Olá boa noite o palavra cruzada de hoje quer fazer uma reflexão sobre a crise ética contemporânea uma sociedade em constante transformação na correria da vida todos nós parecemos desorientados novas famílias um novo e desafiante mercado de trabalho e a vida sentimental somos mais resistentes aos compromissos como lidar com os desafios impostos pelo tempo questões que nos fazem pensar e para conduzir essa análise nos convidamos um filósofo e psicanalista o professor Carlos dravin muito bem muito obrigado pela presença do Senhor Uma boa noite para a gente tentar conceituar esse programa para começar a discussão eu vou
refazer minha abertura dizendo o seguinte vivemos uma crise bem boa noite eu agradeço estar aqui com vocês a oportunidade de discutir esse tema eu acho que nós vivemos uma crise mas a gente tem que localizar a palavra crise porque a palavra crise não significa necessariamente alguma coisa ruim não é não significa um desastre eminente a palavra crise que vem do grego não é significa julgar quer dizer é um momento de discernimento momento de julgamento de uma situação então a crise que nós vivemos é uma crise que provém da desorientação das pessoas mas uma desorientação que
significa que os modelos as convicções tradicionais que vinham com a cultura elas passam a ser questionadas e passam a ser julgadas é um exemplo é muito simples não é vamos pensar numa família que tem uma determinada religião pode ser uma religião católica qualquer outra religião Então essa religião ela vem de pai para filho ela vem quase que digamos assim no sangue daquela linhagem familiar então a pessoa recebe aquela convicção religiosa isso dá uma orientação porque dá um arsenal de respostas diante dos desafios da vida agora uma geração que começa a interrogar perguntar bem mas por
que essa crença por que que eu deu ser católico como meu pai foi o meu avô meu bisavô nesse momento se introduz uma crise ou seja se introduz um momento de discernimento né de julgamento que pode ser muito bom mas pode ser também muito difícil porque a pessoa perde o lastro ou seja perde o o chão o solo no qual está vivendo sentindo assim na sua casa às vezes sem chão Isso é só o início da nossa discussão porque o programa está no ar e nós não fazemos esse programa sozinhos para nos ajudar no debate
nós convidamos a jornalista Renata Gonçalves assessora de imprensa está conosco também aqui da casa Cláudio Henrique Vieira produtor do programa trilhas do Sabor e aqui conosco também luí di fone que é escritor colunista da revista Veja BH Muito obrigado a vocês obrigado a cada veículo por liberarem a presença de vocês boa discussão né gente pra gente começar aqui conceituando gostei do conceito de crise é bom conceituar né a gente falou de tantas palavras a nosso programa A gente tava discutindo a questão de ética a sensação acho que é todo mundo Compartilha essa sensação parece que
a sociedade tá um pouco desnorteada né assim meio sem sem rumo isso a academia já se debruça sobre essa percepção é a academia se debruça não é eh como a academia hoje ela é muito fragmentada também porque nós vivemos sobre o regime da especialização Então nós não temos mais não é uma universidade na verdade que seja una né a palavra Universidade Parece que tem uma unidade nós vivemos numa plu ou seja nós temos vários setores várias áreas vários departamentos em cada departamento nós temos especializações e micro especializações então sociólogos psicólogos psicanalistas politólogos todos de certa
forma estão discutindo e pensando aspectos e segmentos aspectos específicos da crise agora é é importante que tenhamos uma visão de Horizonte uma visão mais ampla para isso eh nós temos que eh abrir mão dos nossos saberes especializados da nossa linguagem especializado e se arriscar né porque muito da especialização não é proveniente apenas da dificuldade dos temas que exigem então aprofundamento num aspecto específico mas há um elemento defensivo também na especialização quando eu tô no meu campo então eu me sinto bem então eu me fecho para a interrogação que vem dos outros para o debate que
vem dos outros para outro tipo de saber outro tipo de linguagem outras hipóteses cada um Analisa uma parte cada um Analisa uma parte mas como a crise é uma crise Global então a hiperespecialização não responde essa crise tem um sociólogo francês cham ele é um estudioso da ciência chamado Bruno latur n que ele mostra exatamente a necessidade de abordar esses objetos né que são objetos muito complexos vamos pegar por exemplo a crise ecológica chamada crise ecológica ambiental ela exige o concurso participação dos químicos dos meteorologistas dos estatísticos dos biólogos mas também dos economistas dos sociólogos
é então um saber só é insuficiente então a crise ética por ser uma crise Global ela exige o concurso de vários olhares e mais importante ainda ela não pode se travar apenas na universidade ela tem que migrar para o espaço social porque a ética ela Diferentemente de outros temas ela num certo sentido ela nos engloba a a ética nos implica cada um de nós no cotidiano dia a dia como profissionais como cidadãos Então tem que ser um debate a nível social professora eu queria já fazer uma uma provocação Vamos colocar assim bem-vinda e você você
tá sendo colocado aqui que a gente tá passando por uma crise ética às vezes eu me pego assim será que isso é exatamente uma coisa nova tem é uma coisa que vem com a história da humanidade e ao mesmo tempo eu me lembro de heidger que ele fala sobre a experiência então é muito interessante que ele comenta que a experiência é algo que nos passa algo que nos toca algo que nos atravessa então se eu sou um sujeito da experiência naturalmente eh eu vou ter e um comportamento ético se é que eu posso dizer assim
me corrija por favor a partir das minhas experiências E desde que o mundo é mundo desde o início da humanidade eh cada um tem uma experiência cada um tem uma conduta baseada na sua experiência então a crise ética ela não vem com a história da humanidade elas ela tá mais acentuada agora Cláudio essa é uma pergunta muito interessante e é uma pergunta muito abrangente na verdade a gente pode dizer o seguinte a crise se nós pensarmos nessa definição de crise como um momento especial de discernimento e julgamento julgar avaliar fica pensar então nós podemos dizer
na medida em que essa nossa espécie n é espécie humana ela emerge da natureza e torna-se uma espécie de Cultura o homem deixa de ser apenas um ser de natureza e passa um ser Um Ser de Cultura ou seja o homem tem uma espécie de dupla cidadania ele é da natureza por um lado nós partilhamos com todos os animais né das necessidades das nossas carências biológicas o funcionamento do nosso corpo tudo isso nós partilhamos n é com os outros as outras espécies mas nós temos um diferencial que é a construção de uma cultura como nós
somos animais culturais dentro da cultura sempre existe crise Então acho que você tem razão eu acho que a crise sempre existiu porque a cultura ela não é um mecanismo de regulação e imediata de regulação programada digamos assim não é tem um pequeno livro de ética muito simples ética para o meu filho de um filósofo espanhol em que ele diz o seguinte não existe nenhum poema né cantando por exemplo a coragem das formigas que defendem o seu Formigueiro E no entanto nós temos um poema não é de Homero n é a Ilíada que canta a guerra
de Troia e fala do heroísmo de Aquiles por quê Porque não existe uma form aques a formiga programada para defender o Formigueiro e Aquiles podia como teve a tentação de fazê-lo né podia fugir da Guerra podia eh digamos assim recusar né a morrer em nome dos valores né do seu povo então nós cantamos Aquiles porque ele podendo não morrer na guerra ele optou pela coragem e pela morte heroica lembra um pouco soldado Resgate R né que teve esse dilema ético fico ou não fico para salvar o com o Car do que estavam ali ex exatamente
Então nesse sentido só um instantinho Lu nesse sentido a cultura ela é uma crise permanente agora Existem várias configurações diferentes dessa crise só para terminar né a crise contemporânea a gente marca a crise contemporânea por dois motivos o primeiro motivo é que finalmente bem ou mal e aí tem um grande risco nós temos uma sociedade de tal maneira complexa interligada que nós falamos de globalização que a crise hoje envolve o conjunto da humanidade e não apenas um povo não apenas um determinado segmento cultural então nós vivemos basta pensar né nos meos de destruição né massivos
que nós temos né eles são eh inauditos nunca na história humana a esp se teve possibilidade de se autodestruir como tem a partir por exemplo das armas nucleares e também na intervenção da natureza Esse é um primeiro eh uma primeiro eh vamos dizer Marca um critério que diferencia a crise sempre permanente da cultura da crise que nós chamamos de contemporânea o segundo é que nós estamos mergulhados hoje a geração que está debatendo é a geração que vive no contemporâneo então por exemplo n quem vai defender a inquisição né inquisição foi uma coisa horrorosa tem que
ser criticada nós temos que lembrar da Inquisição né mas a inquisição pelo menos no seu modelo tradicional já passou então nós podemos olhar de uma maneira distanciada falar da Inquisição mas nós não somos assim quando se trata da nossa crise atual por exemplo a violência urbana essa pega todos portanto isso aqui é o outro critério que diferencia a crise ética que nós chamamos de contemporânea de outras crise éticas que existiram certamente n então mais ou menos cludio tentando e equacionar assim a sua pergunta que foi muito bem-vinda e muito Ampla excelente provocação desculpa luí por
ter demorado não mas E durante sua fala eu tava aqui pensando já houve alguma cultura alguma civilização algum povo ético os gregos por exemplo que primeiro inventaram a ética eles tinham escravos aqui no mundo atual por exemplo por exemplo dito mundo desenvolvido dois eh alguns anos atrás 11 anos atrás a maior potência do planeta Invadiu um um um país porque julgava que aquele país tivesse armas de destruição em massa e aniquilou aquele país justamente com armas de Aniquilação em massa eu quero saber o seguinte eu não tô vendo eh eu eu não vejo qualquer país
no mundo qualquer cultura que até hoje tenha sido ética não seria talvez a ética uma invenção da academia eu acho que não eu acho que não houve nenhum povo nenhuma cultura nenhum país que a gente possa dizer Esse sim foi ético Mas por outro lado não existe nenhuma cultura nenhum povo nenhum país que a gente possa dizer Esse não teve ética Em que sentido né Em que sentido a palavra ética palavra ética ela vem etos O que que significa etos etos tem dois significados não é eh os estudiosos né o pessoal que escreve esses livros
de ética Eles começam às vezes os seus manuais eh tentando mostrar a como se como traduzir a palavra etos então em grego a palavra etos ela começa com comportamento é comportamento ela começa com duas letras diferentes né quando nós escrevemos em português etos é e t h o s né mas esse e em português ele pode ser Eta ou éson Eta significa costumes não é e que éson significa os hábitos ou seja né traduzindo em Miúdos os costumes são sociais são coletivos nenhum povo vive sem os seus costumes n é por exemplo Vamos pensar um
povo que faz sacrifícios cruentos sacrifícios por exemplo de crianças para um Deus isso nos repugna profundamente nãoé imaginar uma criança né em cima de um altar suito enfia né uma faca e tira o coração né daquela criança aquele negócio é horrível né mas isso faz parte do etos daquele povo Aquilo não é simplesmente um ato de crueldade nós temos aqui um refinamento desse sacrifício todo dia em todo em Belo Horizonte tem 300 lugares que acontece todo dia na missa é pois é mas mas agora voltando né porque essa é uma provocação interessante na missa né
que você tá dizendo a ideia de sacrifício é uma ideia que atravessa quase Tod as culturas tem um um um antropólogo chamado René girard que escreveu vários livros sobre a questão do sacrifício Por que o sacrifício O que que significa aí o sacrifício Sacrifício significa e tá profundamente ligado ao etos sacrifica o sacrifício significa o seguinte quando nós vivemos em sociedade né Eh existem uma grande quantidade de rivalidades ramificadas no interior da sociedade Vamos pensar o seguinte uma coisa pode parecer muito boba né você chega numa cantina e tá com fome você passou a manã
inteira sem comer nada aí você compra um pão de queijo momento que você vai morder o pão de queijo você abriu a boca para morder o pão de queijo chega um conhecido seu um colega aí ao invés de morder o pão de queijo se oferece para ele e diz você quer né O que que ele deve responder se for sensato não Obrigado né E esse esse pequeno né Eh gesto esse comportamento microscópico que acontece milhões e milhões de vezes no dia dia você vai chegar a entrar numa porta aí vem outra pessoa se afasta deixa
o outro entrar ó o outro fala não entra primeiro significa um um ritual Zinho de evitação da violência vamos supor que naquele pão de queijo que é objeto do desejo meu e de outras pessoas ele sendo objeto do desejo de várias pessoas ele desencadeasse uma violência alguém tomasse pão de queijo da minha mão isso não acontece no dia a dia né ou fosse passar pela porta forçasse entrasse empurrasse o outro o senhor tá colocando as coisas que o senhor tá colocando até tá me deixando pensar tipo porque nós às vezes cobrimos as algumas das cenas
que o senhor tá dito a gente vê no trânsito todos os dias pessoas que esquecem esse essa fração de de ética ou de pensamento e aí a disputa a vaga e disputa mesmo e se precisar sair no braço e o senhor falando sobre o pão de queijo ó de pão de queijo eu nunca vi briga não mas no Black Friday lá nos Estados Unidos que teve pancadaria por causa das promoções ISO houve então ou seja de certa forma a gente vai perdendo um pouco dessa Talvez seja até por isso que é percepção de que nós
estamos num momento de pensar ou o nosso pensamento tá mais acelerado é Clara né vamos aproveitar esse ponto porque nosso telespectador tá tentando pensar nisso vou fazer esse convite para você enquanto a gente vai para um breve intervalo no seu dia a dia como é que tá aí o dividir o pão de queijo e vamos dizer a gentileza da porta Será que você tem pensado sobre isso ou na verdade a gente tá comendo pão de queijo e furando a fila na porta a gente volta o nosso intervalo é rapidinho a gente volta já n