Existe um ingrediente que está na cozinha de praticamente toda a casa brasileira. Custa menos de 50 centavos por unidade, dura meses guardado em local seco, e tem propriedades pesticidas, fungicidas e bactericidas documentadas por décadas de pesquisa científica. Esse ingrediente é o alho, e a maioria das pessoas que o usa para temperar a comida nunca imaginou que ele poderia proteger o canteiro com a mesma eficiência que produtos vendidos por 30, 50 ou 100 reais na loja.
Mas antes de mostrar como preparar e aplicar o extrato de alho corretamente, é necessário entender por que ele funciona. Por que quem entende o mecanismo usa o produto da forma certa. Quem não entende, obtém resultado medíocre e desiste.
O alho pertence à família das aliáceas, o mesmo grupo da cebola, do alho poró e da cebolinha. Todas essas plantas compartilham uma característica química que as diferencia de praticamente qualquer outro vegetal comestível. Elas produzem compostos organossufurados, que são moléculas orgânicas com átomos de enxofre na estrutura.
O enxofre é um elemento biologicamente ativo que interfere com os sistemas metabólicos de microorganismos e insetos, de formas que o carbono e o hidrogênio não conseguem. No alho especificamente, o composto mais importante é a aliína. A aliína fica armazenada nos vacúolos das células do alho, quando o dente está intacto.
Num dente de alho inteiro e não cortado, a aliína não tem atividade pesticida. Ela é um precursor inativo. O que ativa a aliína é o corte ou amassamento do alho.
Quando as células do alho são rompidas, uma enzima chamada alinase, que estava separada da aliína, entra em contato com ela. A reação entre a aliína e a alinase acontece em segundos. O produto dessa reação é a alicina.
A alicina é o composto responsável pelo cheiro característico do alho cortado. E é também o composto responsável por praticamente todos os efeitos pesticidas e fungicidas do extrato de alho. Para entender como a alicina age sobre as pragas, é necessário entender como ela interfere com os sistemas biológicos dos insetos.
A alicina é uma molécula lipofílica, o que significa que ela atravessa membranas celulares com facilidade. Membranas celulares são compostas principalmente de gordura. Moléculas lipofílicas, como a alicina, passam através dela sem resistência.
Uma vez dentro da célula, a alicina inibe enzimas específicas, chamadas cisteína proteases. Essas enzimas são fundamentais para o metabolismo de insetos e fungos. Sem essas enzimas funcionando, os processos metabólicos básicos dos insetos ficam comprometidos.
Respiração celular, digestão, reprodução. Todos dependem das enzimas que a alicina inibe. Para insetos pequenos de corpo mole, como pulgões, ácaros e mosca branca, o contato direto com o extrato de alho concentrado é suficiente para causar morte em horas.
Para insetos maiores e mais resistentes, o extrato funciona principalmente como repelente. O cheiro da alicina é detectado pelos receptores olfativos dos insetos a distâncias significativas. Insetos que dependem do olfato para localizar plantas hospedeiras, como a mosca branca e vários tipos de trips, evitam plantas que cheiram alho.
Esse efeito repelente persiste por dois a três dias após a aplicação, conforme a alicina se degrada pelo sol e pela umidade. É por isso que a frequência de aplicação precisa ser consistente para manter o efeito protetor. Além do efeito sobre insetos, a alicina tem propriedades fungicidas bem documentadas.
Fungos como o oídio, a septoriose e a antracnose são sensíveis à alicina porque dependem das mesmas enzimas cisteína protease para crescer e se reproduzir. Estudos publicados em revistas de fitopatologia demonstraram que extratos de alho inibem a germinação de esporos fúngicos e o crescimento do micélio de diversas espécies de fungos patogênicos. A eficiência varia entre 60% e 80% de inibição, dependendo da concentração do extrato e da espécie de fungo.
Essa eficiência é comparável à de fungicidas sintéticos de uso doméstico em aplicações preventivas. Não substitui fungicidas em casos de infecção severa estabelecida, mas previne e controla infecções iniciais com eficiência real. Antes de continuar, uma informação rápida para quem quer ir além do que esse vídeo ensina.
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Agora, quais pragas e doenças respondem melhor ao tratamento com extrato de alho? Os pulgões são a praga que melhor responde ao tratamento. Eles são insetos de corpo mole, sem cutícula resistente, que vivem em colônias densas nas pontas dos brotos e na parte de baixo das folhas.
O extrato de alho age sobre os pulgões por dois mecanismos simultâneos. O contato direto com a alicina compromete o metabolismo celular. E o cheiro persistente nas folhas tratadas desmobiliza as fêmeas que buscam locais para depositar ovos.
Em colônias estabelecidas, três aplicações em dias alternados reduzem a população de pulgões em mais de 90%, sem nenhum produto sintético. Os ácaros, especialmente o ácaro rajado, também respondem bem ao extrato de alho. O ácaro rajado é tão pequeno que não é visível a olho nu.
Seus sintomas são pontilhado prateado nas folhas e teias finas entre folhas e caules em infestações severas. O extrato de alho penetra nas teias e atinge os ácaros diretamente. A concentração necessária para controle de ácaros é maior do que para pulgões.
O extrato precisa ser preparado mais concentrado para esse uso específico. A mosca branca responde principalmente ao efeito repelente. O extrato aplicado preventivamente, antes da infestação se estabelecer, é muito mais eficiente do que o extrato aplicado depois que a população já está grande.
Para a mosca branca, a chave é a aplicação semanal preventiva em plantas suscetíveis como tomate, pimentão e berinjela, durante todo o período de cultivo. Para os fungos, o extrato de alho funciona melhor como preventivo do que como curativo. Aplicado semanalmente em períodos chuvosos ou em locais com pouca ventilação onde o risco de fungo é alto, ele reduz significativamente a incidência de oídio e septoriose.
Em plantas com fungo já estabelecido e visível, o extrato pode ajudar a conter a progressão, mas não elimina completamente uma infecção avançada. Para infecções avançadas, a cauda bordalesa apresentada em outros vídeos do canal tem maior eficiência curativa. Agora, o preparo do extrato de alho para uso no canteiro.
Existem três métodos de preparação com eficiências diferentes. O método básico é a maceração em água fria. Amassa ou tritura cinco dentes de alho médios até obter uma pasta.
Coloque essa pasta em um litro de água filtrada ou de chuva. Deixe em infusão por 24 horas em recipiente fechado, fora da luz direta. Filtre com pano fino ou peneira de malha fina para remover os sólidos.
O líquido resultante é o extrato básico. Esse método preserva bem a alicina porque não usa calor. A alicina é sensível ao calor acima de 40 graus e se degrada rapidamente em temperaturas elevadas.
Use o extrato básico sem diluição adicional para casos de infestação severa. Para aplicação preventiva, dilui uma parte de extrato em duas partes de água. O segundo método é a maceração em água com sabão.
Segue o mesmo processo do método básico, mas adiciona cinco gramas de sabão de coco neutro ao litro de extrato após a filtragem. O sabão tem duas funções nessa combinação. Ele aumenta a aderência do extrato às superfícies serosas das folhas, que naturalmente repelem líquidos aquosos.
E ele adiciona o efeito físico do sabão sobre insetos de corpo mole, que é a interferência na tensão superficial da cutícula. A combinação de alicina e sabão é mais eficiente do que cada um separado para controle de pulgões e mosca branca. O terceiro método é a infusão com vinagre de álcool.
Amassa 10 dentes de alho e cobre com 200 ml de vinagre de álcool comum. Deixe em infusão por 48 horas em recipiente fechado. Filtre e guarde em garrafa escura.
Esse extrato concentrado dura até 3 meses guardado em local fresco e escuro. Para usar, dilui 2 colheres de sopa e 1 litro de água. A vantagem desse método é a durabilidade do produto pronto.
Uma preparação a cada 3 meses é suficiente para manter o estoque sempre disponível. A desvantagem é que o vinagre pode alterar levemente o pH do extrato. Em plantas sensíveis à acidez, o extrato em vinagre pode causar pequenas queimaduras nas folhas, se aplicado em concentração alta ou em dias de sol intenso.
Sempre testem algumas folhas antes de aplicar em toda planta quando usar o método de vinagre. Agora a aplicação correta. O método de aplicação determina em grande parte a eficiência do tratamento.
A aplicação deve ser feita com borrifador de pressão que produz a névoa fina. Gotas grandes não penetram nas colônias de pulgões nem alcançam os ácaros nas faces inferiores das folhas. A névoa fina cobre uma área maior, com menor volume de extrato, e penetra nos espaços entre folhas e brotos, onde as pragas se concentram.
Cobre completamente as plantas tratadas, dando atenção especial à face inferior das folhas. A maioria das pragas vive preferencialmente na face inferior, onde tem proteção do sol e do vento. Pulgões nas pontas dos brotos precisam ser atingidos diretamente.
Não é suficiente borrifar de cima. Inclina o borrifador para alcançar a parte de baixo dos brotos. O horário ideal de aplicação é sempre o final da tarde, entre 16 e 18 horas.
Nesse horário, o sol já não está no pico e o extrato tem tempo para agir overnight, antes de ser degradado pela radiação do dia seguinte. A aplicação em pleno sol acelera a degradação da lisina e pode causar queimadura nas folhas em dias quentes. A aplicação ao anoitecer não é recomendada, porque o extrato permanece úmido nas folhas durante a noite, favorecendo condições para fungos.
O intervalo correto entre aplicações depende do objetivo. Para controle de infestação ativa de pulgões ou ácaros, aplique em dias alternados por duas semanas. Esse intervalo é necessário porque os ovos das pragas são mais resistentes ao extrato do que os adultos.
As aplicações nos dias alternados eliminam os adultos que eclodiram no intervalo entre aplicações. Ao final de duas semanas, a população está controlada e a pressão de novas posturas foi interrompida. Para prevenção e manutenção, uma aplicação por semana é suficiente.
Mantenha a concentração de alicina nas folhas acima do limiar que repele as pragas. Para controle de fungos preventivo, uma aplicação por semana em períodos chuvosos. Duas aplicações por semana nos primeiros sinais de infecção.
Agora os erros mais comuns que reduzem a eficiência do extrato de alho. O primeiro erro é usar alho envelhecido com brotos. Alho que começou a brotar já metabolizou parte da aliína para sustentar o crescimento do broto.
Menos aliína significa menos alicina quando o alho é amassado. Usa sempre alho fresco e firme, sem brotos, para máxima concentração de aliína. O segundo erro é usar calor no preparo.
Alguns métodos sugerem ferver o alho para extrair os compostos mais rapidamente. O calor acima de 40 graus destrói a alinase, a enzima responsável pela conversão da aliína em alicina. Sem alinase ativa, a alicina não é produzida.
Extrato de alho fervido tem cheiro de alho cozido, mas não tem atividade pesticida. Sempre usa água fria ou temperatura ambiente no preparo. O terceiro erro é não filtrar corretamente antes de aplicar.
Pedaços sólidos de alho no extrato entopem o bico do borrifador e interrompem a névoa fina. Quando o borrifador para de produzir névoa e começa a gotejar, a cobertura das plantas fica irregular e a eficiência cai. Usa pano de algodão dobrado em duas camadas para filtrar completamente os sólidos.
O quarto erro é aplicar e não repetir. Uma única aplicação, mesmo que bem feita, não é suficiente para controlar uma infestação estabelecida. As pragas que estavam protegidas durante a aplicação, escondidas dentro de botões florais ou no solo, voltam a colonizar as plantas nos dias seguintes.
A repetição em dias alternados é obrigatória para quebrar o ciclo reprodutivo. O quinto erro é tratar apenas as plantas afetadas e ignorar as vizinhas. As pragas migram entre plantas.
Ao tratar apenas as plantas com sintomas visíveis, a infestação vem das plantas vizinhas que ainda têm a praga, mas sem sintomas evidentes. Trata sempre todas as plantas do canteiro ou varanda simultaneamente, mesmo as que parecem saudáveis. Existe uma combinação que potencializa ainda mais o efeito do extrato de alho.
A adição de pimenta malagueta ao extrato. Os capsaicinoides da pimenta, especialmente a capsaicina, têm efeito repelente e irritante sobre insetos que é complementar ao da alicina. Os dois compostos atuam por mecanismos diferentes, o que amplifica o efeito total.
Para preparar o extrato combinado, amassa cinco dentes de alho com duas pimentas malaguetas picadas. Infunde em um litro de água por 24 horas. Filtra e aplica com borrifador.
O extrato combinado de alho e pimenta é o método mais eficiente de controle doméstico de pulgões, ácaros e mosca branca, disponível sem nenhum produto comprado. E o custo de produzir um litro de extrato combinado é menor do que um real. Comparado com inseticidas domésticos comerciais, que custam entre 15 e 50 reais por frasco, a diferença é de 15 a 50 vezes, pelo mesmo resultado ou superior em pragas de corpo mole.
O extrato de alho não resolve todas as situações. Para lagartas, por exemplo, o efeito é mínimo, porque as lagartas têm sistema digestivo e metabólico diferente dos insetos de corpo mole. Para lagartas, o bacillus thuringiensis, que é uma bactéria naturalmente presente no solo, é o método orgânico mais eficiente.
E esse será o tema de um vídeo futuro do canal. Para besouros e percevejos maiores, o extrato funciona principalmente como repelente e como preventivo. Para controle de populações estabelecidas de insetos maiores, o manejo ecológico com plantas companheiras apresenta melhores resultados.
Resumindo o que foi mostrado hoje em quatro pontos. Primeiro, a alicina produzida pelo alho quando cortado ou amassado inibe enzimas essenciais de insetos e fungos, causando morte por contato em insetos de corpo mole e inibindo o crescimento de fungos patogênicos. Segundo, o extrato é preparado pela maceração de cinco dentes de alho em um litro de água fria por 24 horas, filtrado e aplicado com borrifador de névoa fina na face inferior das folhas.
Terceiro, para controle de infestação ativa, aplique em dias alternados por duas semanas. Para prevenção, uma aplicação por semana é suficiente. Quarto, a combinação de extrato de alho com pimenta malagueta amplifica o efeito e é o método doméstico mais eficiente para pulgões, ácaros e mosca branca sem nenhum produto comprado.
No próximo vídeo será mostrado como criar um sistema de compostagem acelerada, que produz composto de alta qualidade em sete dias. Se inscreve e ativa o sino para não perder. Qualquer dúvida sobre o que foi mostrado aqui, deixa nos comentários abaixo.
Tudo é lido e respondido pessoalmente. Até a próxima!