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Autocuidado ou seita performática?

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02,455 Parole12m readGrade 9
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Grande Surto
Oi, eu sou a Fepto, um podcast sobre tentar entender a vida sem fingir que entendeu tudo. E eu queria começar esse episódio deixando uma coisa clara. Eu gosto de autocuidado, tá?
Eu amo dermato, amo, amo massagem, amo me sentir bonita, tô amando voltar a me exercitar, tá? Quer dizer, amando não, isso é uma palavra muito forte. Eu tô amando a sensação do depois, tá?
Porque o antes, eu odeio, odeio, odeio tudo, gente. Odeio a hora de ir me trocar. Se bem que eu ganhei uns lookquinhos bons da Nike agora, vai me animar.
É, mas odeio sair de casa, chegar. Mas depois eu penso, caramba, realmente faz sentido movimentar o corpo, sabia? Olha a ciência acontecendo, que legal.
Então esse episódio não é contra autocuidado, tá? Deixa claro isso já aqui antes de começar tudo. É contra o momento que o autocuidado tá vivendo, que virou quase que uma aceita da performance emocional.
Porque assim, gente, ó, verdade verdadeira, tá? Hoje em dia parece que existir já vem com uma rotina obrigatória de, sei lá, uns 14 passos. Eu acho muito louco como a internet conseguiu transformar uma coisa boa em mais uma obrigação impossível da gente dar conta na vida adulta, porque é praticamente impossível.
E não é internet, né? É tudo, né? A rede social, essa essa bolha toda.
Porque hoje não não basta viver, não basta. Você tem que hidratar, meditar, suplementar, respirar consciente, fazer grounding, que, né, descobrir que é você botar o pezinho na grama, tomar sol de manhã, regular o cortisol, baixar a inflamação, dormir cedo, tomar magnésio, alongar o quadril e assim, aparentemente viver em estado de iluminação hidratada. Porque olha, e o pior é que até quem acha que não caiu nisso, caiu.
Eu, por exemplo, eu falo mal, falo. É o meu jeitinho, gente. Me deixa aqui falar mal.
Mas quando eu vejo, eu tô pesquisando qual é o melhor horário para tomar água com limão, que vai fazer mais diferença para mim. Ah, 2as da manhã. Hum.
Será que eu boto um despertador? Não, não vou botar o despertador duas man. Ou eu tô lá vendo a mulherzinha no TikTok dizendo que, sei lá, olha o de alec mudou a vida dela e eu pensando, será que muda?
Não muda. Então o algoritmo ele quer que eu vire uma mistura de, sei lá, atleta, monge, dermato e bioquímica também. E isso é um surto.
E tem um outro lado disso também que eu acho muito doido, que é o surto coletivo da magreza, que agora não basta tá saudável, né? Você tem que est saudável, otimizada, tem que tá magra. Não só agora, né?
É que voltou, né? Essa onda louca da magreza, porque assim, eu lembro que quando começou a aparecer aqueles antes e depois e tal, né? sempre foram bem impressionantes assim, né?
Uma pessoa perdeu 8 kg, perdeu 15, perdeu 20, realmente faz a diferença, muda a vida de alguém, né? Eu tenho amigos, por exemplo, que usaram a canetinha emagrecedora, né? Com esses fins de saúde, porque realmente os exames estavam péssimos, tinha obesidade envolvida e tudo mais.
E essas pessoas mudaram a vida delas. Então, não tô aqui falando que eu sou super contra nem nada, mas também tem aquelas amigas que elas não precisam tomar, mas elas não resistem. Porque assim, não é só sobre emagrecer, é sobre pertencer, né?
E aí tá essa onda dessa magreza absurda. Aí você começa a sentir que você tá ficando para trás de uma tendência estética, de um padrão, né, que as pessoas chamam. como se todo mundo tivesse recebido uma atualização e você não, você não, não tá assim, tipo celular mesmo.
E ó, vou ser honesta aqui. Eu tentei, tá, depois da gravidez, da amamentação, da pilar, eu tentei tomar um monjauro. Claro, porque claro que eu tentei.
Ué, eu sou mulher, eu tenho internet, eu existo em sociedade, mas eu passei, gente, tão mal, mas tão mal, mal, mal, mal hospital, que o meu corpo, assim, ele claramente respondeu: "Olha, Fernanda, tudo bom? Eu entendi sua intenção, mas eu não vou colaborar". E ele não colaborou mesmo comigo.
Aí eu fui pro jejum. E o mais honesto que eu posso dizer, eu não sei, gente, eu não sei mesmo, porque se eu não tivesse passado mal, eu não sei se eu teria continuado. Eu não sei se quando eu engordasse um pouquinho, eu ia tomar para sei lá, porque é assim que a influência funciona.
Ela não pega só quem acredita em tudo, ela pega quem vive no mesmo mundo. Ela pega também quem acha que tá atento, quem vê as mesmas imagens, sabe? Quem recebe essas mesmas mensagens.
A gente tá tá pegando todo mundo. Quem escuta todos os dias que existe uma versão melhor de você, uma versão mais magra, mais eficiente, mais gata, mais desejável para esperando ali para ser desbloqueada. E assim, sinceramente, tem horas que eu ai, eu não quero desbloquear mais nada, gente.
Sério, só queria um pão na chapa. Será que tem um pão na chapa aí para mim? Tô com vontade agora.
Só quero um pão na chapa sem culpa. Eita. E eu não como com culpa não.
E tem outra coisa muito específica que anda acontecendo com esse lance de imagem que me assusta um pouco, que é a criança fazendo skinc. Gente, perigoso, né? A, é perigoso.
Assim, na minha infância, autocuidado era tomar banho e passar aquele lips de morango, sabe? Que era tipo moranguinho que vinha na Capricho. Eu brincava de Barbie, sacou?
Depois eu cresci tomando uma bebida azul radioativa, dormindo maquiada, acordando igual um urso panda e vivendo sem ritual nenhum. Protetor solar. Sim, o começo era meio sacrificante passar, mas como eu comecei a trabalhar cedo também, eu entendi que era que era importante.
Eu sempre fiz questão, mas era isso. Hoje, sei lá, tem uma menina de 11 anos usando ácido na cara e falando de barre barreira cutânea. Com 11 anos, gente, com 11 anos eu tava preocupada se o quem ia voltar pra Barbie depois que meu primo apresentou comandos em ação para ela.
Eles separaram, foi uma separação traumática causada por ele. Aí a Barbie ficou na dúvida de quem ela queria, se era o quem, se era o comandos em ação. E ela preferiu o camuflado.
Dureza, não é fácil a vida. Era essa minha proporção. E eu nem tô julgando que assim, gente, eu tô julgando, mas não tô também, tá?
Que honestamente isso vem da nossa geração, esse lance das crianças, tá? que tão surtando com envelhecimento, com produtividade, perfeição, o tempo inteiro. Então, a pessoa já quer prevenir do prevenir.
A gente criou um mundo onde tudo virou otimização, tudo, tudo, tudo. Sono, pele, corpo, intestino, hormônio, humor, eh, sei lá, não. Hoje descansar parece trabalho, sério.
E talvez assim, gente, o que mais me intrigue nisso tudo, cara, é que autocuidado deixou de ser hábito, virou identidade. As pessoas não fazem mais as coisas, elas se tornam as coisas, sabe? A pessoa não toma magnésio, ela vira representante comercial do magnésio.
Ela não faz corrida, imagina o grupo de corrida. Então, esquece, ela funda uma religião baseada na corrida. Eu amo.
Não faz jejum. Ela quer converter você pro jejum. Eu mesma depois que eu fiz jejum, quase firei isso.
E eu falo com carinho, tá gente? Eu falo com carinho, sério, porque eu já fui essa pessoa também, não assuntos, né? Tá em algum assunto.
Ai, gente, a diferença entre a paixão e a evangelização é muito pequena. E as redes elas potencializaram muito isso, porque agora toda experiência precisa virar conteúdo. Toda descoberta tem que virar um método de alguma coisa, toda melhora vira um curso.
Já perceberam isso? A rotina é um testemunho. Olha aqui, ó, minha rotina, um testemunho.
Então, talvez por isso que tá todo mundo meio cansado, né? Vocês não estão cansados? Porque não basta viver, você tem que documentar tudo que você viveu.
Não basta você se cuidar, você tem que mostrar que você tá se cuidando, que você tá performando. Não basta, não dá. Não é só melhorar.
Você tem que postar que melhorou. Não pode esquecer porque até relaxar virou performance. Você não pode só descansar.
Simples assim. Ah, descansei. Você tem que fazer um descanso restaurativo.
Ah, até eu tô rindo, gente. Não, mas é sério, é difícil. E eu acho que o maior plot twist da nossa vida adulta seja descobrir que até o bem-estar consegue deixar a gente ansioso.
Que surto. E ao mesmo tempo, eu realmente acho não, eu tenho certeza que cuidar da gente importa. Claro que importa.
principalmente depois de um tempo, né, vivendo no automático, como eu falei lá no primeiro episódio, né, sobre essa sensação toda de ter realmente me deixado um pouco para depois, me deixado de lado, quanto foi importante para mim voltar, fazer exercício físico, voltar pra musculação, enfim, esportes ao ar livre. Eu sou super a favor de tudo isso. Eu sei o quanto isso é importante, o quanto porque eu tô vivendo isso.
Isso tem sido muito importante para mim. E não é só pela estética também, né? Mas é porque eu tava começando a pegar pilar no colo e eu tava fazendo barulho.
Pareceu um móvel antigo. Então assim, tem uma diferença muito grande entre cuidar de si e vigiar a si mesmo o tempo todo, sabe? E aí, gente, a gente chega numa outra obsessão, um envelhecimento, ou melhor, o medo dele, né?
que eu acho que assim, existe aí obviamente uma diferença enorme entre querer envelhecer bem e não querer envelhecer de jeito nenhum. E eu falo isso sem hipocrisia, tá? Eu adoro um laser, adoro, eu sou a louca do laser, adoro laser, minha dermato, sabe, eu faço botox, aí eu eu não vou ficar aqui fingindo que eu acordo todas as manhãs e eu falo: "Hoje, nossa, hoje eu quero acolher, sabe, cada linha do meu tempo".
minhas rugas, as linhas do meu rosto, minhas marcas. Não, não é isso, tá? Eu gosto de me cuidar, mas às vezes eu olho em volta e eu penso assim: "Meu, gente, em que momento a gente resolveu declarar guerra contra o tempo?
" Porque uma coisa é você suavizar, né? A passagem dele. Dá uma suavizadinha, né?
De leve assim. E outra coisa é você agir como se envelhecer, falou assim um fracasso moral. como se a pior coisa do mundo que pudesse acontecer na vida de uma mulher fosse parecer alguém que viveu.
Então, uma coisa curiosa também acontecendo, tá? Tá todo mundo ficando parecido aí. Repara, já repararam?
É a mesma boca, mesma pele, o olho, mesmo olho, a expressão parecida, meio congelada, né? Surpresa, congela, não mexe nada. Contemplação, tudo, tudo a mesma coisa.
Então, daqui a pouco os reencontros da escola vão parecer o quê? Atualização, né, do celular, da atualização de software. Essa versão é a minha versão 4.
3. Mandíbula nova, maçã nova, boca nova. Download concluído com sucesso.
Bora beber água aqui rapidinho. E olha, gente, eu gosto de procedimento, tá? Mas eu também gosto da ideia de continuar aparecendo eu mesma.
Sério, a minha cara ela conta história. As minhas ruguinhas aqui elas contam história. A minha expressão conta história.
Eu sou bem expressiva, inclusive vocês já devem ter reparado. E tem uma coisa bonita em parecer alguém que viveu, porque a outra alternativa seria qual? A gente não quer, né, virar um avatar hidratado de 34 anos para sempre.
Ah, gente, eu, hein, acho que o problema começa quando o autocuidado ele deixa de ser carinho, sabe? Ele vira controle, quando cada comportamento precisa ser corrigido, sabe? Monitorado, otimizado, porque aí a fica muito cansativo, ó, já tô exausta só de pensar.
E eu sinto que, sei lá, eu acho que acho que hoje existe uma culpa coletiva simplesmente por existir normal, sabe? Se você dorme mal, a culpa é sua. Ah, não.
Culpa sua tá cansada. Se você tá muito cansada, regula o cortisol aí. Se você tá triste, vai meditar.
Se você tá ansiosa, olha, banho gelado. Banho gelado. Vai pro banho de manhã que vai, ó.
Então, daqui a pouco, sei lá, vou mandar a gente subir uma montanha descalça lá, o pico do Jaraguá, que é aqui, né, em São Paulo, segurando um cristal. Tenho pedras aqui, não, tirei minhas pedras respirando pelo umbigo, sei lá. E sim, talvez algumas coisas ajudem mesmo, tá gente?
Não, não, talvez não. Claro que algumas coisas ajudem, mas a gente às vezes a gente só tá cansado porque a vida tá pesada, tá, sabe? Tá sem ritual, tá pesada.
Simples assim. E talvez, eu amo que eu falo um monte de talvez, né? Porque eu fico elocubrando um monte de coisa.
Então tudo é talvez. Talvez eh eu volto para essa mesma pergunta. É por isso que eu volto.
Quando foi que cuidar da gente virou mais uma obrigação? Porque no fundo eu não quero ser uma versão otimizada de mim. Sério, eu quero ser uma versão presente, eu quero ter saúde, eu quero ter energia para brincar com a minha filha, eu eu quero conseguir levantar do sofá sem negociar com a lombar aqui, ó.
L, ó, vou levantar agora, hein? Sabe, eu quero me sentir bonita. Tô bonita hoje, inclusive, eu quero me sentir viva, sabe?
Quero envelhecer, sim, sim. envelhecer, porque a alternativa a outra, né, não é exatamente a melhor. Então, eu quero ri minhas amigas, quero ver futebol, quero, sabe, viajar, quero ai sei lá, quero comer sobremesa, sem transformar essa sobremesa numa crise existencial, porque comeu açúcar, porque ai gente, olha, eu quero viver, tá?
E o autocuidado, na verdade, tinha que ser isso, não transformar a própria vida num projeto de correção de tudo, mas criar essas condições para você conseguir aproveitar a sua vida o máximo que você pode. Eu continuo gostando de alermato, tá? Para mim, a minha é dermato.
Beijo, Kakarits, te amo, viu? Continuo muito gostando de massagem, drenagem. Então, Jô Vieira, minha minha massagista de creminhos, adoro creminhos pilates.
Eu continuo tentando beber água, inclusive, ó, tá aqui, ó. Dei um gole. E provavelmente amanhã eu vou cair em mais um vídeo de uma mulher loura, sei lá onde.
Na Suíça ou uma coreana ou alguém que descobriu, sei lá, o segredo definitivo da juventude usando eh gotas minerais e uma respiração ancestral. E honestamente, talvez eu clique, por aparentemente o surto continua, tá? Ele só mudou de embalagem.
Ai gente, beijo, até o próximo surto e se cuidem, mas aquela, né? Se cuidem com responsabilidade.
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