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007 Narrativas Compartilhadas . Roberto Samuel entrevista Zé Henrique de Paula Parte 1

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Roberto Samuel Sanches
A gente na nossa memória é ela. Ela não é uma máquina perfeita; ela não é uma. .
. O funcionamento da memória se dá muito conectado com a subjetividade, né? Então, as minhas primeiras lembranças relacionadas ao teatro talvez não sejam nem minhas exatamente, mas como eu já ouvi tanto essa história, e como eu já vi fotos disso acontecer, é disso que eu vou contar agora.
Elas acabaram se tornando parte das minhas memórias, talvez por empréstimo, não é? Isso tem muito a ver com a minha mãe. A minha mãe conta que, quando eu tinha dois ou três anos de idade, a gente morava numa casa.
Meu pai e meu avô eram sócios num comércio, em uma padaria. A gente morava numa casa que ficava em cima desse comércio, na Rua Aparecida, em Sorocaba. E a minha mãe conta que, com dois ou três anos de idade, no quintal, eu me lembro do quintal.
Eu enfileirava os brinquedos numa espécie de degrau que funcionava como palco e ficava fazendo marcação cênica, vamos dizer assim, com esses brinquedos, como se fosse um palco de teatro, como se fosse um proscênio de teatro, de um palco italiano. Eu tenho umas fotos muito nostálgicas disso, e quando eu vejo essas fotos, eu, que tenho uma recordação ainda muito pequena desses primeiros momentos, né? O fundo do gol [Música].
Eu acho que, a princípio, a minha principal forma de brincar quando era criança era brincar de teatro. Isso é um fato. Assim, já um pouquinho mais velho, já numa outra casa, quando a gente se mudou, e eu já devia ter sete ou oito anos de idade, já lembro aí claramente.
Não é uma memória emprestada; é uma memória minha mesmo, de junto com os meus primos. Eu sou filho único, mas sempre tive muitos primos, muitos, muitos primos. Eu me lembro que, com os meus primos, as pessoas se visitavam nessa época.
É uma coisa curiosa também; a gente pensa hoje em dia que vive numa época em que a tecnologia parece que dominou todos os campos mais recônditos da nossa vida. Existe a tecnologia e a internet, de alguma maneira, ditando o nosso modo de vida. Mas estou falando de uma época em que não existia internet, que não existia nada disso, existia telefone celular.
As pessoas se visitavam, iam nas casas umas das outras, e era uma coisa muito gostosa ir até a casa dos parentes para encontrar os primos, especialmente aqueles que não tinham irmãos. Então, eu me lembro que tanto na casa dos meus primos quanto quando os meus primos vinham até a minha casa, eu, de alguma forma, convenci a todo mundo que a gente devia brincar de teatro, mesmo quando as pessoas queriam brincar de outra coisa. Em casa, especialmente, a gente ia para o fundo da casa, para a lavanderia, para a edícula, e a gente ficava lá tramando algum tipo de apresentação.
No final da noite, a gente apresentava aquela coisa, que não sei dizer o que era, para os adultos que estavam conversando lá na sala ou que estavam tomando café e tudo mais. Eu me lembro disso acontecer com muita frequência, sabe? Essas reuniões infantis, nas quais a gente colocava a fantasia e a imaginação, né?
Dava vazão a toda a nossa fantasia e imaginação e aproveitava que boa parte desse encontro acontecia na edícula, na lavanderia. Então, você já tinha alguma roupa no varal secando e a gente chamava fazer um figurino; se já tinha um lençol por ali, a gente inventava uma fantasia de alguma coisa. E, curiosamente, a edícula da casa onde eu morava, na casa de meus pais, na nossa casa, já era uma outra casa, não aquela mesma casa em cima da padaria, mas essa nova casa, curiosamente, tinha uma porta dupla que, quando aberta para dentro, formava uma espécie de arco do proscênio e criava de novo uma sensação de que tinha um palco ali.
E a gente fez muita coisa por ali. Acho que a próxima lembrança que eu tenho já é uma lembrança ligada propriamente à escola, ao Getúlio Vargas. Mesmo antes de me envolver, de me engajar com o festival de teatro do Getúlio Vargas, eu tenho a lembrança de fazer algumas atividades curriculares ligadas ao teatro da 5ª à 8ª séries.
Sempre tinha alguma coisa a ver um pouco com a aula de português e tudo mais. Eu me lembro também que o Getúlio Vargas tinha uma festa anual, que era a Festa das Nações, e na Festa das Nações uma das coisas que eu mais gostava de fazer, sempre achava que me voluntariava, que me candidatava para fazer isso, era participar de alguma apresentação que tivesse a ver com alguma das ditas nações que estavam sendo ali contempladas ou homenageadas. E isso foi tomando um pouco de vulto, vamos dizer assim, ainda internamente na minha cabeça, né?
Não envolvendo muito ainda as pessoas da família, mas eu me lembro que as atividades mais prazerosas dentro da escola eram atividades que tinham algum caráter de apresentação, vamos dizer assim, né? Que tinha um caráter que envolvesse, enfim, o teatro propriamente dito. O teatro, às vezes, no sentido mesmo mais cru da palavra, na de existir ali alguém que faça, alguém que está engajado no ato teatral e alguém que assiste aquilo.
Muitas vezes, na forma durante a Festa das Nações, me lembro de ter participado de algumas dessas apresentações de dança. Era muito lúdico. Ao mesmo tempo, para nós, eu acho que daí a coisa começou a ficar mais séria de fato quando, do ensino fundamental, eu passei para o ensino médio.
E aí a. . .
Gente poderia se candidatar a participar do festival interno de teatro. Não que fosse um acontecimento; eu não sei nem se é um acontecimento tão grande, de fato. Mas, na minha cabeça, era um acontecimento.
Aquilo era uma coisa que me interessava, o que me interessava demais. As primeiras peças que eu assisti foram dentro do auditório do Getúlio Vargas. Eventualmente, algum grupo, alguma companhia vinha apresentar alguma peça no salão nobre, no auditório, e a turma toda era dispensada para assistir aquilo.
Eu me lembro disso! Isso aconteceu algumas vezes; me lembro exatamente, será na 5ª série, na 6ª série, enfim. Mas as primeiras peças que eu vi foram lá dentro.
Eu não tenho muita lembrança de ir ao teatro quando criança em Sorocaba. Acho que a atividade teatral era, posso estar equivocado, pode ser só uma opinião pessoal mesmo, mas, em nosso âmbito ali, a atividade teatral é uma coisa que é esse paciente ainda, né? Não tem essa memória de ter, e principalmente os teatros que acabaram fazendo parte da minha rotina teatral lá dentro da cidade.
Acho que eles foram inaugurados depois, né? O teatro do Sesi, o teatro municipal ali dentro do Paço Municipal. Então, as primeiras coisas que eu vi foram do Getúlio, e quando eu comecei a participar do festival do Getúlio, ali era um.
. . para mim, era um polo, exercia um magnetismo muito grande.
Aquele espaço e aquela atividade que aconteciam ali. Eu acho que isso também tem muito a ver com a maneira como as pessoas que trabalhavam dentro da escola encaravam e difundiam o festival, né? Você difundir o festival de uma maneira completamente apaixonada.
A Rosa Maria Padilha e o Kepler são entusiastas do festival. A Sônia, a reserva, muitos de até o festival, e o Carlinhos Carlos Camargo Costa também era um grande entusiasta do festival. Então, acho que as pessoas que trabalhavam na escola, tanto na parte administrativa quanto na parte pedagógica, viam aquele festival como um elemento de formação daquele alunado, né?
E de fato era, porque assim, a gente conhece muitas pessoas que foram formadas dentro daquela atividade e que essa atividade acabou semeando e frutificando depois para muitas pessoas, inclusive para pessoas que não seguiram a carreira teatral, mas que se lembram desse período, se lembram desses acontecimentos e guardam esses acontecimentos com muito carinho até hoje, né? Eu acho que esse momento, para elas, foi um momento de descoberta, um momento de descobertas pessoais, um momento de exercício da liberdade, exercício da criatividade. Pode parecer um exagero o que vou falar, mas é quase como um ensaio para um adolescente nerd, estou falando de um público majoritariamente adolescente que participa do festival.
Para um adolescente, era quase que o ensaio do exercício da cidadania, sabe? Da responsabilidade, da corresponsabilidade, da responsabilidade de uns sobre os outros, do que é você estar inserido numa coletividade. É da responsabilidade no sentido de que você está lidando com.
. . você está lidando só com a sua própria vontade, mas com a vontade de outras pessoas, tanto no fazer teatral quanto levando em consideração a vontade das pessoas que vão assistir, né?
E a própria liberdade das pessoas que vão assistir. Um exercício de cidadania no fato de que a gente saía em busca de tudo que achava que precisava para concretizar o espetáculo. A gente saía em busca, e dentro das nossas famílias, as próprias famílias eram de alguma forma acionadas e engajadas nessa atividade.
E num nível maior ainda, a gente acabava indo pra cidade, a gente expandia o acontecimento do festival, que era uma coisa interna; o nome dele era esse, festival interno, mas a gente expandia isso para a cidade também. E eu acho sensacional, porque era de fato um ensaio da cidadania que nós viríamos a ter como adultos dali a pouco, né? Então, não é pouca coisa, assim, no sentido da formação.
Não é pouca coisa. Eu não sei se as pessoas encaram isso dessa maneira. Eu acho que isso a gente só vai entender décadas depois.
Mas eu acho que mesmo quem teve uma participação que. . .
um episódio em algum desses festivais do Getúlio e depois acabou se desligando do teatro, principalmente como carreira, não sei se essas pessoas encaram isso dessa forma, mas elas certamente têm um lastro afetivo com isso, porque para quem participou do festival, esse lastro afetivo é indelével, ele não vai desaparecer jamais. Porque a gente vivia aqueles meses com uma intensidade que quase eclipsava outras coisas que aconteciam na escola, né? Eu me lembro de ter feito uma coisa que meus pais ficaram muito bravos, inclusive.
É que, no 2º festival, que foi quando a gente fez "Vestido de Noiva", de Nelson Rodrigues, eu já tinha fechado algumas matérias no terceiro bimestre, então eu faltei a uma prova do quarto bimestre de biologia para poder ensaiar. Cheguei em casa e falei: "Eu faltei na prova, não estudei, prova, eu tirei 0 nesta prova, mas eu já fechei essa matéria. Era mais importante ensaiar do que eu fazer uma prova de biologia de uma matéria que eu já fechei.
" Entende? Então, isso é um pouco uma. .
. andar um pouco nessa sensação de que a gente, principalmente à medida que as datas e o festival vão se aproximando, a gente vivia de forma muito intensa os acontecimentos ligados ao festival, né? Nesses dois anos, especialmente em 1986 e 1987, foi ficando cada vez mais claro, à medida que esses dois anos foram se passando, que essa atividade, a atividade do fazer teatral, ela era celular para mim; fazia parte da minha carga genética, de alguma maneira.
Eu não ia conseguir viver uma vida feliz sem aquilo. Então, é 86 foi o ano que eu fui o segundo ano, 87 o terceiro ano, e chega àquele momento terrível na vida de qualquer pessoa, que é você vai escolher a faculdade que você quer cursar.
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