Bem-vindos a mais uma conversa aprofundada aqui no nosso espaço. Hoje a gente mergulha num nome assim incontornável da literatura brasileira, Carlos Drmon de Andrade. Temos um material bem rico para explorar, sabe?
Um conjunto bom pra gente entender melhor a trajetória dele. A ideia é destrinchar a carreira, a obra que é imensa, né? a, o estilo inconfundível e, claro, a importância do Drmon para nossa literatura.
Para começar, não é exagero dizer que muitos o consideram o poeta brasileiro mais influente do século XX. Mas o curioso é isso. Por trás dessa obra gigante, rigorosa, parece que tinha um homem, é, mais discreto, sabe?
Quase avesso, os olufotes. Bom, vamos tentar entender essa figura tão complexa. A história começa lá em Itabira, Minas Gerais, 1902.
Essa cidade não foi só o lugar onde ele nasceu, né? virou quase um personagem na obra dele. Exatamente.
E Tabira é mais que um cenário, é uma memória afetiva, às vezes dolorosa, mas sempre presente. Ele era o nono filho, imagina o pai fazendeiro, a mãe com ascendência escocesa. E os relatos da infância já pintam esse quadro, né?
Um menino mais para dentro, observador, milp. Estudou lá em Itabira primeiro, depois foi paraa BH, pro Colégio Arnaldo e teve aquela passagem eh meio tumultuada por Nova Friburgo no colégio Ancheta. Mulutuada como é?
Ele foi exponso por insubordinação mental, já mostrava ali um um espírito inquieto, questionador, talvez. Nossa, insubordinação mental, que termo e aí em 1920 a família toda vai para Belo Horizonte. Ele com 18 anos não perdeu tempo, né?
Foi logo procurar o pessoal da escrita. foi direto. BH tava começando a ferver culturalmente e ele sentiu isso.
Começou a colaborar no Diário de Minas já no ano seguinte em 21. E ali ele fez amizades que foram assim cruciais. Que turma era essa?
Algar Renault, Emílio Moura, Aníbal Machado, João Alfonsos, Pedro Nava. Era o pessoal que já tava ligado nas ideias do modernismo que vinham de São Paulo, uma turma muito boa. E no meio disso tudo, ele ainda foi fazer.
Farmácia, não, FMG. Isso é curioso, né? Muito curioso.
Ele se formou em 1925, mas bom, as fontes são unânimes. Nunca exerceu a profissão. A literatura parece que já tinha fisgado ele completamente.
Totalmente. Tanto que nesse mesmo ano de 25, ele tá lá na linha de frente fundando a revista. Exatamente.
Junto com o Emílio Moura e outros. Essa revista foi fundamental para divulgar o modernismo em Minas. Ele não era só um espectador, ele era agente da coisa, né?
Já tinha até conhecido Mário de Andrade, Oswald Tarcila um ano antes, em 24, numa visita deles a Minas. E essa movimentação toda leva ao primeiro livro, Alguma Poesia, em 1930. Esse livro já chegou chegando.
Qual foi o impacto real? Olha, foi um marco. A Lily não só se lançou pro Brasil todo, mas já mostrou muito do que seria o Drmon.
A gente costuma colocar ele na segunda geração modernista, né? Aquela que veio depois da semana de 22 para consolidar as coisas. Mas o Drmon, ele é maior que qualquer caixinha.
Ele pegou as liberdades modernistas, o verso livre, a linguagem do dia a dia, os temas comuns, mas deu a elas uma voz muito, muito pessoal. E o que tinha de tão pessoal já ali no começo? Ah, era uma mistura, um lirismo meio contido, sabe?
Uma ironia fina, às vezes meio melancólica. E essa capacidade de achar poesia no banal, no prosaico. É o caso do famoso no meio do caminho, a pedra, essa mesma, que na verdade saiu antes, em 28, na revista de antropofagia do Oswald.
E deu uma confusão danada na época, né? Por que o pessoal implicou tanto com a pedra? Deu, deu sim.
Imagina um ambiente literário ainda era muito formal, né? Aí chega um poema curto, repetitivo, falando de uma pedra. Uma pedra.
Muitos acharam que era deboche antipoesia. Tipo, isso não é sério. Exato.
Foi muito criticado. Mas hoje a gente vê ali um gesto modernista muito forte, né? A valorização do comum, a brincadeira com a linguagem, a recusa do sentimentalismo fácil.
Foi um jeito dele dizer: "Olha, a poesia pode estar aqui também". mostrou a coragem dele desde cedo. E enquanto essa poesia já nascia assim, com personalidade forte, ele também começava uma outra vida bem diferente no serviço público.
Como foi isso? Eh, essa dualidade é muito marcante na vida dele. Ele foi funcionário público mais de 35 anos, uma carreira longa, estável, começou lá em Minas em 30 como auxiliar de gabinete.
Mas o pulo do gato, digamos assim, foi quando ele virou chefe de gabinete do Gustavo Capanema, primeiro em Minas, depois no Ministério da Educação e Saúde Pública, já no Rio de Janeiro, a partir de 34. Foi essa nomeação que o levou pro Rio, onde ele ficou até morrer. Trabalhar com Capanema no Ministério da Educação, ainda mais durante o Estado Novo.
Isso deve ter sido intenso, um período cheio de realizações, mas também bem controverso politicamente, né? Sem dúvida. O Ministério do Capanema foi um centro importante, né?
Muita coisa aconteceu ali na cultura, mesmo com o governo Vargas sendo autoritário. Passou por lá, Portinari, Vila Lobos, Lúcio Costa e o Drmon tava ali no meio da máquina administrativa, mas em contato direto com essa produção toda. Ele ficou bastante tempo nesse cargo, ficou até 45.
Depois ele continuou no serviço público, mas foi pra outra área, o patrimônio histórico e artístico nacional. OFAN, que hoje é o IFAN, trabalhou na preservação da nossa memória, chegou a chefear a sessão de história, uma trajetória sólida. E o mais incrível é que essa rotina que podia ser vista como, sei lá, burocrática não atrapalhou a escrita, pelo contrário, ele escreveu muito, né, poesia e crônica.
Li em algum lugar que ele se via mais como jornalista. Isso bate, bate totalmente. A crônica para ele foi, nossa, fundamental.
Ele escreveu crônica para jornal por décadas, regularmente. Para muitos leitores, a crônica é tão importante quanto a poesia. Ali ele podia comentar o dia a dia, a política, os costumes, com aquela mistura única de ironia, poesia e pensamento.
Talvez a disciplina do jornal de ter que entregar texto toda semana tenha até ajudado a manter o ritmo na poesia. É uma ótima hipótese. Pode ter ajudado sim.
A verdade é que ele nunca parou de produzir nessas duas frentes. Falando em produzir, a obra dele é um universo, né? Cobre tanto assunto.
Como a gente pode ter uma ideia geral do que fala o Drmo? É, é vasto mesmo. Vai desde as perguntas mais fundas, sabe?
É o sentido da vida, o tempo, a morte, Deus, a própria poesia. Ele pensava muito sobre o fazer poético a tal da metapoesia, mas também tem um lado mais pé no chão, a família, a infância em Itabira que volta sempre, né? E claro, a política, a sociedade, o socialismo em alguns momentos e o estilo acompanha essa variedade toda.
Como assim? Ah, tem o verso livre que ele dominava como ninguém, mas de repente ele surpreende com um livro como claro enigma, cheio de sonetos, com uma forma super rigorosa. A linguagem também varia muito, vai do jeito mineiro de falar até a reflexão filosófica mais assim densa.
Um crítico, o Afonso Romano de Santana, que propôs uma chave de leitura interessante, aquela do Eu X Mundo. Você pode explicar um pouquinho? Posso?
Claro. É uma leitura bem útil, sim. O Santana sugere que a obra do Drmon nasce dessa tensão básica entre o indivíduo, o e a realidade lá fora, o mundo.
E essa tensão se resolveria, ou melhor, se manifestaria de três jeitos principais na poesia dele. Quais seriam esses jeitos? O primeiro seria o eu maior que o mundo.
É quando o poeta olha paraa realidade com uma certa ironia, um distanciamento, quase como se estivesse acima dela. O segundo é o eu menor que o mundo. Esse aparece mais na poesia social, política.
O poeta se sente pequeno, talvez impotente diante das forças da história, da sociedade, mas ainda assim ele tá ali engajado, sofrendo junto. E o terceiro é o eu igual ao mundo. Seria a poesia mais filosófica, metafísica.
O eu tenta entender o seu lugar no todo, no tempo, no universo. Busca uma integração, uma compreensão maior. Entendi.
Então, a ironia, o engajamento social e a reflexão mais filosófica seriam formas diferentes de lidar com essa relação tensa entre o eu e o mundo. Isso ajuda a organizar a obra? Ajuda bastante.
Mostra que não são fases que acabam, sabe? São tons, posturas que vão e voltam ao longo da obra toda. A ironia tá lá desde o começo.
O engajamento explode em certos livros, como a Rosa do Povo. A busca filosófica marca outros, como o claro enigma. É um bom jeito de navegar por essa riqueza toda.
E tem outro ponto crucial que você tocou, a meta poesia. Ah, sim. A poesia que fala sobre poesia.
Ele fazia muito isso. Demais. O Drmon vivia pensando sobre o ato de escrever.
sobre o que a palavra pode e o que ela não pode fazer, sobre o papel do poeta, tem poemas inteiros sobre isso. É uma consciência do ofício impressionante. Ele não só usava a linguagem, ele ele desmontava, investigava, reinventava o tempo todo.
Um artesão mesmo. Voltando pra relação com o mundo, o mundo político, teve aquela fase de maior engajamento nos anos 40, certo? Como foi isso?
Teve sim, os anos 40 foram um período muito polarizado no mundo todo, né? Segunda guerra, luta contra o fascismo. Nesse contexto, o Drmon se aproximou do Partido Comunista Brasileiro, PCB, chegou a se filiar por um tempo curto ali em 1945, ele até codirigiu um jornal ligado ao partido, A Tribuna Popular, no Rio.
Fez até uma entrevista famosa com Prestes, que ainda estava preso na época. Colaborou também com outras publicações mais progressistas. E como isso apareceu na poesia dele e por essa ligação mais direta com o partido durou pouco.
Bom, essa fase coincide justamente com os livros de maior pegada social dele, Sentimento do Mundo, de 40, e principalmente A Rosa do Povo, de 45. São livros que respiram o tempo histórico, a guerra, a esperança de mudar o mundo. A poesia se volta pro coletivo.
Mas o Drmon, ele nunca foi de dogma, né? A passagem pelo jornal foi rápida. Parece que ele se afastou por discordar da linha editorial, talvez sentindo um certo patrulhamento ideológico, que é algo que às vezes acontece, né?
É bom deixar claro que a gente tá só relatando os fatos da biografia e como isso aparece na obra, sem entrar no mérito das posições políticas da época, que eram complexas, a poesia dele, mesmo a mais engajada, sempre manteve uma complexidade, uma angústia muito individual. que vai além de qualquer panfleto. Talvez, por isso, em outros momentos, volte à aquele tom mais cético, quase desiludido, como naqueles versos.
A poesia é incomunicável. Fique quieto no seu canto. Não ame.
Faz sentido. Com a obra tão imensa e cheia de nuances, fica até difícil saber por onde começar a ler, né? Se alguém quisesse conhecer Drmon hoje, quais seriam os livros essenciais?
É um desafio bom, mas a gente pode tentar agrupar talvez por fases, como a gente já falou um pouco com a ideia do eu x mundo, o comecinho que alguns chamam de fase gauche. Gausche, por causa daquele poema famoso. Exato.
Poema de sete faces que tem o verso mundo, mundo, vasto mundo. Se eu me chamasse Raimundo, seria uma rima, não seria uma solução. Mundo, mundo, vasto, mundo, mais vasto é meu coração.
E termina com o Vai, Carlos. ser galcho na vida. Enfim, essa fase inclui alguma poesia 1930 e brejo das almas, 1934.
Ali tem muita ironia, a observação da vida provinciana, aquele sentimento de não pertencer. Depois vem a fase mais social, mais política, marcada pela guerra, pela polarização. É a época de sentimento do mundo, 1940, José, 1942.
E claro, a obra prima dessa vertente, A Rosa do Povo, 1945. Esse é talvez o livro mais conhecido, mais celebrado dele. Um retrato potente daquele tempo sombrio, mas com uma esperança coletiva pulsando ali.
E depois dessa fase mais engajada, a partir dos anos 50, a gente sente uma mudança de tom. Ele entra numa fase mais filosófica, reflexiva. Às vezes chamam de fase do não ou metafísica.
livros como Claro Enigma, 1951, com aqueles sonetos incríveis, fazendeiro do ar 1954, Lição de Coisas 1962. Ali as perguntas são mais existenciais. O templo, a memória, o amor, a morte, a própria linguagem.
A forma fica mais rigorosa, a linguagem mais depurada, às vezes até um pouco mais difícil. E aí, já nos anos 70 e 80 vem forte a memória, né? A volta à infância, a Itabira está muito presente na série Boi Tempo, que tem livros como Menino antigo e Esquecer para lembrar, e também em As impurezas do Branco, 1973.
E mais pro finalzinho da vida, ele ainda nos surpreende com uma exploração bem aberta do erotismo que saiu depois que ele morreu no livro O amor natural. Mas, ó, essas fases são só para ajudar a entender. Os temas se misturam o tempo todo, viu?
Claro, claro. E não dá para esquecer da prosa, as crônicas, os contos. De jeito nenhum.
A prosa é parte essencial do legado. As crônicas são um tesouro, reunidas em livros como fala amendoeira, cadeira de balanço, amarse Aprende amando. Ali a gente vê um drumon mais conversador, comentando o Brasil, o jeito das pessoas, sempre com aquela inteligência e ironia.
E tem os contos de contos de aprendiz e até livro para criança, como o elefante. É muita coisa e tudo de altíssimo nível. Com uma obra desse tamanho e qualidade, é natural que ele tenha sido muito reconhecido em vida, né?
Quais foram os prêmios mais importantes? Ah, foram muitos. Ele ganhou vários jabutis.
O primeiro foi por Boi Tempo lá em 68. Ganhou o prêmio da PCA, a Associação Paulista dos Críticos de Arte. Teve reconhecimento internacional também como o prêmio Morgado de Mateus em Portugal em 1980.
Ganhou o Juca Pato como intelectual do ano em 82. E além dos prêmios de literatura, recebeu honrarias, tipo a Ordem Militar de Santiago da Espada de Portugal. E depois de morrer, recebeu a ordem do mérito cultural aqui no Brasil.
Foi muito celebrado, sim. E essa obra toda marcou gerações de escritores depois dele, né? A influência é innegável.
E a vida pessoal, a gente falou do homem discreto, foi uma vida pessoal mais reservada. Sim, ele se casou em 1925 com a Dolores Dutra de Morais e ficaram juntos a vida toda. Tiveram dois filhos.
O primeiro, Carlos Flávio, nasceu em 26, mas viveu só meia hora. Uma tragédia que rendeu um poema muito tocante, o que viveu meia hora. Depois veio a filha Maria Julieta Drmon de Andrade, em 1928.
Ela também se tornou escritora, cronista, era muito próxima do pai, uma grande parceira intelectual, afetiva. A Maria Julieta morreu em 5 de agosto de 1987 de câncer. Ela tinha 59 anos.
E apenas 12 dias depois, no dia 17 de agosto, o Drmon faleceu aos 84 anos. Mas o legado dele continua super vivo, né? Até de formas bem concretas.
muito vivo. Além dos livros que não param de ser lidos e estudados, ele tá aí na paisagem. A estátua dele em Copacabana, sentado no banco, quem não conhece, virou ponto turístico.
Tem o Memorial em Itabira, projeto do Niemer. Tem estátua em Porto Alegre, junto com Quintana. Foi até enredo de escola de samba.
Foi da Mangueira em 87, o reino das palavras. Um desfile campeão inesquecível. Chegou a virar nota de dinheiro, lembra?
Nos cruzados novos. E tem o trabalho importantíssimo de instituições como o Instituto Moreira Sales, que cuida de parte do acervo dele e promove o dia de todo ano no aniversário dele, 31 de outubro. É uma presença constante.
Então, resumindo essa nossa conversa, a gente viu o Drmon desde lá de Tabira se tornar essa figura central. talvez o nosso grande poeta do século XX, com uma obra que coa muito além do Brasil. Vimos como ele usou o modernismo como ponto de partida, mas criou algo tão pessoal, tão único, que não cabe em rótulo nenhum.
Exato. A grandeza dele tá aí nessa capacidade de pegar tudo do seu tempo, as liberdades da arte, as tensões políticas, as angústias do século e transformar em poesia. Uma poesia original forte que vai do verso livre ao soneto, da ironia à melancolia, do social ao íntimo.
Essa mistura de domínio da linguagem, profundidade de pensamento e sensibilidade para sacar o sentimento do mundo que faz ele continuar tão relevante. No fundo, então, parece que a grande jornada do Drmon foi essa, usar a palavra para investigar sem parar essa relação complicada, às vezes irônica, às vezes dolorida entre o indivíduo, o e esse mundo enorme, complexo, que tá aí fora. Ele não dava respostas prontas, né, mas fazia as perguntas certas com uma honestidade poética impressionante.
Fique então talvez uma reflexão pra gente levar daqui nesse nosso tempo agora tão cheio de barulho, de informação desencontrada, de problemas tão complexos. Será que esse jeito drumon de ser esse olhar atento pro detalhe, esse questionamento das aparências, essa busca pela palavra exata para dizer o que a gente sente e pensa, não seria útil pra gente também? Uma inspiração pra gente observar melhor, pensar mais fundo e quem sabe achar o nosso jeito de falar do mundo e das nossas próprias pedras no caminho.
Fica a dica, né? E o convite para ler o Relê Drmon sempre. Antes de encerrar, quero deixar um convite especial.
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