O Brasil diante de uma tragédia humanitária em seu próprio território. A reportagem especial de hoje é sobre o socorro ao povo anomami, vítima do descaso criminoso de quem deveria protegê-lo e da cobiça de garimpeiros invasores. No último fim de semana, os repórteres Sony Abrid e Paulo Zero foram à terra Yanomama em Roraima, testemunharam um cenário desolador.
Enquanto as primeiras equipes no local distribuíam alimentos, famílias inteiras precisavam ser resgatadas, adultos, idosos e crianças em condições dramáticas de saúde: malária, pneumonia, desnutrição, contaminação por mercúrio. A lista de doenças é extensa. Você vai ver como a maior terra indígena do Brasil chegou a essa situação de emergência.
Quais são os planos para recuperar a região e o que pode acontecer com os responsáveis pela violência contra os ianomami? [Música] >> A gente vivia, a gente tinha vida, a gente tinha trabalho, pescava, a gente não tem hoje não tem porque o povo anomame tá doente. A situação é é muito grave.
[Música] É difícil entender como um lugar tão rico virou o palco da maior crise humanitária no Brasil neste século. >> Entramos na Terra e Anomame com o presidente do Conselho Distrital de Saúde Indígena e o novo secretário da CESAI. >> A visita deles é para organizar o programa de socorro.
A situação mais grave está nessa parte norte, onde ficam os pelotões especiais de fronteira do exército e a maior concentração de garimpo no território Ianomami. Pousamos no pelotão de Surucucu. [Música] Um pequeno paciente que havia sido resgatado na tarde anterior vai ser removido pela UTI aérea.
Ele tem pneumonia grave. >> A gente fez todo o suporte que tínhamos, né? Suporte respiratório.
A enfermeira explica na língua da jovem mãe que eles vão para Boa Vista. Tá, tá. Os cuidados são para estabilizar o bebê ainda em estado crítico.
[Música] >> O polo base de Surucu fica a 1,m5 da pista do pelotão de fronteira do exército. Feito para atender até 30 pacientes leves, agora parece um campo de refugiados. Entre adultos e crianças, mais de 100 pessoas estão aqui.
E tem mais chegando o tempo todo. O repórter Paulo Zero embarca no helicóptero da CESAIA, Secretaria Especial de Saúde Indígena. A missão é resgatar pacientes no lugar emblemático para entender essa crise.
A partir de 2017, o garimpo avançou por dezenas de quilômetros na região do Romosi. Os garimpeiros tomaram a pista da CESAI, expulsaram a equipe de saúde e usaram o posto como depósito de combustível. No ano passado, policiais federais estiveram aqui e destruíram máquinas do garimpo.
Em represalha, os garimpeiros botaram fogo no posto de saúde. São várias aldeias na região, como esta, cercadas pelo garimpo. As mães e os filhos estão com febre.
O resgate é muito rápido. A equipe está sem segurança e teme ataque de garimpeiros armados. [Música] Doentes e com medo de voar.
Em poucos minutos elas estão a caminho do socorro. Essa que além da malária tem a >> os seis. Mães e filhos estão com malária.
No romas moram. Só sete casos foram notificados. O ano passado inteiro, nós já mostramos lá o posto foi tomado e queimado pelo garimpo.
Isso deixa claro que os números oficiais não refletem toda a realidade. Mesmo assim, foram quase 22. 000 casos no ano passado numa população de 30.
000 Em 1992, a terra anomami foi demarcada e milhares de garimpeiros foram expulsos de lá pelas forças federais. Depois disso, o garimpo quase desapareceu, mas voltou em 2016 e em escala brutal. Os números mostram que o aumento dos casos de malária acompanha o do garimpo.
Em dezembro passado, a área atingida pelo garimpo chegava a 5. 000 haar, um aumento de mais de 300% em relação ao final de 2018. >> Durante esses 4 anos piorou muito as situações graves, né?
Chicomalária, tem nutrição, tem genom desde que eu levei o o primeiro fantástico, né? E até agora pessoal do Xaruna não recebeu nenhum ajuda. >> Em novembro de 2021, o repórter Alexandre Risaiço denunciou a crise humanitária que se agravava.
>> 8 anos. >> Quantos quilos? >> 11 kg.
Oito de cada 10 crianças e anomame têm desnutrição crônica. No mês passado, dois meninos de anomame de 4 e 5 anos morreram afogados. Eles foram sugados para o meio do rio por uma draga de outro grupo de garimpeiros.
>> Agora vamos pra comunidade de Cataroa. Aqui já chegaram cestas básicas, mas eles precisam de mais alimentos. Muita fome.
>> Ela conta que cinco pessoas da família morreram. Outra traz os filhos doentes. >> Olha aqui, ó.
E diarrea. >> Ó, tomar soro, ó. Na cacima, tomando soro.
>> As crianças são medicadas com soro de reidratação e são pesadas. >> 7 kg e 700. tem 4 anos, deveria pesar uns 16 kg e pensar que os casos mais graves nem estão mais aqui.
>> Foram as fotos deles ao serem resgatados que comoveram o Brasil. As fotos efetivamente me abalaram porque a gente não pode entender como é que umas um país que tem as condições que tem o Brasil deixar os nossos indígenas abandonados como eles estão aqui. >> No domingo passado, o presidente Lula veio a Boa Vista acompanhado de sete ministros.
Na casa do indígena, viu mais de 700 pessoas internadas. O lugar tem capacidade para 300. que ela veio para cá, tem filho pequeno em casa, que já tá se meses aqui.
>> Pelo menos 150 indígenas já poderiam voltar para suas aldeias, mas não tem transporte disponível. A crise sanitária já matou 570 crianças e anomame de 2019 a 2022. 29% a mais que os 4 anos anteriores.
Os dados do Ministério da Saúde foram compilados pela agência SUMAUA. Ontem, o ex-presidente Bolsonaro divulgou um relatório da CPI, que em 2008 investigou a morte de crianças indígenas por subnutrição. Motivada pela crise entre os Guarani Caioá no Mato Grosso do Sul, a CPI cita o avanço da malária entre o Zanomami em Roraima.
No post de Bolsonaro, a foto usada é de uma criança de outra etnia, do Maranhão. O ex-presidente disse que nunca um governo dispensou tanta atenção e meios aos indígenas como o dele. Mas os dados mostram que no período Bolsonaro as mortes de crianças e anomame por desnutrição quase quadruplicaram.
Com dados do Ministério da Saúde, o Fantástico separou só as mortes por desnutrição de crianças de 0 a 5 anos. Foram 152 nos últimos 4 anos, contra 33 no período anterior. Um aumento de 360%.
Imagina, isso é um dado que tá no Ministério da Saúde e nada foi feito e ainda há um risco de que esse dado seja subnotificado. É uma combinação de crimes ligados ao garimpo que provocou essa crise. >> Temos também dinheiro, temos atuação de organizações criminosas e nesta questão específica da saúde, não há dúvida que nós temos indícios do crime de genocídio.
A única contenação no Brasil por genocídio foi a de três garimpeiros que mataram 16 ianomami em 1993. O episódio ficou conhecido como o Massacre do Hashimu. De volta ao posto do surucu.
>> A enfermeira que há 10 anos trabalha com o Zanomami explica quem somos e por estamos ali. >> A gente tá vivendo um pesadelo nesses últimos anos, principalmente nos últimos 4 anos, né? É realmente desesperador para nós profissionais de saúde eh trabalhar nas condições que a gente vem trabalhando, tentando salvar vidas com mínimo mínimo.
>> Muitos têm contaminação pelo mercúrio usado no garimpo. O metal está na água, nos alimentos e passa de mãe para filho na amamentação. Que que a gente vê nessas crianças de sinais de contaminação por mercúrio?
Alopécia. Várias crianças estão tendo queda de cabelo. Os pesquisadores da Fi Cruz também têm analisado essa correlação, porque tem outros lugares que não tem a desnutrição tão acentuada, mas tem a alopécia.
evidente, vários bebezinhos estão nascendo com problemas neurológicos que às vezes as mães não vai perceber só com o decorrer do desenvolvimento dessa criança. E são esses principais eh problemas que tá se evidenciando rapidamente. A tragédia e anomame se transformou numa crise humanitária imensa, longe dos olhos do Brasil, mas não por falta de aviso.
Eu mandei várias vezes esse ofício pro governo, pro governo federal avisando que o Canoom tava tava doente, desnutrição grave para fazer uma ação na terra indígeno mame com os fotos, mas eh nunca responderam para nós. Ao todo, 21 pedidos em 4 anos sem resposta. E teve mais, >> pelo menos desde 2017 vem aletando o governo federal a respeito da invasão garipeira no território ianomano.
>> Em 2020, uma liminar da Justiça Federal obrigava o governo a combater o garimpo. >> A partir daí, são executadas diversas operações no segundo semestre de 2021, o chamado ciclos operacionais. Chegamos ao final de 2021, o governo federal se dá por satisfeito, né, alegando que de fato cumpriu eh o o plano operacional, que o garimpo seria eh na verdade algo dificilmente eh solucionado, eh seria quase eh algo eh impossível de combater.
Havia algumas alusões, eu tô falando isso de informações de audiência que eu participei. Nossa estimativa que haviam 421 pontos de mineração ilegal, atuaram apenas eh em nove. Além disso, nos últimos anos, o governo federal não cumpriu uma decisão do Supremo Tribunal Federal que ordenava a retirada de todos os garimpeiros daqui da terra indígena e Anomame.
>> A decisão também de 2020, em plena pandemia alertava para o risco de uma crise como esta. No ano passado, três operações conjuntas de combate ao garimpo foram planejadas, mas duas não aconteceram, porque o Ministério da Defesa não disponibilizou helicópteros de grande porte necessários para operar na Terra indígena. Acompanhamos a terceira, quando agentes do IBAMA e Polícia Federal destruíram ou apreenderam uma centena de aeronaves e inutilizaram boa parte da estrutura do garimpo.
Aparelhos de GPS apreendidos mostram o tráfego intenso das aeronaves do crime dentro do território indígena e também para a Venezuela. Enquanto isso, o líder dos garimpeiros desfilava em campanha para deputado pelas ruas de Boa Vista. Do PL ele não foi eleito.
>> Dinheiro vem da onde? Vem do garinho. >> O ex-presidente Bolsonaro esteve em Roraima e visitou um garimpo ilegal.
Ainda deputado, Bolsonaro propôs acabar com a terra indígena e anomame porque é riquíssima em madeiras nobres e metais raros. No sábado, dia 21, o ex-presidente disse numa rede social que a fome e anomame é uma farça da esquerda e que o governo dele executou 20 operações de saúde em terras indígenas. Na quinta-feira, o STF, em nota disse que identificou indícios de que o governo Bolsonaro teria fornecido informações falsas à justiça sobre assistência e proteção à comunidade e anomânia.
De volta à Terra Indígena, acompanhamos a Força Aérea, que vai entregar alimentos na região do Chitei. Aqui, um imenso garimpo segue o leito de um rio. Pousamos num pequeno espaço devastado.
As bombas do garimpo estão ali a poucos metros e os garimpeiros também. Eles não se intimidam com a presença da Força Aérea. A prioridade é ajuda humanitária, não o enfrentamento.
E há muita gente precisando de ajuda. >> Aqui na comunidade do Tirei, dá para ver direito como é que a fome se instalou entre os ianomames. O garimpo tá praticamente dentro da aldeia.
Toda essa água foi contaminada, não dá mais para beber. No rio tá morto, não tem peixe para comer. >> Fica claro que deixar alimentos não será suficiente.
Ela ficou com muito medo, fugiu, para tá com muitas crianças doentes aqui e também fome, né? Como a gente tá vendo aqui, situação eh as crianças fica doce, morre aqui e a gente não chega a socorro aqui >> por causa do garimpo. >> Por causa do carimpa.
>> Sete crianças e suas mães precisam de atendimento médico. Em poucos minutos estão voando amedrontadas, mas sem reagir. tão febr improvisamos agasalho.
Foi muito pesado para mim ver esses situações da da do meu povo sofrendo perto do nossas comunidade. >> E ainda tem mais um voo. Chegamos na comunidade Cachoeira.
Tá quase vazia. Aos poucos crianças se aproximam. As crianças estão doente.
>> É diarreia. >> Diarreia. >> É >> fome?
>> É muita fome. >> Não tem comida. É não.
>> Ele conta que um jovem morreu hoje na aldeia e muitos moradores estão no mato chorando o morto. >> Por que que ele morreu? A chegada de alimentos produz sorrisos na aldeia de luto, mas a fome grita de novo.
O resgate é inevitável. Tem que levar morrer. >> As mães buscam seus filhos menores.
Voltamos com mais nove crianças e um adolescente que arde em febre deitado no chão do helicóptero. Como não se comover com o gesto de proteção de uma irmãzinha? Já está escurecendo quando chegamos e todos os braços disponíveis precisam ser usados para levar os pequenos pacientes 1,m5 até o posto.
O adolescente febril tem malária falcípara, a forma mais grave. Como vocês puderam ver aí nesses últimos dias, é urgência e emergência o tempo todo. >> E quando dá para resolver aqui, a gente tenta resolver aqui.
Quando não dá, é aquela correria para enviar paraa Boa Vista, porque lá eles têm um suporte melhor que a gente aqui, né? >> Já pensou em desistir? >> Já.
Infelizmente a gente aí tem que ver uma mãe chorar porque seu filho foi foi a óbito. A gente no fundo sabe que que uma mãe perde um filho é uma dor que que nunca mais vai sarar, né? Já são quase 150 pessoas entre pacientes e acompanhantes no posto.
>> Além das três refeições por dia que estão sendo preparadas pelos próprios trabalhadores de saúde, as crianças e idosos recebem mais dois lanches com suplemento alimentar. A pista de pouso do exército está muito esburacada e só depois de recuperada é que aviões de porte maior vão poder pousar aqui. Polícia Federal, IBAMA, FUNAI e Ministério da Defesa já estão planejando operações para expulsar de vez o garimpo.
>> A sensação que nós temos aqui é que o estado estava de costa para o território anomame que a gente presenciou aqui. Foi uma operação de guerra, aeronaves descendo, partindo, trazendo e levando o paciente estado grave. A gente vê crianças, certamente elas estariam num cenário de risco de vida iminente nos próximos dias, né?
Então, e também presenciar o garimpeiro ali coagindo inclusive a nossa equipe. Então, a remoção desses garimpeiros, ela é seria a estratégia mais adequada para assegurar primeiro a soberania do território nacional, mas também a subsistência, a sobrevivência do povo e anomame nesse território. >> A tarefa é imensa, pode levar anos para recuperar as roças e os rios voltarem a ter vida.
Eu acredito com a sabedoria enorme que eles têm de conhecimento da terra, da terra floresta, eles vão conseguir encontrar lugares para que com igarapés limpos, mesmo que eles vá para mais longe, eles vão acabar encontrando um caminho, a gente só tem que ajudá-los a encontrar esse caminho com saúde, né? [Música] E nós não conseguimos contato com o ex-presidente da FUNAI, Marcelo Xavier, e o ex-ministro da defesa, o general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, para perguntar sobre o apoio aos indígenas da região. E se você quiser ajudar o povo e anomame, o site paraquendoar.
com. br tem informações sobre onges que estão levando alimentos à terra indígena. E no podcast do Fantástico, os repórteres Sony Brid e o repórter Paulo Zero conta os bastidores da viagem à Terra Anomami.
Já está disponível em g1. com. br/fantástico e nos principais tocadores de podcast.