um presentinho para dar finalzinho e era aquelas roupas tipicamente africanas. Aí daí eu falei: "Ah, que bom" e tal. Aí o padre disse aqui, isso aqui é a nossa veste mais nobre e eles prepararam para você.
E eu disse: "Meu Deus, porque era uma camisa, sabe, nova, bonita, que eles tinham acabado de comprar no mercado e ela tinha e ele tinha dito assim: "Preparado para você". Ou seja, o mais nobre que eles tinham na escassez deles, eles davam com alegria, que para mim poderia ser o trivial. para eles eram o mais nobre e davam sem nenhum apego.
Aí já nesse primeiro dia eu falei: "Deus, tu tá me formando, hein? Porque como as pessoas mais simples, como as pessoas mais desprovidas, de fato são as mais generosas". E nessas horas você começa como que está diante de um espelho.
Você olha para generosidade daquelas pessoas e a generosidade delas mostram, pelo menos para mim, o quanto eu ainda era pegado no primeiro dia. o quanto eu ainda era pegado, o quanto eu era ainda egoísta, o quanto certamente eu faria o cálculo do tipo, tá, eu vou dar essa parte pro missionário que tá chegando, mas vou guardar para nós que não temos no dia a dia, ou então tomara que ele não coma tudo, né, pra gente ter depois. Eu pensava o quanto que eu ainda sou egoísta e o quanto aquele povo estava feliz por dar o melhor lanche, a melhor camisa para um missionário de fora.
Aquilo ali já me quebrou todo. e já tinha feito outras experiências de missão, mas nunca tinha feito uma experiência naquilo que o Papa Francisco dizia, né? Eh, nas periferias da existência humana, muito embora, sei lá, a 30 km daqui de onde nós estamos, provavelmente eu encontre realidades bem próximas das que eu vi na África.
Mas o que foi interessante é que a saída missionária que Deus pedia para mim é para ser era para servir a um povo que provavelmente eu nunca mais viria o rosto e não pronunciaria o nome. Não chamaria mais oi Dingana, oi Domingos. Oi Alzira.
provavelmente não faria isso. E estar num lugar que eu não teria talvez uma outra oportunidade me dizia assim: "Agora você tem que sair de você agora. Não é não não se esconda no calor, não se esconda na dor de barriga, não se esconda no cansaço, porque é a oportunidade que você tem.
" E aí tem uma máxima de Santo Agostinho que diz assim que Deus tem muitas graças para nós, mas a gente nunca sabe qual delas é a última. Eu pensava: "E se essa for a última graça da última hora da minha vida? " Por quê?
Lembra que eu disse que eu tinha medo de ficar doente? Tinha medo de pegar malária. Os mais próximos a mim sabiam.
falava assim: "Olha, eu não gostaria de pegar malária, porque as pessoas que eu conheci que pegou malária, que pegaram malária, elas morreram. Então, não gostaria, né? Não queria agora assim.
Mas se isto acontecer, eu quero que tenha acontecido depois de uma entrega. Eu quero me entregar. Eu quero ser missionário mesmo assim raiz.
" Então eu pensava, o papa não pediu para ser minha igreja em missão, não quero me contentar em atravessar o Oceano Atlântico e ficar somente vindo da salas, dar a aula para os seminaristas. Aí eu pensei, meninos, onde que é a catequese que vocês dão? Ah, professor, tal dia em tal lugar, quero ir.
Mas não sabia o que eu tava dizendo. Aí eu saí com eles e aí eu pensava, né, já vi de tudo, nada vai me escandalizar, nada vai me assustar. E daí chegamos num lugar bem simples, cheio de jovens, crismandos, ávidos para receberem a catequese.
E tinham recebido a notícia que tinha um missionário do Brasil. Quando olho para aquele povo sentado assim no chão com o caderninho deles anotando a a Bíblia, o kit, né? A Bíblia, o texto e assim tudo felizes, todos felizes, animados e contentes, eu pensava: "Meu Deus, o Senhor veio aqui realmente para que eu saísse de mim para ver um povo sedento por ti?
" E aí, inegavelmente me lembrava muito Mário Teresa de Calcutá, que é patrona do campus Fida e todo mundo ama e tal. E daí ela dizia que a maior pobreza é a pobreza do amor. Então eu sabe aquelas pessoas têm passam necessidade, mas naquele momento eu não podia guardar e reservar para mim e reter para mim a capacidade de amá-las, porque elas sabiam, um missionário do Brasil está vindo aí.
Então eu tinha que abraçá-las, olhar nos olhos, perguntar o nome, brincar, entreter, envolver-se na história. E isso exige saída. Porque a gente pensa assim, né, às vezes, ah, basta apenas que eu saia da minha casa, basta apenas que eu pegue a estrada e basta apenas que eu vá servir um povo, tá?
Eu já tava na África. Eu poderia dizer: "Ah, vim aqui só dar aula, porque foi isso o convite que me fizeram. Vim dar aula para os seminaristas".
Não, no pacote da viagem tinha outros elementos inclusos e um deles era: "Sai de ti mesmo, Jerônimo, o teu mestrado, o teu doutorado e enfim, qualquer coisa que você estude, qualquer curso que você fez, como diz São Paulo, se não tiver amor, de nada adianta". E todos os sábados eu ia dar catequese para uma gurizada que tava se preparando para crismar-se, mas que na fé eram mestres para mim, que na alegria eram verdadeiros artesãos que na esperança, porque tem a realidade do sofrimento político que aquela população vive, mas que eles com esse esperança no sábado se preparavam para ir pra catequese como se estivessem preparando para ir uma um grande encontro, as as salas debaixo da árvore, porque onde tivesse espaço você tinha ali as turmas. Eu perguntava pros seminaristas, isto é sempre ou é agora?
Não, é sempre. Eles se preparam para vir à catequese como se fosse ter um encontro na igreja. E daí eu pensava: "Meu Deus, eles estão vindo se preparar para receber catequese.
" E assim, na simplicidade deles, todos arrumadinhos, cabelo penteadinho, sabe? para um encontro de catequese. Ou seja, aquilo me ensinava: "Sai de ti.
" Olha como este povo busca Deus na catequese, na Não tô falando da missa dominical, eu tô falando de que o momento deles de catequese é quase que um evento. E terminando a catequese, eles não vão embora. Eles ficam lá debaixo da árvore conversando porque é um evento na cidade.
Todas as igrejas no sábado tarde, todas as paróquias, o momento de catequese para aquelas crianças, para aqueles jovens, é um momento de encontro, é um momento de alegria, é um momento de sair de casa para literalmente ter vida social. E aquilo me ensinava, eu pensava: "Meu Deus, quantas vezes eu faço as coisas por obrigação, não vou com essa alegria. Meu Deus, quantas vezes eu não vou tão cheio de entusiasmo e do tipo assim: "Ah, tá na escala, né?
Ah, eu fui e designado para ir a tal lugar, dar formação a tal lugar. " E esses meninos esperam sábado por sábado para ir à catequese, ficar 1 hora e meia e não vou embora. Foi a primeira coisa que me desconcertou do ponto de vista de Jerônimo, sai de ti.
Sai de ti. Não é somente vir aqui dar aula, não é somente pensar, ô, eu sou missionário e vejam, não era do tipo assim, olha como tu ainda não deixastes Deus te vencer, como tu às vezes faz as coisas por obrigação, como muitas vezes você faz as coisas porque tem que ser feita e não porque ali Deus está. E por que que eu fazia essa leitura?
Porque eles me diziam isso. Eles não terminavam a catequese, vamos embora, acabou. Não era tipo assim, vamos continuar.
E ali eles se juntavam, pegavam o tambor deles, fazia a roda deles, iam cantar, louvar, porque estavam alegres. E daí eu pensava: "Meu Deus, quantas horas eu penso? Que hora que vai acabar para eu voltar para casa?
" Porque eu já fiz o que tinha de fazer. E eles não. E o sol foi se pondo, foi escurecendo.
Eu pensei, vou embora, né? Não, continuaram. E aí já 7 da noite, 8.
Aí eu pensei, isso 3 da tarde a catequese começou. E daí eu pensava, gente, não deve ser porque falaram que eu cheguei a chegar, então quero me mostrar um pouco. Não era assim todo sábado.
Uma alegria as missas. Então, uma alegria unida, uma piedade litúrgica que assim em poucos lugares eu encontrei. Mais cedo dizer pro Adriados que eu achei interessante um movimento que tinha lá assim, sei lá, uma uma família chegou atrasada pra missa, sabe?
eh pela distância, se tivesse tendo a proclamação de alguma leitura, algum canto em curso, enquanto não concluísse aquele momento, eles não entravam na igreja, como se tivesse assim, eh, esperando o momento adequado para pedir licença. Então, eles ficavam na porta da igreja, eu ficava agoniado, fal que essas pessoas não entram, estão esperando o quê? E aí eu comecei a observar que era tipo, por exemplo, se ela tá no glória, enquanto glória não concluísse, elas não entravam.
Sei lá, tá no na no ato penitencial, mas então quanto não conclu seja aquela piedade. E aí quando elas entravam, ajoelhavam, rezavam e todos que tinham chegado antes, ao contrário que do que alguns pensam, né, que é igreja barulhenta, não, todos rezando o Santo Rosário, se preparando pra missa. Eu olhava aquele dizia: "Meu Deus, eu chego na igreja, às vezes aquele barulho interior e eu converso e tal.
E aí uma coisa que foi um tapa na cara, ninguém na missa com celular". E aí eu comecei a ficar desconcertado porque o único ser vivo que estava com o celular na missa para registrar os momentos era eu e eles todos os que tinham o celular com o celular recolhido na sua sacola, no seu bolso, por conta da piedade litúrgica, da devoção ao culto. É uma igreja viva, animada, entusiasmada.
Os cantos são vibrantes, eles louvam com danças, com os corpos, ou seja, mas há esse respeito pelo sagrado. Catequese é catequese, missa é missa. Vamos ser inteiros aqui.
Tem toda a experiência ter sido professor dos seminaristas. foi uma experiência muito boa. Eh, eu realmente fui muito amado por eles eh em tudo que eu podia entregar, busquei entregar meu amor a eles, mas eu diria que foram as saídas missionárias para além do seminário.
Eh, eu não votei o mesmo. Então, cheguei um dia no lugar lá, uma senhora eh ateia, essa história me marcou muito. Um padre fez questão de me levar esse lugar e ela até é toda desconcertada porque sabia que eu era católico e tudo mais, mas com uma boa guince acolhedora.
Mas uma casa simples, uma casa de barro, uma casa coberta de palha e e daí ela me diz, ele diz, ela falava só não falava português. Daí ele disse assim: "Olha, ela é até, então você não se importe, mas ela é muito acolhedora assim. E e daí eu fui abraçá-la, pensei a senhora muito magrinha, magrinha, magrinha, porque passava fome.
E quando olhei nos olhos dela, senti que senti vontade de abraçar, eu fui a dar um abraço, eh, eu fui, fui desconcertado, assim, fiquei desconcertado porque eu pensava, vou quebrar ela todinha porque muito frágil. E daí ela começou a chorar. Aí eu pensei, meu Deus, acho que fiz alguma coisa errada, inadequada, que não pode ser feita e tal.
E perguntei ao neto dela e daí ele disse assim: "Ah, porque ninguém nunca passou por aqui". Abraçou assim. Na hora que esse menino falou isso, eu pensei: "Meu Deus, um abraço".
Sabe? E na hora eu lembrei, quantas vezes, quantas vezes eu ali nos meus 15, 16, 17 anos e só 20 anos tinha dificuldade de abraçar as pessoas. Quantas vezes eu tinha dificuldade de olhar nos olhos das pessoas e naquele momento abraçar aquela senhora a teia, naquele momento olhar naquela senhora.
Era como se Deus estivesse visitando mais profundo da minha alma, porque ela não tinha comida em casa, eu não tinha dinheiro para fazer nenhum ato de caridade por ela. Mas o meu abraço para aquela senhora a desconscertou quando na verdade era Deus me curando. E quantas vezes eu me furtava de dar um abraço, um abraço.
E daí eu perguntava pro neto, né, como é que era o dia a dia. Aí ele falou assim: "Olha, ela costura algumas roupas e eu vou na cidade vender as roupas para tirar o dinheiro do meu estudo e ao mesmo tempo trazer alguma coisa para casa para comer. Mas meu sonho era ser jogador de futebol para tirar minha avó dessa situação.
E daí eu dizia: "Esse, você tem um coração grande? O nome dele é Benedito. Ô Benedito, você tem um coração grande.
E daí eu perguntei: "Posso tirar uma foto com vocês? " E tal? Aí ela toda desconcertada falou, dis afirmou, né?
Aenou que sim e ele tava sem só de bermuda. Aí ele falou assim: "Não, eu vou me trocar, botar uma camisa e tal". Aí ele foi lá, se arrumou.
Aí daí o padre disse, certamente ele foi pegar a melhor roupinha dele. Passei nessa foto, a melhor roupinha. Aí tiramos a foto.
Aí eu disse para ela assim: "Olha, eu sei que a senhora não crê em Deus, tá tudo bem, mas Deus te ama tanto, te ama tanto porque ele sabe que a senhora dá e daria vida por esse garotão aqui. " E daí eu pedi para ele repetir para ela, né? E quando eu disse isso, ela ficou assim, porque só moravam os dois naquela casa e ela costurava para dar vida por ele.
Eu nunca imaginava que uma pessoa terra fosse me falar tanto de Deus. Ela costurava com toda a fragilidade corporal, com fome, porque naquele dia, naquela casa, só tinha um punhado de arroz bruto e mangas. manga.
E não era manga madura, era manga verde para comer. E aí quem me acompanhou no Instagram viu que na hora que eu fui embora, imediatamente ela sai chorando e volta pra costura porque era a maneira dela, dar vida por seu neto. Isto é o evangelho, que ninguém tem maior amor do que aquele que dá vida pelos seus.
Júlia, provavelmente eu não vá ver essa senhora nunca mais na minha vida e nesse e nem o seu neto, o Benedito. Eu tenho até uma tristeza por não ter conseguido aprender pronunciar o nome dela, porque era na no mas o rosto dessa mulher, o olhar dessa mulher ficaram gravados na minha alma, porque tudo que ela fazia era para dar vida por ele. E o que é o cristianismo?
senão a expressão de um Deus que faz de tudo, de tudo para dar vida pelo seu povo. O que é o amor de Jesus Cristo senão a doação da vida dele para mim salvar, para te salvar? E ela frágil que estava trêmula, estava costurando para que o seu filho, seu neto, tivesse vida.
Isso me marcou. Respondendo de forma objetiva a pergunta. Isso fez com que eu voltasse pensativo de como tenho dado a minha vida.
Pra gente que, né, para nós que temos uma vocação celibatária, missionária, entregar a vida pelo reino de Deus, às vezes a gente corre risco de tornar-se até quase que como um status do tipo, ah, eu sou missionário, ah, eu sou celibatário, ah, eu sou daqu da obra A, B ou C. Mas e na hora que é para dar a vida? E na hora que é para você não tendo nada, você chamado a se fazer tudo.
Uma teia me disse isso com a vida dela. Desculpa, minha gente, mas é impossível falar disso. É impossível.
e não ser revisitado por Deus outra vez. A medida que eu falo para vocês, é como se eu estivesse de novo revivendo aquela cena. É como se estivesse vivendo de novo.
Deus dizendo, Jerônimo, você ainda não deu tudo e você ainda não se fez tudo como ela. Desculpa. E a conclusão disso é que eu fui para ensinar sobre bioética, a ética da vida, e aquelas pessoas me ensinavam sobre o amor que dá a vida.
Como falar de uma ética da vida e não dá a vida até que doa, como diz Maria Teresa, e não dar a vida para que outros tenham vida, como diz nosso Senhor. E como diz São João Paulo I, né, que o amor não faz reserva, não calcula, não retém, mas se dá, se dá, se dá. E a gente ensina isso.
Eu ensino isso, Júlia. Eu dou palestras sobre isso. Eu busco formar as pessoas sobre isso.
Mas naquele momento, naquelas situações, Deus estava me dizendo: "Tu pode mais, tu podes dar mais. " E não significa que eu vou começar a fazer coisas. Eu sei.
Não é, não se trata é de ser, é de ser, de vir a ser. Igual, por exemplo, eu fui num lugar lá que chama Bambarã, que é uma casa que acolhe e recebe as crianças que são abandonadas por suas famílias por terem nascido com deficiência. Ainda existe uma um modo, né, de pensar, de comportar-se na na Guinepsal.
Certamente em outros lugares da África Oal, onde se pensa assim, uma criança que nasce com deficiência, ela é uma maldição, traz consigo um demônio e esse demônio vai destruir nossa família. Então essa criança precisa ser sacrificada. E aí essas crianças elas são literalmente sacrificadas, abandonadas no rio para morrerem de fome e ao morrerem a maldição se encerra.
Essa cultura ainda, esse modo de pensar é muito vivo. Ou então uma criança gêmea, dois irmãos gêmeos, eh, um deles é portador do mal, então você precisa se desfazer de um deles. Como você não sabe quem quem é o portador do mal, então você põe os dois num cesto no rio e e espera que um deles sobreviva.
Que sobrevive é, enfim, uma bênção para aquela família. É este lugar que foi que é metido pela igreja lá, recebe todas essas crianças. Sejam as que foram abandonadas porque são gêmeas, sejam as que foram abandonadas porque tem alguma deficiência.
E quando eu cheguei nesse lugar, aquelas crianças todas sofridas, algumas queimadas, algumas mutiladas, muitas delas foram vítimas de exploração sexual, muitas delas foram depois de, né, que algumas já foram, enfim, já foram para lá grandinhas. Enfim, aquelas crianças que foram vitimadas, elas me receberam com uma alegria como se tivessem, sabe, uma criança que tá recebendo alguém que vai dar um presente para elas e elas iam todas me abraçar e eu tava com celular, não conseguia filmar direito, elas queriam cola, elas queriam abraçar e aquelas com dificuldade de andar e vinham e eu dizia assim: "Meu Deus! " E de novo o abraço.
Elas queriam abraçar. Elas queriam abraçar e elas todas felizes correndo ainda eu dizer assim: "Meu Deus, como é que essas crianças são tão felizes assim? Algumas cegas, outras surdas, outras com dificuldade de andar, outras com outras eh necessidades, com outras limitações, todas, todas felizes, inclusive as que estavam na cadeira de roda, as que estavam no pátio eh limitadas, não podiam andar, mas estavam lá no pátio tomando sol, todas felizes porque tinha chegado missionário.
E eu pensava, que alegria é essa? Ao mesmo tempo me dizia, eu me alegro quando alguém vem, sabe, como missionário, vem anunciar boa nova. Eu fico feliz quando alguém vai, seja onde eu moro, na minha paróquia, no grupo de estudo, no meu trabalho, enfim, também vem como missionário.
Eu também tenho essa alegria. E daí eu comecei a perceber que eu não celebro alegria porque vem o missionário. É como se fosse o mesmo do mesmo na cabeça delas assim: "Nossa, chegou alguém de Deus".
Então eu pensava, não na hora, é depois, né? você volta para casa, as coisas se assentam e você põe a cabeça no travesseiro e pensa: "Meu Deus, que dia, que dia foi esse? " E aí as perguntas começam surgir: "Eu ficaria feliz lá em Brasília quando chegasse um missionário que fosse da formação?
Eu também sairia correndo para acolher e dizer: "Que bom que você está aqui? " Porque aquelas crianças com todos os seus sofrimentos e todas as suas limitações e digas de passagem, eu não fui fazer nada, não fui lá pregar no fim da forma fui lá visitar para conhecer espaço, mas elas estavam felizes, felizes e felizes. Fui para ensinar, mas acabei tendo que aprender muito.
Eh, na última semana, eu tava com algumas curiosidades. Na última semana eu criei coragem e perguntei pros padres, né? Falei: "Padre, como é assim a sua sobrevivência aqui?
" E aí, como assim fazer assim, por exemplo, no Brasil os padres têm lá uma um prolabore e tal, né, peloício que ele exerce, eh, plano de saúde, aonde é possível ter uma casa por aqui, aonde é possível ter, enfim, existe uma uma responsabilidade sobre aquele ministro, sobre aquele sacerdote. Mas e como é aqui diante de tanta pobreza? E daí ele disse assim: "Então, nós temos que nos virar, tá?
Mas como é que vocês se viram? se tudo é tão tão escasso. Aí ele disse assim: "Olha, eh, nós ganhamos o que qualquer outro trabalhador ganharia no país, ou seja, o máximo que um trabalhador ganha aqui hoje, não sendo alguém do governo e tal, é o que você chamam de salário mínimo.
Para nós aqui é o salário máximo, não é o mínimo, é o máximo, que seria 500 francos, eh, perdão, seria 50. 000 francos. Eh, 50.
000 francos atualizando assim pra moeda nossa local do Brasil real corresponde a R$ 500. Aí da Ah, beleza. E o que que você faz com 500 com 50.
000 francos, né, que seria R$ 500? Aí ele disse: "Não, com esse dinheiro eu tenho que pôr o combustível no carro para visitar as aldeias e cuidar da minha saúde, pagar funcionário, alguma funcionária que venha na casa paroquial, ajudar os pobres. pôr alimentação na casa e manter-se durante o mês.
Daí tá, padre, mas consegue ele não. 1 kg de arroz é 8500 francos, que seria R$ 85. Uma caixa de 12 ovos, R500 francos, seria 4 R$ 45.
A lógica é sempre tirar os dois últimos dígitos, você então converte pro real. Mas eu falei, tá assim, 1 kg de arroz 85 e se você ganha R$ 500, como é que faz? Ele não é isto.
Só que ele me dizia isto assim, rindo, não, geral mês, não, que alegria, não sei o quê. E eu eu tá e quando acaba não é isso mesmo. Quando acaba, seguimos a vida.
F, você tem plano de saúde? Não, aqui não tem nem médico para poder ter plano de saúde, cara. Assim, tem médico para você ir lá pagar a consulta.
Aí, tá beleza. Eu falei, padre, mas digamos que isso vai celebrar missa em outro lugar, eh, uma comunidade que não é a sua. Eles dão alguma espótula?
Porque assim, no Brasil é comum a gente chamar um pregador, um missionário, um padre para lembrar miss, por exemplo, e dar um esporta. Não, eles dão assim, quando eles conseguem dar, eles nos dão e 250 francos. Aí eu pensei, caramba, ah, eu fui tirar os zeros.
250 fando zeros é como se fosse R$ 2,50. Ainda eu pensei, opa, isso tipo assim é a maior esporte lá que ele consegue quando aquela comunidade consegue dar uma ajuda por ele ter atravessado, sei lá, 80 km para ele celebrar a missa. E daí eu vi o quanto que aqueles sacerdotes felizes davam a vida para aquelas pessoas terem missa, terem os sacramentos, enfim, ter vida sacramental.
E olha que eu peguei a realidade um pouco melhorada, porque eu estava convivendo com cinco sacerdotes que eram formadores do seminário. Por que pouco melhorada? Porque eles moravam no seminário, então comia do que do que era servido no seminário, mas ao mesmo tempo todos eram párocos.
Todos os sacerdotes eram párocos de alguma paróquia, ou seja, paróquias que t muitas comunidades. E ao mesmo tempo o reitor e todos os outros quatro formadores moravam no seminário para poder formar os seminaristas. Então, não era somente a paróquia e não era somente o seminário.
Eles tinha que dar conta de tudo isso e era um pouco melhorado porque ele tinha comida no seminário. As que chegava de doação pro seminário, eles também eram assistidos. Aí eu dei um passinho a mais.
Eu falei assim: "Mas os senhores eh aqui recebem alguma coisa por serem formadores do seminário? " Não, Gerônimo, isso é a nossa missão. Nós estamos aqui para formar os seminaristas, mas nós somos padres lá.
Sei que é padre ali, padre naquela cidade. Isso me ensinou muito. Não estou dizendo que a gente deve fazer o mesmo.
Não é isso. A minha o meu raciocínio vai na seguinte direção. Eles não têm preguiça e não ficam acomodados.
Se é para serem informadores do seminário e ao mesmo tempo ter uma paróquia longe do seminário ou fora da cidade, eles vão com alegria. Você pode celebrar três, quatro missas no domingo depois de ter celebrado a missa do seminário, que é uma missa também aberta pra comunidade. Eles vão com alegria, votam com alegria.
Mas eu quero lembrar, eles do ponto de vista econômico, material recebem nada por isso de extra. a não ser da generosidade do povo, o quê? As mangas que o povo cultivam, cultiva, perdão, o caju, a castanha, o o fruto do labor.
Então, as pessoas elas são generosas nesse outro aspecto. Se elas não têm dinheiro para dar aos sacerdotes por ter para ajudar a salar no combustível, que que elas fazem? Enche o carro dos padres de comida do que eles cultivam no quintal.
Couve, alfasto, mate, beringela, manga, muita manga, manga, manga, manga. Lá cheguei a estação da das mangas, caju, castanha. E com isso os padres também conseguem abastecer o seminário.
Percebe aqui o intercâmbio de generosidade, o ofertório lá é as pessoas levando literalmente o que elas têm de dízimo da colheita. O que que é o dízimo da colheta? Ah, essa semana nós conseguimos colher isso de caju, isso de alface, isso de cheiro verde, isso aqui.
Elas põe na cestinha delas e leva põ no altar. E aquilo ali é o sustento, é a alegria da semana, no caso específico daqueles partners do seminário. E se ele tivesse uma casa paroquial, da casa paroquial dele, por se as pessoas não têm dinheiro, elas dão fruto do trabalho delas.
Isso me ensinava muito, sabe? Claro, o a realidade local favorece isso, que é uma realidade mais rural, mais voltado pra agricultura, muito embora eles não tenham nenhum subsídio, nenhum fomento, nenhum apoio do governo para isso, mas mesmo assim eles ali vão trabalhando arduamente e quando vão pra missa chegam com suas sacolinhas cheias de coisa. Tempero daqui, fruto da cular, não sei o quê.
Na hora do ofertório vão lá e põ no altar ali no pé do presbitério. Então ainda falava isso com alegria. Então dizia: "É por isso que vai chegando doação aqui, pá.
Todo cada m que o senhor vai vai chegando doação. É meu filho, isso aqui foi do ofertário. Do ofert?
Aham. Quer dizer, não se passa fome porque Deus, né? Deus é misericordioso, mas ao mesmo tempo na a pobreza, minha avó dizia, né, que a pobreza nos faz criativos.
Então, o nosso ofertório é o fruto do nosso trabalho. Mas como a gente trabalha e não é remunerado, o que que a gente vai então dar de dízimo pro Senhor se a gente não tem o dinheiro para dar a décima parte? A gente não dá a décima parte daquilo que a gente escolheu essa semana no nosso quintal.
E nós estamos falando de pessoas que passam fome e elas levam com alegria pro templo, pra igreja, pra missa, aquilo que elas cultivaram arduamente. Não sei se eu me faço entender que elas poderiam dizer: "Não, somos nós que precisamos". Isto aqui eu vou levar lá no no na centro da cidade para vender.
Ela diz: "Não, eu vou levar pro Senhor, vou levar pra igreja". Isso, sabe, mexeu um pouco comigo, a entrega dos padres e a entrega do seu povo. Cada um à sua maneira vai entregando o que tem.
[Música] O seminário, né, chama seminário interdiocesano, ele tem duas eh dioceses. Um país inteiro de 2 milhões de habitantes tem apenas duas dioceses. E aí nesse onde eu estava, tá lá o seminarista das duas dioceses.
Eh, para uma realidade local, o seminário estava cheio. Então eu tava lá com 18 seminaristas. Essa era minha percepção.
Tava cheio e os pais diziam: "Não, Geral, a gente chega até 30 seminaristas". Ainda falei que que tá acontecendo? Ah, muita coisa, precisa fazer uma promoção vocacional.
É, um bispo morreu, o nosso tá doente, as instâncias dos espaços pra gente fazer promoção vocacional e nos impede, né, e tal. Mas assim, aquilo que eu pensava, nossa, 18 seminaristas tá bacana, ele diz: "Não, tá vazio, chega 30, 40 seminaristas". E aí, claro, esse do maior nos seminários e menor, eh, no seminário menor, tinha lá um grupo de mais de 10 seminaristas, mas ainda seus padres consideravam assim: "Não, a gente pode mais".
Eu pensava: "Meu Deus, então é um lugar de muitas vocações, ao menos do ponto de vista do sacerdócio, da vida religiosa também. Lá tem o que eles chamam de eh irmãs diocesanas. Que que é isso?
um padre eh da Itália na década de 90, sei lá, foi lá e fundou um um convento, uma congregação para moças da diocese que quisessem ser freiras, porque como lá tudo é muito pobre, então raríssimas congregações iriam lá para abrir uma casa religiosa. Aí no pai disse: "Pom, como ninguém apareceu aqui até agora, só vieram os franciscanos e então faz o seguinte, vamos abrir uma congregação chamada Irmãs deocesanas". E daí olhava o tempo todo aquelas meninas de velho e tal, eu pensava: "Meu Deus, fui lá no encontro 40 mocinhas de vel, as irmãs decesanas, ou seja, na um lugar que vai suscitando vocações.
Ainda é uma chaga a questão do matrimônio. Os padres me partilharam, que é uma chaga assim, é uma realidade ainda ser muito trabalhada por muitas questões, né? a pobreza, a questão social, a questão cultural, mas do ponto de vista da vocação religiosa e da vocação ao sacerdócio, é fértil o terreno.