Dizem que covero não tem medo de assombração, tem medo dos vivos. Mas quando você passa 32 anos enterrando gente no interior do Ceará, uma hora o outro lado te faz uma visita. O relato de hoje vem de um homem que viu que não devia ser visto e vai fazer você prender respiração e ter medo de entrar em um cemitério à noite.
Olá, o meu nome é Valdir. Tô com 68 anos e moro aqui no interior do Ceará em Morada Nova. Eu bati ponto 32 anos da minha vida como coveiro no cemitério do município e eu sou aposentado.
Mas o tempo que passei lá dentro com uma pá na mão me ensinou muitas coisas. A primeira pergunta que o povo faz quando sabe da minha antiga profissão [música] é se ouvir assombramento e eu passei umas boas três décadas dizendo que não. Mas vou logo lhe dizendo, coveiro não tem medo de defunto.
O finado tá lá no canto dele, calado, não bota boneco como ninguém. O cabra tem medo é de pegar uma doença mexendo em osso, de pisar em escorpião no meio do mato ou de trombar com malandro pulando muro de madrugada para poder roubar as tumbas. O vivo é que dá dor de cabeça.
Pois essa minha valentia foi pro Beleléu em uma tarde de novembro de 2005. Eu tinha passado o dia de finados fazia umas duas semanas. Essa é a época que a gente mais sua camisa.
Depois que passa o feriado, o cemitério volta a ficar aquele deserto. Numa quinta-feira dessas, o meu parceiro de serviço foi embora mais cedo, com uma dor de dente da gota serena e eu fiquei só para terminar de limpar uma rua lá nos fundos. Era a parte mais antiga do terreno, onde tem aqueles túmulos de pedra cheia de anjos quebrados.
Tem gente ali desde 1920, 1930, família de coronel que o povo nem visita mais. Bem, eu lembro que nesse dia o sol já tinha ido embora. Devia ser umas 5:30 da tarde, mais ou menos.
A claridade já estava pouca. Eu juntei as minhas coisas, peguei a pá, o carrinho de mão e fui passar o cadeado lá na frente. Foi nessa hora que eu ouvi um resmungo.
Era uma voz de homem e ele falava bem baixo. Eu parei o que estava fazendo e pensei: "Vxe, alguém perdeu a hora e eu vou ter que botar para fora. " A prefeitura tinha uma regra rígida de fechar os portões a seis em ponto, senão podia entrar vândalo e era mais difícil de enxergar as coisas à noite.
Deixei o carrinho no corredor e fui andando na direção da voz, passando pelo meio dos túmulos. Quando dobrei a esquina de um mausogel na rua principal, eu vi um sujeito. Era um cabra muito alto, vestido com uma roupa que me chamou atenção na hora.
Ele estava usando um terno de um pano grosso abotoado até em cima e ele também usava um chapéu. Macho, num calor de rachar o kingo de novembro cearense, ninguém normal anda empacotado daquele jeito. Mas não pensei em visagem na hora.
Achei que fosse gente da capital que tem essas manias de visitar túmulo. Ele estava costas para mim, de frente para um zico de pedra bem alto, que tinha uma grade de ferro toda comida de ferrugem. Ele falava baixinho.
Como? Quem bota o papo em dia? Parecia que estava dialogando com alguém, entende?
Fui chegando de mansim para não assustar o homem. Parei há uns 10 m e disse: "Boa tarde, meu senhor. Desculpa incômodo, mas eu já tô encerrando o expediente.
Vou precisar passar a corrente no portão lá da frente. " O homem não virou de uma vez, não. Ele parou de falar, ficou uns segundos olhando pro túmulo, então respondeu: "Eu já tô de saída, moço.
Só ver a situação da casa de minha esposa. Dei mais uns passos para perto. Certo, senhor.
Fica à vontade. Mas é que não deixam a gente passar do horário. A família dela é daqui de Morada Nova.
Foi nessa hora que o bicho virou para mim. Márcio me deu um pens um passamento nas pernas na mesma hora. A cara dele não era desfigurada nem nada.
Era o rosto de um homem de uns 50 anos de bigode fino, mas ele não tinha cor. A pele do cabra era da cor de uma vela de cira, uma palidez medonha. E olha o olho, vale a Deus.
Ele olhava na minha direção, mas parecia que eu nem tava ali. Tinha um olho sem brilho, sem vida nenhuma. Ele apontou o dedo pro túmulo e soltou essa.
Olha, ela tá reclamando da água. Toda vez que dá chuva forte, a água emposta aqui no pé da grade e tá estragando o vestido de noiva dela. Minha pressão arrim era da família Alencar.
Tava abandonado há décadas. tinha a mesma rachadura na base de cimento que a prefeitura nunca mandou consertar. E de fato, a água descia por ali e empoçava na frente da grade, mas ninguém sabia daquilo, a não ser eu e meu colega que limpava a área.
Não tinha como um parente de fora saber detalhe de água entrando, muito menos fala de vestido de noiva, porque não tinha ninguém lá embaixo há anos. Era apenas poeira e barro. A voz sumiu da garganta.
Eu só balancei a cabeça. Feito um abestado e gaguejei dizendo que ia avisar o administrador. O homem deu um aceno com a cabeça, ajeitou o chapéu e disse: "Lhe agradeço, moço.
Vou indo na frente para não atrasar seu lado. " Ele virou e foi saindo, indo pro lado de um mausoléu grande para pegar outra rua. Pior que ele andava meio duro e o pé não fazia barulho de jeito nenhum.
A rua estava forrada de fogas e o passo do homem não fazia um barulhinho sequer. Eu fiquei plantada ali uns 5 segundos. Quando criei coragem, fui até a esquina onde ele tinha virado e olhei.
Tinha era nada. A rua do cemitério era reta, dava para ver até o muro lá no fundo. Não tinha porta aberta, não tinha uma árvore.
O homem de terno simplesmente evaporou. Eu não dei na carreira porque a perna não obedeceu. Fui arrastando o chinelo, deixei ferramenta para trás e peguei o beco.
Passei o cadeado lá na frente com a mão tremendo que não acertava o buraco da chave. Cheguei em casa e me bateu um calafrio, uma febre do rolo. Passei três dias variando, sonhando com água suja e vestido de noiva.
Minha mulher teve que chamar uma rezadeira lá do bairro para benzer o meu quarto com ramo de peão roxo, porque remédio de posto não dava jeito. Qu voltei pro batente. Na outra semana eu comprei um saco de cimento do meu bolso, fiz a massa e tampei a rachadura na base.
Nunca comentei com a administração e nunca anotei em nada e nem comentei com ninguém que trabalhava ali comigo. Eu trabalhei lá mais uns 10 anos até me aposentar. Depois daquele dia, nunca mais fiquei no cemitério depois das 5 da tarde.
Pode ter o serviço que for. Deu a hora, eu juntava minhas tragas e me embora. O povo diz que depois que a gente morre tudo acaba, mas eu sei muito bem que não é assim não.
Tem gente que vai, mas tem gente que fica vigiando que deixou para trás. E se você não tiver respeito, eles vêm cobrar. Isso não é conversa fiada, foi o que eu passei na pele.
Acredite, o outro lado existe e tem muita coisa pra gente descobrir ainda. Obrigada por contar o meu relato e uma boa noite. Olá, talvez o que eu vou relatar agora não faça muito sentido para quem não conhece a rotina de uma igreja ou a forma como as pessoas que vivem uma comunidade como a que eu cresci e fui criado vivem.
Mas eu tenho a certeza de que aqueles que tm um pouquinho de convívio com o meio, seja em qualquer religião, vai se transportar para dentro da minha história. Desde muito pequeno, sempre fui encantado [música] pelos mistérios que uma igreja traz. Então, ainda muito criança, ao ser levado às missas, o meu interesse não era parecido com o das crianças da minha idade.
Eu passava todo o tempo observando os detalhes sacros. e tentando imaginar do que se tratavam, desde o homem pregado na cruz aos anjos ou mesmo outros santos que adornavam as belas construções chamadas de casa de Deus. Tudo aquilo me fascinava e despertava a imaginação.
Minha curiosidade, é claro, era saciada sempre por minha mãe, que pacientemente explicava do que se tratava cada detalhe contido dentro das igrejas. E foi assim que a minha infância se passou, praticamente morando dentro da paróquia de São Sebastião, que ficava muito próximo da casa onde eu morava. Ali fui de coroinha a funcionário efetivo da igreja, chegando a cogitar a vida cibatária, o que não se concretizou.
Eu não poderia jamais me dedicar à vida de padre, tendo conhecido o anjo com o qual me casei e aprendi a amar ainda muito jovem. O meu nome é Alexandre, tenho hoje 58 anos de vida e o que relatarei aconteceu no Grota, cidade de Jequiré, Minas Gerais. Meu relato aconteceu por volta dos anos de 1978, mesmo ano em que ouvi bem à minha frente, pela primeira vez a voz de um anjo.
Viver em uma comunidade é muitas vezes abrir mão da própria liberdade. Muitas foram as vezes em que os compromissos com a igreja me testaram, fazendo-me abrir mão de uma vida social em prol do amor de Deus. Mas eu nunca me senti pressionado.
O sentimento de servir a ele e ao próximo sempre me mantiveram feliz e realizado. Porém, uma vida de dedicação, como a que eu e a minha família levávamos, trazia a carga de todo tipo de provocações. Perdi meu pai, ainda menino.
E um ano depois, o meu irmão mais Vega também nos deixou por causa de uma discussão de barra. E foi assim, de um dia para o outro, com apenas 12 anos de idade, que eu me vi com a necessidade de me tornar homem para ajudar em casa. Foi também neste ano que comecei a lidar com a maldade na sua forma espiritual e me propus a encarara com as armas mais fortes que um ser humano pode ter, a sua fé.
No Grota, algumas pessoas haviam relatado ataques a animais em sítios. por feras não identificadas. Particularmente eu atribuía tudo ao inimigo, porque vê ninguém que eu conhecia havia visto.
Então, o que ficavam era os rastros de um animal grande e a destruição de um suposto animal enfurecido. Uma amiga de minha mãe foi à nossa casa desesperada uma vez. Pedi que eu consertasse, por exemplo, as tábuas que cercavam sua propriedade, pois na noite anterior algo havia passado por lá e destruído as amarrações que seu falecido esposo havia feito.
Na lama percebi as patas que se misturavam a pegadas humanas. Lembro-me de não acreditar muito no que os moradores falavam, apesar de não fechar os olhos para as evidências. Havia marcas de unhas nas tábuas arrancadas e sangue entre os arranhões.
Eu senti o mau presáo naquele emontoado de arames e madeiras, mas me sentia seguro por ter uma fé que me guiaria caso necessário. Essas e outras evidências de que nossa cidade estava sob o ataque de alguma fera foram criando fama. Certa vez, uma senhora relatou ter visto um obomem nos arredores do meu sítio.
A cidade, que já andava afoita com os pequenos ataques se apavorou. Eu percebi as ruas cada vez mais vazias, enquanto a igreja ficava cada vez mais cheia. Era o início de uma batalha física, espiritual que eu travaria com o ser do inferno, que poderia terme ceifado à vida.
As histórias foram se alastrando no Grota e Redondezas, boatos de aparições e pessoas que realmente haviam visto tal animal. Eu afirmo isso pela idoneidade da pessoa. Conhecíamos algumas e sabíamos que não inventariam tal coisa.
Os boatos davam conta de uma fera peluda, como lobomem mesmo. Muitos diziam tê-lo enfrentado e travado uma luta e que no final o bicho acabou fugindo. Porém, os que eu acreditava davam conta de um animal grande, quadrúpede, de pelos escuros e que não avançava, apenas rodeava as propriedades como se estivesse caçando.
Alguns confundiriam com um cachorro de tamanho maior que o normal. Porém, dadas as histórias da cidade, julgavam seu obomenem do Grota. Não havia nenhum indício de ataque humano até então.
Porém, naquela noite, depois de fechar a igreja, fui abordado por uma menina da minha comunidade pedindo pro socorro. Em meio ao desespero, a menina relatou que sua irmã havia sido arrastada por um cafezal enquanto voltavam da missa. Corri para ajudá-las.
Encontramos uma garota em estado de choque, arranhada e com braço aparentemente quebrado. A irmã a abraçou, mas não conseguiu tirar nada da moça, além de choro e desespero. Eu as levei para casa realmente preocupado.
Um ataque a humanos realmente não era algo corrigueiro por ali. Eu voltei em estado de alerta para casa. Pedi a Deus que me protegesse e orientasse caso algo novamente acontecesse.
Fui guiado para o cafezal, onde o rastro era de uma moça arrastada por algo muito forte e muito veloz. Eu senti um calafrio e saí dali. O clima ficou pesado na cidade.
O relato do ataque à moça correu rapidamente e na missa de domingo a igreja estava abarrotada. Gente que não víamos há tempos por lá. Era difícil se concentrar.
Havia muitas conversas paralelas e o padre precisava chamar a atenção a todo minuto. Eu mesmo me esforçava para manter atenção ao esquema de liturgia da missa. Chamamos o salmista e pedimos mais uma vez o silêncio.
Mas aquele dia estava realmente difícil. Foi então que uma voz apenas fez com que centenas de outras se calassem. Ao subir ao altar, a salmista cantou um salmo como se o próprio coral divino de todos os anjos estivesse ali fazendo a maior das apresentações para Deus.
Eu não a conhecia. Acho que ninguém dali a conhecia ainda. Seu nome era Mariana, nova moradora da cidade de Jeriquiri.
Jequire, a igreja se calou diante da beleza daquela voz. A menina cantava e o som se espalhava por toda a igreja. Foi preciso que ela repetisse algumas vezes o pedido de todos para que os fiéis repetissem a parte que lhes cabia.
Uma coisa que nunca mais presenciei em toda a vida. A missa transcorreu mais tranquilamente depois da liturgia do salmo que Mariana fez. O burburinho típico de cidade pequena agora davam conta sobre a moça que calara toda uma multidão.
Com o passar dos dias, uma amizade entre Mariana e eu acabou surgindo, e essa amizade acabaria salvando a minha vida em todos os sentidos que se possa imaginar. Descobrimos que ataques em outras regiões aconteciam quando o groto estava tranquilo. A polícia já fazia rondas na nossa região e os cuidados à noite foram redobrados.
O tempo passou e as pessoas foram aos poucos tomando a rotina. Tudo parecia milagrosamente calmo naquele ano. Não se falava mais do tal gozomem do Grota.
O i e vi das pessoas no período noturno voltou a acontecer como se nada tivesse acontecido. Houve então uma reunião na paróquia a fim de discutirmos o jubileu de Bom Jesus que atrairia muitos turistas. Todos concordaram que a festa poderia acontecer.
Meu coração dizia que não. Eram sete dias de festa dessas que você deve saber bem como funciona. Havia os romiros que tradicionalmente participavam da festa em agradecimento, mas havia também muitos turistas que buscavam outras coisas.
Infelizmente era para esses que o mal se direcionava. No segundo dia de festa, após cumprir com minhas obrigações, fui levar Mariana em casa. Conversávamos pelo caminho quando observamos um grupo de jovens embriagados se direcionando para uma área muito afastada da praça.
A princípio, não nos preocupamos em orientá-los. Eu percebi que devíamos ter a mesma faixa de idade e me perguntei o que levava um jovem a agredir o seu corpo, o próprio templo de Deus daquela forma. Preferimos não nos intrometer e passamos por eles.
Mas meu coração pedia que eu os alertasse. Voltei com a melhor das intenções e perguntei se procuravam por algo ou alguém. Talvez eu pudesse ser o guia deles.
Uma das moças disse que não, que apenas estavam conhecendo o local. Enquanto um rapaz desorientado pela bebida me empurrou jogando-me no chão. Eu me assustei com atitude e pedi calma, mas ele tentava me ofender, chamando-me de caipira e mandando que eu cuidasse de minha vida.
Levantei-me e pedi calma mais uma vez, mas o rapaz me desferiu um soco na boca, apavorando as moças que os acompanhavam. Mariana começou a chorar, me ajudando a levantar. O próprio amigo do Brutamontes, que me atacou estranhou as atitudes, mas meu pacato espírito entendeu que aquele jovem estava sob o poder doco.
Me afastei do grupo com a ajuda de Mariana e seguimos para a casa dela. Mariana não entendia como os rapazes da cidade podiam ser tão ingratos e se queixou durante todo o trajeto para casa. Apesar de chateado, eu estava tranquilo por ter feito a coisa certa.
Porém, percebemos que os turistas vieram atrás de nós. Eu e Mariana éramos simples. Não compreendemos a intenção logo de início, mas eles queriam abusar de Mariana e meigar ainda mais na frente dela.
As garotas não estavam mais com eles e a maldade estava explícita nos olhos daqueles meninos. Apertamos o passo, fingindo que não os notamos, mas o rapaz que havia me atacado correu e nos cercou. Dois amigos me seguraram pelo braço enquanto ele se aproximava de Mariana.
Eu pedi pelo amor de Deus que não fizesse aquilo. Me desesperei e me debati. Mariana tentou correr e gritava pro socorro enquanto eu lutava para me saltar daqueles meninos.
Foi então que eu senti como se me acertassem a boca do estômago, uma pancada muito forte que eu não sabia de onde vinha. Os garotos que me seguravam também foram atingidos. Caímos no chão, zunzos com a pangada.
Um urro alto e cheio de raiva cortou a noite. No meio do cafezal saiu aquele bicho escuro e peludo que botava medo na cidade inteira. Não era linda, era um bicho enorme e assustador de verdade.
Mas o milagre aconteceu. Em vez de atacar a mim ou a Mariana, o bicho foi para cima dos arroaceiros. O medo tomou conta daqueles cálas.
Eles gritaram, levantaram tropeçando e saíram correndo pra cidade, esquecendo a gente. O bicho parou. A respiração pesada dele fazia barulho na rua de terra.
Ele olhou por nós por um segundo, virou as costas e sumiu no mato. Naquela noite eu vi que Deus age de formas estranhas e usa até o nosso maior pesadelo para nos livrar do mal. O tal do lobshomem do Grota salvou a mulher da minha vida.
Mariane e eu nos casamos depois e o bicho nunca mais apareceu.