Para quem olha de fora a palavra evangélico, costuma transmitir a imagem de um grupo uniforme, como se todos pensassem e agissem da mesma forma. No entanto, ao produzir o documentário O Brasil Evangélico, conversamos com grandes líderes e representantes das principais correntes do evangelicalismo brasileiro. E o pastor Iago Martins explicou o erro dessa percepção em entrevista exclusiva para Brasil Paralelo.
A gente não pode olhar para os evangélicos como um grupo monolítico de práticas e crenças, como se se dizer evangélico significasse realmente alguma coisa. Se dizer evangélico, se resume a se dizer não católico. Você se diz evangélico, você tá dizendo que você não é católico, você não é espírita, você não é de uma religião afro, você não é muçulmano.
Você tá basicamente descrevendo pela negativa de que você participa de uma comunidade pós-reformada, que vem pela influência da reforma protestante, mas que abraça uma comunidade muito grande de crenças periféricas. Os evangélicos são muitos, são amplos, é muito difícil reduzi-los a um único movimento de forma a de forma a respeitar a sua complexidade. Neste vídeo, você descobrirá as principais vertentes desse movimento, o que elas têm em comum e quais são suas maiores diferenças.
Tudo começa em 1517, na Alemanha. Nascia ali o protestantismo histórico. É a primeira vertente da reforma protestante.
Vem lá então com Martinho Lutero, na reforma do século X. Ah, e logo depois daquele movimento na Europa que que eclode eh um processo transformacional e civilizatório e com várias vertentes eh na Europa, aquilo vai se eh conformando em diferentes reformas. E na reforma luterana propriamente dita, isso também tem uma história muito longa que vai perpassando a Alemanha e a os países nórdicos, especialmente a Suécia, Finlândia, depois o que vem a ser Finlândia, então e a Dinamarca, Noruega, ah, onde o luteranismo acaba tendo bastante protagonismo.
Eh, no século XIX acontece também uma unificação política e social da Alemanha, fazendo com que eh calvinistas e luteranos tivessem que sob a mesma bandeira imperial eh viver unidos. um grupo não não concorda, vai paraos Estados Unidos, funda um sino do luterano nos Estados Unidos, da qual vem a missão, que hoje é a Igreja Evangélica Luterana do Brasil, que eu faço parte. Na verdade, evangélico e protestante são sinônimos.
protestante começou com dentro do ambiente da reforma, os primeiros momentos da reforma, quando Martinho Lutero expõe as suas teses, as 95 tes lá em 1517, isso gera uma discussão generalizada na Europa. Impressionante, porque eh veja que a imprensa escrita tinha poucas décadas, João Gutemberg tinha feito lá os tipos móveis, fazia poucas décadas, né? Eh, e aí em uma cidade universitária, numa uma nova universidade que era Wittemberberg, aparece essa discussão.
Essa discussão aparece como acadêmica primeiro. E dizem alguns biógrafos que em poucas semanas toda a Europa estava lendo essas estas teses que foram escritas em latim, que era a língua oficial da academia, que também era a língua oficial da Igreja Católica. E então isso gera uma um um uma desacomodação das placas tectônicas, porque ali você tem então pela primeira vez os príncipes, os governantes, eh, questionando ou se colocando a questionar eh dogmas que até então eram irrefutáveis.
E não eram irrefutáveis necessariamente porque faziam sentido, mas eram irrefutáveis porque Roma lucuta causa finita est, né? Porque se Roma disse é assim. Foi em uma rua de Los Angeles em 1906 que nasceu o pentecostalismo clássico, a rua Azusa da qual já falamos neste outro vídeo aqui no canal.
Ao enfatizar uma espiritualidade mais efusiva e corporal, além da busca por dons espirituais, como línguas, curas e profecias, aquele avivamento se tornou o estopim de um movimento que se espalhou rapidamente. Assembleia de Deus tem uma relação muito forte com o movimento da rua Azusa que ocorreu em Los Angeles em 1906, nos Estados Unidos da América. No entanto, não é a única origem, porque nesse mesmo período ocorria nos Estados Unidos um movimento muito semelhante entre os batistas suecos da igreja em Chicago, onde Gunaving e Danielberg eram membros.
Tanto que a experiência pentecostal de Gunarving se dá numa conferência batista, porém as Assembleias de Deus têm uma relação muito próxima com o movimento da rua Azuza, uma vez que ele é o marco do pentecostalismo moderno e a nossa doutrina se assemelha em muito aquilo que era ensinado e vivido pelos nossos irmãos do movimento da rua Azusa. O movimento pentecostal no Brasil, ele é costumeiramente dividido em três ondas pela sociologia da religião, por Paul Freston, principalmente, mas os pentecostais normalmente preferem usar primeira fase, segunda fase ou terceira fase, porque a ideia de onda é a ideia de algo passageiro e fase da ideia de continuidade. A segunda onda ou segunda fase não substituiu a primeira.
É uma continuação. A Assembleia de Deus faz parte da primeira onda, 1910 a 1950. A segunda onda, ela começa precisamente em 1951 com a fundação da Igreja do Evangelho Quadrangular.
55 vai surgir a Igreja O Brasil para Cristo e em 62 a Igreja Pentecostal Deus é amor. A a diferença básica é de que o Brasil nesse período se torna mais urbano. Há um processo de industrialização e essas igrejas vêm para os centros urbanos e trazem no seu escopo a difusão do evangelho por meio da cura divina.
por meio da libertação e com o uso da rádiofusão, principalmente com as emissoras de rádio. Então essa é a principal diferença, é uma continuidade, um complemento da primeira fase distinta em relação a alguns aspectos, mas que vem somar. Na segunda metade do século XX surge o movimento carismático, no qual fiéis católicos e de denominações protestantes históricas passaram a incorporar práticas pentecostais sem abandonar suas igrejas de origem.
Você também tem lá pela década de 70 o movimento carismático. E a coisa interessante do movimento carismático é que talvez para aqueles que estão olhando de fora pensam que os pentecostais, os carismáticos são é o mesmo bolo, mas na verdade os carismáticos são de linhas de denominação histórica que tiveram então a renovação carismática, talvez a mesma experiência que os pentecostais já tiveram, porém vão trazer junto com eles essa mentalidade mais reformada, eu diria a cosmovisão, um paradigma, talvez, por exemplo, dentro da minha família. A minha mãe que cresceu dentro da Igreja Metodista Livre, teve quando foi fazer o mestrado dela na Califórnia, no meio daquilo que era o Jesus People Movement, aonde os hips estavam se convertendo e tendo encontros com o Espírito Santo e o batismo e os dons.
E e foi lá que a cabeça da minha mãe começou a entender que os dons são para os dias de hoje. Porém, ela não conseguiu negar toda a formação metodista que ela teve. Então você tem essa onda da renovação carismática tocando os presbiterianos, os batistas, os luteranos, tocando os metodistas, como foi no nosso caso, os episcopais, os anglicanos.
E e junto com isso você vem uma herança adequada ou adicionada a a manifestação dos dons. Então eu digo que quando você tem uma mentalidade dualista de separação entre sagrado e secular, você tem uma mentalidade muito similar àquilo que é o Antigo Testamento. É uma separação daquilo que contamina.
Então, a gente vai recordar na narrativa bíblica que desde a lei de Moisés, se a pessoa é leprosa, se a pessoa tem uma impureza, eh eh se ela tem pecado, ela tem que ser removida do arraial. E já quando Jesus vem, ele faz o oposto, ele vai atrás do leproso. Então não mais temos que remover o impuro para não sermos contaminados, mas agora com o poder do Espírito Santo na nova aliança, podemos ir atrás do impuro para santificá-lo, para purificá-lo.
E quando você tem essa renovação carismática, você tem também junto com a manifestação dos dons, você tem essa mentalidade, essa esse entendimento teológico. Estamos aqui na Terra não para vivermos um mundo que é subcultura ou paralelo, pelo contrário, estamos aqui para sermos sal da terra, luz do mundo, servir. A partir do final da década de 1970, o cenário religioso passou por uma nova transformação com o surgimento do neopentecostalismo.
Essas denominações ergueram grandes templos e mega igrejas de alcance global, a exemplo da Igreja Universal do Reino de Deus. Essa vertente diferenciou-se das anteriores por oferecer abordagens pragmáticas para as aflições cotidianas e por uma forte inserção nos meios de comunicação de massa. O rádio, a televisão e, posteriormente, as redes digitais são usados para expandir as mensagens.
Hoje em dia existe um rótulo para falar dos neopentecostais, que é a teologia da prosperidade. Eu particularmente não gosto muito do rótulo, porque eu digo, se é teologia não dá para atacar e se estão precisando confrontar é porque já deixou de ser teologia, né? Então, essencialmente, evidente que a Bíblia fala, né, dessa possibilidade de bênçãos materiais e financeiras.
Eh, eu acredito que o exagero se dá quando a gente começa usar promessas de provisão, promessas de intervenção e mascarar vareza outros assuntos que a Bíblia é contrária e colocar isso num peso maior e julgar quem tá num momento diferente. Mas enfim, a partir disso, nós temos um novo avanço que de novo atingiria mais uma vez, como Azusa, como os outros movimentos, aqueles que talvez estavam sendo excluídos e precisavam de uma mensagem de de esperança. Na perspectiva bíblica, a Bíblia diz: "Amado, terceira epístola de João, verso capítulo único, verso 2, desejo que você seja próspero e tenha saúde como é próspera a sua alma.
" A Bíblia não é contra prosperidade material e financeira. Ela só estabelece uma base tanto quanto a sua alma é próspera. Se não há prosperidade de alma, se não há valores corretos que vão evitar, né, que ganância avareza, que são apresentados como inimigos, o dinheiro, o amor ao dinheiro, não, o dinheiro é chamado de a raiz de todos os males.
Então, nós temos equilíbrio. Então, quando só se ataca com a mensagem de prosperidade, nós estamos saltando com a Bíblia. Quando só se defende ela, sem advertência, nós estamos saltando.
Mas eu acredito que esse movimento é o o que marca principalmente a definição da primeira onda do pentecostalismo, a experiência com o Espírito Santo, a pessoa e o poder dele. O segundo, curas e milagres, né? Nós temos igrejas que historicamente foram construídas em cima dessa mensagem.
E em terceiro e último lugar, principalmente esse aspecto financeiro, o que se por um lado foi bom para não nos deixar só espiritualos no evangelho, por outro lado, nós tivemos de fato uma uma consequência cara que pagamos até hoje, que é reduzir o evangelho a algo material, temporário, sem ignorar os danos que essa percepção errada pode ter, né? Então aqui não tô atacando um grupo ou um movimento, né? mas que de fato nós chegamos ao longo do caminho distorões que estão cobrando a conta de fato tem acontecido a parte boa, né?
Há um movimento divino inquestionável de restaurar o equilíbrio dessas coisas, de que a gente possa ter um crescimento e um avanço de percepção de que a vida não precisa ser economicamente ruim para que se seja um bom cristão e não necessariamente também colocar isso num patamar de importância acima do que ele deveria ter. Por fim, a base desse grande mosaico religioso é formada por milhares de comunidades locais independentes. Elas surgem de forma orgânica em bairros e periferias, fundadas por líderes autônomos sem vínculos obrigatórios com convenções ou denominações históricas.
Essa característica de descentralização é apontada como grande diferencial do movimento evangélico e o principal responsável pelo seu grande crescimento. Eu acho meio difícil a gente falar do modo evangélico de viver a vida, justamente porque você tem tipos batistas mais tradicionais, você tem presbiterianos, eh você tem os os neopentecostais, assembleanos, congregacionistas, você tem os os episcopais, os metodistas, os Então, ou seja, e o modo de se viver protestante evangélico hoje no Brasil é um meio que eu acredito que é um modo de viver de comunidade, porque é difícil você dizer que eles têm tudo em comum. né?
Ou seja, eles têm muitas discordâncias. É por isso que existem tantas denominações, mas uma coisa certamente eh ela é absoluta, né, no meio evangélico, que é a força da comunidade local. Isso talvez seja a grande cola desse movimento, hum, em que eles se sentem unos, né, por conta disso.
E aí cada, claro, tem coisas que eles têm em comum, como a Bíblia, ainda que tem diversas interpretações, tem mais ou menos uma confissão de fé parecida, ainda que com diferentes entendimentos. Ah, afinal, nós somos o quê? luterano, batista, presbiterianos, eh metodistas, eh Assembleia de Deus, mas nós somos ao todo, no no fim do dia, nós somos todos o quê?
Unidos pela mesma essência que vem por lentes diferentes, mas nós somos todos evangélicos e nós somos todos protestantes, todos herdeiros dessa dessa ah dessa herança na herdeiros dessa da reforma, né? herdeiros desse movimento que começa no século X e vai tendo várias ondas diferentes. A conversa sobre a pluralidade de evangélicos não termina aqui.
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