Nas profundezas das antigas escrituras figura um personagem envolto em mistério e fascínio, Enoque. Um homem que, segundo a tradição bíblica, não conheceu a morte, mas caminhou diretamente até os céus. Mas quem foi de fato essa figura que na antiguidade dominou a literatura bíblica com visões de anjos caídos, demônios, gigantes e segredos celestiais?
Para entender de onde vem o livro de Enoque, precisamos voltar milhares de anos no tempo e olhar para onde a própria escrita da humanidade começou na antiga Mesopotâmia. A gente fala muito dos gregos, dos judeus e dos romanos, mas muita coisa importante começou na Suméria ou na Mesopotâmia em geral. A escrita, agricultura, a civilização, a roda, o sabonete, para dar só alguns exemplos, são todas invenções sumérias.
Pense nisso por um momento. Em sua obra A origem e o fim da história, o filósofo Colepers cunhou o termo era axial para se referir ao período de grandes transformações culturais na história humana em que tudo isso se deu. A era axial foi o período situado aproximadamente entre 800 AC e 200 AC, com seu ápice por volta de 500 AC, durante o qual surgiram de forma paralela as bases conceituais, espirituais e filosóficas que moldaram a humanidade até os dias de hoje.
Gaspers observou que grandes revoluções no pensamento humano aconteceram simultaneamente em três grandes regiões do mundo antigo, sem contato umas com as outras. Na China, o surgimento de Confúcio, Lautzu e as origens do confusionismo e do tauísmo na Índia, a aparição do Buda, do jainismo e a composição dos upanxás. Na Grécia, o nascimento da filosofia ocidental com Sócrates, Platão, Aristóteles e, claro, antes deles, os pré-socráticos e no Oriente Médio e na Pérsia, o surgimento de Zaratustra ou Zoroastro e o desenvolvimento do monoteísmo ético entre os profetas de Israel, Elias, Isaías, Jeremias.
Houve também a descoberta da individualidade e da consciência reflexiva. Pela primeira vez na história, o ser humano deixou de ser um mero componente passivo de mitos tribais ou estruturas estatais para se tornar consciente de si mesmo, de suas limitações, de sua mortalidade e de sua capacidade de questionamento ético e existencial. O mito começava a engendrar o logos.
As explicações míticas e puramente rituais sobre o cosmos e a sociedade começaram a dar lugar à razão crítica, a especulação filosófica e a busca por verdades éticas e universais. Surgiram noções universais sobre o bem e o mal, o sofrimento humano, a justiça social e a salvação da alma, propondo ideais éticos que ultrapassavam as fronteiras de um povo ou império específico. E Aspers utilizou o termo eixo Axer, porque acreditava que esse momento representou o ponto de rotação sobre o qual a história da humanidade girou.
Para ele, tudo que aconteceu antes da era axial foi uma espécie de preparação e tudo que veio depois, incluindo o cristianismo, o islã, a ciência moderna e a tradição filosófica, foi profundamente influenciado pelas bases estabelecidas durante esses séculos. A era axial marca a transição da religião mítica clássica para a reflexão crítica, ética e apocalíptica. O primeiro Enoque começou a ser redigido por volta do século I a C, no final do período axial.
Ele reflete o surgimento da imaginação apocalíptica judaica, que respondeu às grandes crises políticas dos impérios persa e helenísto. Um traço típico da era axial, na qual o colapso de estruturas antigas forçou a busca por respostas transcendentes. Na religião pré-axial, o mal costumava ser visto como parte natural do caos cosmogônico ou mero capricho dos deuses.
Na era axial, a ética torna-se o centro da espiritualidade. No livro de Enoque, o mal não vem do Deus supremo, mas da rebelião de seres celestiais, os anjos caídos que corrompem a terra ao ensinar artes proibidas e gerar os gigantes. Bem antes de pensadores como Agostinho ou Libnis, Enoque aborda a nossa importante questão filosófica da teodisseia.
Como um Deus justo permite o sofrimento do justo? Deus pode ser culpado pela existência do mal? A resposta enóquica é axial.
Existe um conflito ético no cosmos e a história caminha para um julgamento final. Caspers destacou que a era axial substituiu a religião tribal e puramente local por uma visão universalista e individual da salvação que influencia fiéis até hoje. Embora a maioria das bíblias modernas exclua os livros de Enoque, mantendo-os vivos, principalmente na tradição etípe, as descobertas dos manuscritos do Mar Morto revelaram algo impressionante.
Na época do segundo templo, a tradição enóquica era absurdamente popular. Ela era lida mais do que a maioria dos livros que hoje compõem o cânone que você chama de Bíblia. Estudiosos como Gabriel Bocatini apontam que existiam quase duas Torais disputando espaço na Judeia antiga.
Uma tradição centralizada no templo e na figura de Moisés e outro grupo sacerdotal focado em Enoque como o verdadeiro revelador celestial. Ambos os personagens sobem aos céus ou a montanhas sagradas para receber a sabedoria divina e trazê-la à humanidade. No vídeo de hoje, nós vamos investigar o livro de Enoque, seus comentadores atuais, e solucionar mais uma peça do quebra-cabeça histórico sobre como a Bíblia veio a ser o que é hoje e qual é a verdadeira origem teológica e filológica desses textos.
>> [música] >> Para entender os anjos caídos de Enoque, precisamos olhar para a cosmovisão do antigo Israel. Como lembra o historiador e pesquisador Henrique Caldeira, no Israel antigo e em todo oriente próximo, a existência de múltiplos deuses não era questionada. Deus preside na assembleia divina, no meio dos deuses, ele julga.
Nesse texto, Yahvé convoca uma assembleia com os deuses das nações e os repreende por serem maus administradores, por não protegerem o órfão, o pobre e a viúva. Deveres que na Babilônia antiga, como no código de Amurabe, cabiam aos grandes reis e patronos celestiais. Como esses deuses falharam em governar a terra com justiça, Yahé profere a sentença.
Vós sois deuses, filhos do Altíssimo. Contudo, morrereis como qualquer homem e caireis como qualquer príncipe. Essa perda da imortalidade e essa sentença de queda seriam a semente para a ideia de anjos caídos que mais tarde explodiria.
No livro de Enoque. No terceiro século antes de Cristo, quando a literatura enquica começou a ser redigida, os autores judaicos tentaram reinterpretar esses textos antigos sobre seres celestiais que perderam o status divino. Em Gênesis 6, o texto menciona os filhos de Deus que se relacionam com as filhas dos homens, gerando os nefilim, os gigantes.
Séculos depois, rabinos tentariam negar que seres espirituais pudessem se relacionar com mortais. Mas o livro de Enoque abraçou essa ideia sem hesitar. Os filhos de Deus eram entidades celestiais que desceram a Terra, uniram-se aos humanos e romperam a ordem cosmogônica.
Para mim, isso configura a forte evidência do caráter humano, demasiado humano dos textos religiosos. Eles estão sempre se adaptando às preferências da mentalidade do seu contexto. Enoque era o rival de Moisés?
Estariam ambos os personagens sendo influenciados por uma mesma matriz? Se sim, qual seria esse outro mito original? Primeiro de tudo, é preciso compreender que é ponto pacífico na academia hoje que nem Moisés nem Enoque jamais existiram.
São figuras mitológicas, conforme explica a historiadora Juliana Cavalcante. >> Moisés é um outro personagem que também não tem nenhuma evidência de que ele tem existido. >> O êxodo de maneira geral.
>> O, isso é um detalhe interessante. Essa essa história vale a pena contar. O, quando a gente pensa em Êxodo e a gente pensa em Moisés, a gente pensa as duas narrativas como sendo uma só, casadas.
Só que o texto, os textos mais antigos da Bíblia hebraica ou do Antigo Testamento, como é mais conhecido, eles começam, na verdade pela literatura profética, que tá situada ali por volta do século VI, século VI, mais ou menos, que é um dos textos mais antigos é o texto de Amós. E o texto de Amós, ele traz primeiro as narrativas, né, do êxodo, mas sem Moisés. Então o êxodo vem na frente do Moisés, [risadas] depois o Moisés é agregado.
Tem um pesquisador, um historiador brasileiro, o Thiago Pacheco, que ele inclusive aponta que o Moisés seria na verdade uma colxa de retalhos, ou seja, várias tradições, inclusive narrativas fantásticas criadas que vão constituindo o Moisés dentro da próprio literatura, dentro das próprias crenças desse antigo Israel. Uma delas seria a Débora de juízes. Então, veja que detalhe interessante.
Eh, quando você pega em juízes, você vê que tem uma personagem Débora lá chamada, né, com esse nome e que tá ligada ali. É uma figura importante tribal. Se você comparar, né, o Pacheco demonstrou isso, que se você comparar as características da Débora com Moisés, elas são as mesmas.
E a Débora enquanto narrativa mítica é anterior ao próprio Moisés. Então esse seria um exemplo. Um outro histor, um outro cientista da religião agora que é o Rogério Lima de Moura, ele também tem um livro muito interessante que já mostra como que o mito de Moisés foi fabricado a partir de contatos, de interações culturais com outras sociedades.
E aí ele fala do sargão I, que é um rei, um monarca, né, da região ali, eh, da Arcádia. E esse monarca tem, curiosamente a mesma narrativa de nascimento que é de Moisés, sendo que ele é anterior ao próprio Moisés. >> Voltando à incógnita de Enoque, a ideia de um mortal que ascende aos céus e obtém a sabedoria dos deuses não começou na Judeia.
Ela remonta, adivinha? Sim, a Suméria e a Babilônia. Surpresa, no minto mesopotâmico de Etana, o rei voa até os céus, nas costas de uma águia em busca da planta da fertilidade.
Mas é no mito de Adapa que encontramos o verdadeiro molde de Enoque. Adapa era um sábio mortal e devoto de Henk, Deus da magia e do conhecimento. Após quebrar as asas do vento sul com um feitiço, ele é convocado pelo deus supremo Ano para ir aos céus.
Lá ele veste roupas celestiais e recebe unção, tornando-se o protótipo do escriba sábio que entre o mundo humano e o divino. Adapa também foi associado aos Apkalu, os sete sábios da tradição mesopotâmica. E não é mera coincidência que na genealogia do Gênesis, Enoque seja exatamente a sétima geração a partir de Adão.
Como os escribas judeus absorveram essas tradições mesopotâmicas? Especialistas como professor Seth Sanders explicam que com a perda da monarquia nativa sob o domínio dos impérios persa e helênico, os escribas e sacerdotes se tornaram os guardiões da autoridade. No final do período persa, o aramaico tornou-se a língua de instrução e erudição padronizada.
Escribas judaicos treinados na tradição aramaica entraram em contato direto com os mitos, calendários e astronomia babilônica. Veja a duração da vida de Enoque no Gênesis, 365 anos. um número diretamente ligado ao ciclo do calendário solar de 365 dias, espelhando a tradição astronômica babilônica em contraposição aos calendários lunares.
O ponto alto do livro de Enoque é a história dos vigilantes, anjos caídos que descem a terra, cupulam com mulheres humanas e ensinam à humanidade conhecimentos proibidos, como a metalurgia, feitiçaria e astrologia. desses relacionamentos nascem os gigantes. O que que isso parece?
Se você pensou nos mitos gregos com seus gigantes, semideuses e heróis, você acertou. Intrigantes semelhança, não? Assim como na cultura grega, os titães rebeldes desafiam Zeus e são lançados ao tártaro.
Na cultura hebraica, os vigilantes rebelam-se contra Yahvé e são aprisionados nos abismos. Prometeu é o Titã que rouba o fogo dos deuses para dar o conhecimento aos homens, paralelo perfeito aos anjos de Enoque, que revelam artes celestiais à humanidade. Essas semelhanças são fortes demais para serem desconsideradas.
Temos aqui evidência de um intercâmbio cultural e os mitos funcionam assim, assimilando uns aos outros. O livro de Enoque não é apenas um texto isolado ou misterioso. Ele é o ponto de encontro de séculos de intercâmbio cultural.
Uma síntese magistral onde mitos sumérios de ascensão, tradições babilônicas dos Apicalu, calendários solares e ecos da mitologia grega se uniram sob o gênio da escrita judaica apocalíptica. Enoque transformou-se no grande escriba dos céus, mostrando como a imaginação humana busca, geração após geração, decifrar os mistérios do cosmos e as origens do próprio mal. Como aponta Henrique Caldeira, no período mais antigo de Israel, a religião era enoteísta ou monólatra.
Reconhecia-se o Deus de cada nação, como quemó entre os moabitas, mas Yahé era o Deus tutelar de Israel. Essa noção de que outros deuses não existem é algo mais recente. Na antiguidade, culturas reconheciam outros deuses, mas não a sua relevância.
Não é o mesmo que dizer que eles não existiam. Roma, por exemplo, tinha como política de estado a assimilação dos deuses de seus territórios conquistados e de povos vizinhos. Se um determinado deus não fornecesse o que eles queriam, os romanos às vezes rezavam para outro.
A preocupação dos escribas bíblicos era tão somente que os judeus estavam rezando para outros deuses quando eles eram herdeiros, né, da tradição de Yahvé. Eles não deviam rezar para outros deuses senão Yahé, apenas Yavé. E por isso que eles admoestavam o povo.
O problema denunciado pelos profetas bíblicos não era a existência de outros deuses, mas a adoração a Baal e Aerá, por exemplo, dentro do território de Israel, que devia ser consagrado a Iavé apenas. Tudo mudou com o exílio babilônico. Sem o templo em Jerusalém e dispersos em terras estrangeiras, os escribas judeus foram forçados a redefinir sua teologia.
Yahé deixou de ser um Deus territorializado para se tornar o único Deus soberano de todo o cosmos, perante o qual todas as nações e todos os deuses acabariam por se dobrar. Era desculpa o malabarismo teológico perfeito para não permitir que Yahé fosse enfraquecido e humilhado. Ele não tem território porque ele está além do espaço, além do tempo.
Não é como esses outros deuses aí. Ele é o Altíssimo. Nesse cenário de transição, Enoque surge como uma figura cósmica universal que viaja pelas fronteiras da criação para testemunhar a justiça de Yahé sobre os deuses caídos e as nações corruptas.
Avançando no tempo para o século I, chegamos ao contexto em que Jesus de Nazaré e seus contemporâneos viveram. O pesquisador John J. Collins, autor de A Imaginação apocalíptica, lembra que o judaísmo daquela época era imerso na mentalidade apocalíptica, uma expectativa ardente do fim iminente do julgamento das nações e do advento do reino de Deus.
E o livro de Enoque era a principal ferramenta mental para essa cosmovisão. Enquanto o Antigo Testamento quase não fala da atuação direta de demônios, a tradição enóquica preencheu esse espaço com uma explicação completa para a origem do mal e dos espíritos malignos na Terra, de onde vinham os demônios segundo a tradição Enóquica, quando os anjos caídos uniam-se às mulheres humanas, geraram a raça híbrida dos nefilim, os gigantes. Quando esses gigantes morreram durante o dilúvio, seus corpos pereceram, mas seus espíritos desencarnados permaneceram vagando pela Terra como sombras e demônios.
Na tradição do primeiro livro de Enoque, partes desses espíritos foi acorrentada no abismo, enquanto uma fração permaneceu livre para testar a humanidade. Essa demonologia enóquica explica o cenário da Galileia no tempo de Jesus. As pessoas atribuíam doenças e aflições às ações desses espíritos.
E assim como as antigas práticas de exorcismo sumérias e babilônicas, os curandeiros e mestres populares operavam dentro desse universo mental em que expulsar demônios significava derrotar a herança invisível dos gigantes de Enoque. A influência do livro de Enoque no cristianismo primitivo não era indireta, ela era explícita. A carta de Judas no Novo Testamento que Bart Erman demonstrou ser uma falsa atribuição.
Não foi Judas, irmão de Jesus, quem realmente escreveu a carta, pois o texto é muito posterior à sua vida. Cita textualmente Ipses Literes, o primeiro livro de Enoque. Eis que veio o Senhor entre milhares de seus santos para fazer juízo contra todos.
Da mesma forma, as cartas de Pedro, que também são de autoria anônima, sobretudo porque Pedro era um pescador iletrado e que viveu antes da datação desses manuscritos, fazem referência direta aos espíritos em prisão e aos anjos acorrentados nas terras aguardando o julgamento, um eco inconfundível da punição dos vigilantes relatada por Enoque. Para os primeiros cristãos e autores do Novo Testamento, a tradição enóquica era uma fonte viva de autoridade teológica. Enoque deu forma ao imaginário do invisível, estruturando a visão sobre anjos, demônios, exorcismos e o julgamento final, que moldaria o pensamento do mundo ocidental por milênios.
Qual o aspecto do livro de Enoque mais chama a sua atenção? Comenta aí, deixe sua curtida e hype para que mais pessoas tenham acesso a essa importante e atual literatura científica. sobre o passado da humanidade e continue cético.
A verdade começa na dúvida.