muito bem antes da gente fazer análise de conto a conto é muito importante a gente fazer aquele trabalho de contextualização entender quem é o escritor né falar um pouco mais sobre a sua trajetória e claro as características de estilo próprias da escrita do Geovanni Martins Então me acompanha aí nesse movimento olha Eh assim como a Carolina de Jesus o Giovan Martins ele é um escritor que rompe com o silenciamento imposto às Vozes da Periferia né já fizemos um um pequeno paralelo ali com o quarto de despejo da Carolina que eu acho que é sempre importante
fazer porque ela realmente foi uma Pioneira em furar a bolha né mas e é sempre importante a gente perceber o quanto é difícil nós termos acesso a um ponto de vista sobre a periferia que não seja carregado dos preconceitos da mídia hegemônica dos meios de comunicação de massa aquele ponto de vista sobre a periferia que julga a favela apenas como né Um cenário de disputas eh pelo tráfico né de violência e tudo mais aqui a gente tem o ponto de vista do próprio periférico trazendo uma perspectiva humana né trazendo né justamente as questões que que
tocam o ser humano de maneira mais Universal os grandes temas que estão colocados aqui no livro não são necessariamente temas da da realidade periférica né Mas é interessante essa humanização do sujeito periférico a construção mesmo de uma literatura que nos desmistifique um pouco né Eh o olhar sobre esse ambiente social e cultural que pode ser muito diferente do seu né então a literatura ela tem sempre essa missão muito M Nobre né que é de de nos proporcionar eh um olhar empático não é então muito interessante vamos lá nascido em Bangu Zona Oeste do Rio de
Janeiro também conheceu de dentro a realidade da favela né então Ele viveu na Rocinha hoje ele mora no vidgal eh ambas EH favelas na zona sul e justamente as favelas da zona sul do Rio de Janeiro elas acabam tendo esse contraste muito grande né Eh entre o morro e o asfalto quer dizer É um cenário que a gente percebe que tá ali do lado por exemplo né da da zona nobre do Rio de Janeiro você tem a favela quer dizer então o abismo social ele fica mais Evidente esse contraste e essa realidade contrastante ela ela
é referida explicitamente no livro né Olha só esse trechinho do conto espiral né para você perceber também a consciência do Giovan Martins sobre eh esse Abismo social sobre essas disparidades né na paisagem social Fluminense aí olha só as pessoas costumam dizer que morar numa favela de Zona Sul é privilégio se compararmos a outras favelas da zona norte Oeste Baixada bom de certa forma entendo esse pensamento acredito que tenha sentido o que pouco se fala é que diferente das outras favelas o abismo que marca a fronteira entre o morro e o asfalto na zona sul é
muito mais profundo é sair do Beco dividindo com canos e mais canos o espaço da escada atravessar valas abertas encarar os olhares dos Ratos desviar a cabeça dos fios de energia elétrica vê seus amigos de infância portando armas de guerra para depois de 15 minutos estar na frente de um condomínio com plantas ornamentais enfeitando o Caminho das grades e então assistir adolescentes fazendo aulas particulares de tênis é tudo muito próximo e muito distante e quanto mais crescemos maiores se tornam os muros Então olha só nessa percepção aguda né sobre a desigualdade social Extrema e a
maneira como fica o contraste muito Evidente quando você simplesmente sai de um beco e dep para né com jovens burgueses fazendo aulas de tênis em condomínios de luxo bom então Eh o despertar do Giovan Martins PR pra literatura ele se deu pela influência da avó né a gente pode perceber que alguns contos ali do livro eles vão ter até uma característica eh que a gente poderia dizer memorialística né Dá para perceber que tem uma inspiração nas vivências do do do próprio Giovanni Martins né bom então essa figura da avó como e essa monte de interesse
né pelas histórias pela literatura é uma figura muito marcante tá da avó que o Giovan Ouvi as histórias que depois contava aos amigos então ele acabava se tornando uma espécie de contador de histórias e tal já Quando garoto né leu gibis passou a ler best Sellers né aqueles livros mais comerciais até chegar aos clássicos Como Machado de Assis e perceber o poder que tinha a literatura né de mexer né com o Imaginário das pessoas bom então é ele acabou realmente se interessando cada vez mais pela literatura não só pela leitura Mas pela escrita também né
participou de oficinas literárias na flop que é a festa literária das periferias e organizou a revista setor x com textos de autores periféricos Ele publicou ali alguns de Seus contos e contos de outros escritores também da Periferia Tá certo apresentou né Essa revista setor x na flip na programação paralela da Flip só né destacando aqui que flop é a festa literária das periferias né mas a flip é o grande evento da literatura brasileira de modo geral né é a festa literária internacional de Parati sim é um evento bem comercial Mas ele também tem essas programações
paralelas que são muito interessantes então aqui né o Giovan Martins lançou essa revista setor x e acabou retornando depois a flip e em 2017 ele acabou eh fechando um contrato com a companhia das letras que veio a publicar então o livro O S na cabeça esse que nós temos como objeto do nosso estudo aqui tá que foi lançado em 2018 então né participou da Flip teve seu livro de estreia sol na cabeça lançado no Brasil pela companhia das letras em 18 e publicado em outros nove países como a gente já tinha comentado olha aspectos importantíssimos
sobre o estilo do autor que você não pode deixar de observar já falamos sobre isso e vamos fixar a favela é cenário não o tema principal das narrativas o foco é a experiência humana especialmente da Infância e da adolescência Nesse contexto sociocultural em segundo lugar a linguagem Esse é um aspecto né que as questões de prova vão acabar abordando a linguagem ela apresenta registros da variedade oral praticada pela Juventude periférica do Rio de Janeiro mas predomina ao longo do livro A Norma culta padrão Urbana então quer dizer tem uma mistura né de linguagem padrão e
não padrão e quando eu falo de língua não padrão eu tô falando justamente de uma variedade específica de uma comunidade de um grupo social né Essa variedade então da Juventude da favela do Rio de Janeiro com termos como os menó né E eles ele até acaba fazendo nesse caso uma uma escrita fonética né em vez de menor é a gente tem ali menó tipo m e n o acento né Menor Os menó indo PR indo pra praia né então a gente vai perceber que tem essa mistura né da da língua padrão com essa variedade específica
da linguagem eh e às vezes é isso um mesmo conto pode acabar trazendo esse contraste das linguagens né Eh a gente vai perceber que às vezes a narrativa é feita em terceira numa linguagem padrão predominantemente padrão e os diálogos né o discurso direto acaba trazendo a presença das gírias e desse código mais específico da Juventude periférica às vezes né a linguagem do conto narrado em primeira pessoa é toda ela uma linguagem não padrão e de repente tem alguns termos um pouco mais né Eh rebuscados no meio e tal o próprio giovanne Martins ele comenta um
pouco sobre essa sua linguagem mixada aqui nesse fragmento aqui olha só onde a linguagem ia para o português mais canônico eu fazia questão de inserir gírias e expressões populares onde usava e abusava da oralidade para contar uma história sempre havia espaço para uma palavra mais recorrente ao português formal tá então aqui o próprio autor ele coloca a Sua percepção sobre essa linguagem né híbrida entre a linguagem padrão e o código eh periférico da Juventude ali da da sua comunidade então quer dizer Ele conta que quando tem muita gíria d a pouco aparece uma né um
termo mais né Eh mais padrão mais formal e vice-versa né onde você tem muito dessa né Desse código mais padrão dali a pouco surge né uma gíria uma expressão mais queal no meio Tá bom então a linguagem ela é mesclada em todo o livro mas eu preciso dizer para você o seguinte a gente tem o predomínio né da linguagem eh formal tá do da linguagem padrão eu quero dizer da linguagem que a gente considera como Norma culta padrão Urbana isso predomina no livro tá bem e Inclusive eu fiz um quadro esquemático aqui para te mostrar
isso tá eh bom dos 13 contos de o sol na cabeça seis são narrados em primeira tá E os os demais são em terceira tá então quer dizer você tem aí quase que meio a meio né mas enfim Então a gente tem seis contos narrados eh em primeira pessoa tá certo e nós vamos ter ali sete contos narrados em terceira eh entretanto mesmo nas narrativas em terceira pessoa é possível perceber a aderência do ponto de vista desse narrador em terceira aos protagonistas certo então quer dizer é narrado em terceira mas parece que a gente tá
filtrando tudo ali pelo Imaginário né o narrador onisciente ele vai capturando né o Imaginário e até mesmo a própria linguagem desses personagens periféricos Tá certo então Eh mesmo quando a narrativa em terceira pessoa é perceptível a aderência do ponto de vista aos protagonistas culturalmente identificados com o espaço da Periferia Tá bom então é isso agora olha só falei que eu tinha feito um quadro esquemático e sempre destacando aqui eu coloquei linguagem predominante porque você não vai ter um conto com a linguagem totalmente padrão você vai ter o predomínio né dessa linguagem eh culta padrão certo
eh Só que de vez em quando você vai ter né alguns termos ali que vão remeter a uma linguagem mais específica né daquele grupo social eh periférico tá certo então assim ó você percebe que a gente tem aqui no esquema também os contos que são narrados em primeira Os Contos que são narrados em terceira e aqui os contos em que há o predomínio da linguagem padrão e da linguagem não padrão né a gente tem em maior número contos em que predomina a linguagem padrão Tá certo e em maior número contos narrados em terceira pessoa tá
ainda que seja quase que meio a meio como a gente já falou vai se destacar aqui muito né o conto rolezin Quem quem abre o livro e lê o primeiro conto imagina que todo o livro vai ser numa linguagem não padrão e não é verdade isso aqui pode ser até motivo de algum tipo de pegadinha em prova e tal Porque rolezin é aquele texto dos né E que vai trazer muitas gírias que remetem mesmo a esse ambiente social e cultural que vai ter a presença né Eh eh das drogas que vai trazer né algumas reflexões
ali também sobre a maneira como o jovem periférico Ele é tratado né pelo estado pela polícia né como um potencial criminoso a gente tem toda essa questão do racismo estrutural né da da violência policial e enfim da maneira como o jovem periférico ele tenta viver a sua vida curti o seu momento né e esbarrando às vezes nessas eh contradições da sociedade em que a gente vive Mas enfim o conto rolezinho ele vai ter muito dessa linguagem não padrão narrado em primeira pessoa e ele dá uma impressão de que o livro todo vai fluir assim e
não é o que acontece você vai perceber depois por exemplo que espiral éé vai ser narrado em primeira e vai usar uma linguagem mais padrão né E vai mostrar também um pouquinho desse espiral de de de ódio vamos dizer assim que em que nós temos no sociedade desigual que trata muitas vezes o jovem negro da periferia potencialmente como um criminoso de maneira absolutamente preconceituosa né então é aquela história por exemplo do do protagonista se perceber né Eh despertando medo né na senhorinha que fica segurando a bolsa quando ele passa só que ele fica com raiva
disso ele começa então a né fazer de propósito entre aspas perseguir só para né vamos dizer assim dar uma trollada naquela pessoa né fazer ela sentir medo já que ela trata ele como se ele fosse um bandido né injustamente eh rotulando como um criminoso que ele não é então ele passa a a desempenhar esse a esse comportamento vamos dizer assim de né de revanche social né então é interessante observar que o conto é narrado em primeira e ele vai sendo constituído por uma linguagem padrão predominantemente tá certo é curioso isso então eh não é só
nas narrativas em terceira que a gente vai ter o emprego de linguagem padrão e também não é só porque o texto é em primeira que ele vai usar uma linguagem não padrão a gente pode ter também um texto em primeira né Eh usando uma linguagem padrão como acontece por exemplo em a viagem certo uma narrativa que envolve ali né A Viagem das drogas mas envolve também o quê a descoberta né Eh do Amor o momento né de repente do jovem curtir o seu momento sendo ele um jovem universitário e tal passar também por uma experiência
aqui eh é é surpreendente com com amigos e tal não vou dar spoilers depois a gente vai contar a narrativa tem uma tensão interessante mas ela é construída sim em primeira pessoa mas numa linguagem predominantemente padrão então te liga né não é porque o texto é em primeira pessoa que vai ter linguagem não padrão predominantemente e também não é porque o texto é em terceira que vai ter linguagem padrão predominantemente pode acontecer de maneiras diferentes Tá bom então a gente tem textos em terceira com linguagem não padrão também tem se pegar o conto Travessia né
que é o é o último texto eh do livro ele vai trazer ali também a história de um né de um cara que tá envolvido com o movimento que é o Beto né e ele acaba eh eh cometendo vamos dizer uma infração ali no no código do Morro Tá certo e ele vai ter que resolver um um um perrengue lá e em razão de um né de uma de um vacilo seu Tá certo então o chefão do tráfico diz ó vai ter que resolver isso aí te vira né E aí a gente tem uma travessia
ali não quero te dar muitos detalhes pra gente poder contar a história no momento certo e você usufruir também da das surpresas que a narrativa pode trazer Tá bom mas é isso esse texto todo ele é narrado em terceira mas numa linguagem não padrão predominantemente Tá bom então queria só te mostrar como tem muito dessa mesclagem das das linguagens aí E é claro né Para você também poder fixar esse esse belo quadro aí Lembrando que o nosso curso ele sempre traz para você a tabela inteligente então você vai ter uma tabela no caso desse livro
é muito interessante ter a tabela ela mesmo pra gente ter essa essa percepção do enredo né dos dos temas né com as palavras chave de cada conto para você lembrar também tá bom é isso aí bom galera então eh a sequência é a análise de conto a conto e você não pode perder