Um dos acidentes mais graves da história, da história do planeta Terra, aconteceu aqui no Brasil, em Goiânia. A Netflix acabou de lançar uma série chamada Emergência Radioativa. Ontem, pelo menos, era a série mais assistida no Brasil e ela conta essa história.
Então, hoje você vai saber tudo que aconteceu por trás dessa tragédia. O que que é esse tal de Sésio 137 que brilha azul no escuro? Por que ele pode matar as pessoas de um jeito silencioso?
E o que que aconteceu no Brasil que foi tão grave assim? Vamos começar então contando essa história. Vamos voltar no tempo para quando eu tinha 5 anos em 1987.
Se você clicou no vídeo achando que acabou de acontecer em Goiânia, não, já vai fazer 40 anos no ano que vem, mas vale a pena assistir até o fim. Nessa época, o rock nacional estava no topo. Música mais ouvida do ano foi: Que país é esse do Legião Urbana?
O presidente do Brasil era o Zé Sarnei e o nosso grande campeão da Fórmula 1 era o Nelson Piquê. A Irton Sena ainda tava começando ali e nesse ano o Piquê seria tricampeão de Fórmula 1. O carro mais vendido era o Gol Quadradinho e o campeão brasileiro desse ano foi o Sport de Recife.
Tem gente que vai brigar n comentários dizendo que foi o Flamengo, mas não vou entrar nessa disputa. O fato é que lá em Goiânia existia um prédio que era de uma clínica de radioterapia que tinha sido desativada. Era um prédio abandonado e as pessoas iam de vez em quando lá pegar algumas coisas que estavam jogadas à própria sorte.
Numa dessa, dois catadores de materiais recicláveis encontraram dentro de uma sala um equipamento meio esquisito, que era muito pesado. Eles perceberam que tinha bastante chumbo ali dentro e resolveram levar para um ferro velho. Esse aparelho era perigosíssimo e eles não tinham ideia do que eles estavam fazendo.
E aqui vale uma explicação muito importante que é sobre esse meme aqui do [música] lado. Pois é. Vamos explicar o que que é radioterapia, porque radioterapia não é raio X.
E a gente já desmontou uma máquina de raio X e surgiu essa dúvida quando a gente fez isso aqui no manual do mundo. Radioterapia é um tipo de tratamento para quem tem câncer. Ele é feito para você conseguir matar as células do câncer jogando uma radiação ali em cima de onde tá a doença.
Essa radiação, ela vai estragar o DNA das células do câncer. Então o câncer vai ficando mais fraco, as células vão morrendo, mas ao mesmo tempo ela atinge pouco, ela causa pouco estrago nas células normais. É como se você tivesse meio que um raio mágico que só mata as células de câncer e não mata as células sadias e que atravessa a pele.
Você consegue alcançar um câncer que tá lá dentro. É um tratamento super importante. O Jan tá perguntando aí atrás da câmera como é que pode a radiação matar a célula com câncer e não matar a célula normal.
O câncer é uma reprodução descontrolada das células. Então as células começam a se dividir loucamente lá de um jeito tudo descontrolado e isso desorganiza completamente o lugar onde causa o câncer. Então você tem um câncer dentro do osso, significa que alguma coisa estranha vai começar a crescer naquele osso lá de um jeito completamente errado.
Essas células tm o DNA um pouco mais frágil, é mais fácil de você matar essas células. Então, na hora que você joga a radiação, você consegue fazer com que o DNA delas dê uma quebrada, dê uma estragada. E aí, ou essas células não vão se reproduzir mais, ou o próprio corpo tem um jeito de eliminar células com um DNA estragado.
Então a chance desses desse câncer diminuir, dele desaparecer, aumenta muito. Ao mesmo tempo, se você jogar a dose certa de radiação, você até machuca as células que estão em volta. Quem já fez radioterapia, tá assistindo esse vídeo, provavelmente vai ter uma lembrança meio chata disso, porque queima a pele, causa dor, é, vai dar algumas reações, mas não mata as células.
Então você vai várias vezes, dia após dia, jogando radiação ali em cima do câncer, vai estragando as células que t câncer, mas as células normais vão resistindo. Claro que se você exagerar nessa dose, aí a célula normal vai se machucar também e aí você pode causar o câncer na célula que não tem câncer. O raio X é outra coisa.
Raio X é uma espécie de luz invisível que consegue atravessar o nosso corpo, mas não atravessa muito bem as partes duras, os ossos. Então é um exame muito importante para conseguir ver dentro do corpo humano e enxergar principalmente se tem alguma fratura, alguma coisa assim. Tanto a radioterapia quanto o raio X tem radiação, mas são coisas bem diferentes.
E o aparelho de raio X, que foi o que a gente desmontou aqui no manual do mundo, não tem nada radioativo dentro. O que gera o raio X na máquina de raio X é uma espécie de lâmpada que existe lá dentro que quando você apaga não tem mais radiação. Na máquina de radioterapia, pelo menos nas antigas, não.
O que gera radiação é um elemento radioativo. É alguma coisa que você não consegue desligar. É um material extremamente tóxico, venenoso, que fica lá dentro, mas que os raios que saem dali são super controlados para atacar só o câncer.
E é isso que tinha dentro do equipamento que os caras tiraram dali da clínica abandonada. Como tinha muito chumbo, eles venderam para um dono de um ferro velho lá de Goiânia que terminou de desmontar aquela peça, quebrou aquela carapaça de chumbo que protegia o elemento radioativo. E lá dentro [música] ele encontrou uma espécie de um sal meio azul, brilhante, uma coisa meio mágica que iluminava no escuro sem ter bateria, sem nada.
E essa foi a grande armadilha. Dentro dessa máquina de radioterapia [música] tinham 19 g de cloreto de césio 137. O césio ele tá aqui na tabela periódica, na mesma coluna do sódio, do potássio.
E esse 137 significa que dentro dele, se você somar os prótons e os nêutrons, vai dar 137. É um número bem alto, deixa o Sésio meio instável e ele solta muita radiação. Muita gente me perguntou no canal de WhatsApp do Manual do Mundo: "De onde é que vem esse brilho do Sésio.
Uma das coisas que ele faz é soltar elétrons numa velocidade absurda. Quando esses elétrons passam, por exemplo, pela água, passam dentro do próprio cristal de cloreto de césio, eles vão numa velocidade mais rápida do que a luz passaria ali. Essas partículas não chegam a uma velocidade maior do que a luz no vácuo.
Elas chegam numa velocidade maior do que a luz passaria naquele lugar em que eles estão passando, como a água, por exemplo. E essa passagem causa uma espécie de um boom de luz. Isso emite bastante luz azulada.
É por isso que alguns elementos químicos radioativos são brilhantes no escuro. O nome disso é efeito Cherenkov, que é o nome do cientista soviético que descobriu por que isso acontecia. Pense no material traiçoeiro.
Primeiro que ele é muito bonito. Segundo que ele emite radiação pra caramba. De uma que chama beta, que não penetra muito na nossa pele, mas pode causar queimadura e tudo mais.
são eletrons em altíssima velocidade e uma outra que chama gama, que pode penetrar o nosso corpo, atravessar o corpo e estragar as células lá dentro. É esse tipo que é usado na radioterapia. E essa radiação é totalmente invisível.
Você não sente, não sabe que ela tá ali. Não tem como um ser humano olhar para aquilo e imaginar que vai ser envenenado, que aquilo tá fazendo mal. Mas aí o dono do ferro velho pegou aquele pozinho brilhante, achou aquilo lindo demais, resolveu levar para casa para mostrar pras outras pessoas.
Então ele mostrou pra esposa, pro irmão, pros vizinhos, pros sobrinhos. A galera ia na casa dele, ele dava um pedacinho ali, dava um pouquinho e aquilo foi se espalhando. Todo mundo achava aquilo meio mágico.
A galera passava no corpo como se fosse maquiagem. Mas e esse povo era muito burro, né? passava esse negócio perigoso no corpo, assim como se tivesse pintando o corpo.
Não, a gente tá falando de 1987. Nessa época todo mundo só se informava pela televisão, pelo rádio. Eram poucas pessoas que assinavam um jornal, não existia nem de longe internet.
As pessoas não tinham acesso à informação que a gente tem hoje, não tinha como essas pessoas saberem que era perigoso. E passar no corpo é meio que uma reação natural. É o que a gente faz com glitter hoje no carnaval.
Era só isso que eles estavam fazendo. Só que as consequências foram outras, porque o sésio faz muito mal pra saúde. E as pessoas começaram a ter dor de cabeça, vômito, passar mal e nem todo mundo associava aquilo com aquele pozinho mágico.
Até que uma mulher que também mexeu no pó teve a ideia de levar aquilo lá pra vigilância sanitária, pro pessoal ver se não podia ser a causa de tanta doença. E era era exatamente isso que tava fazendo mal para todo mundo. Quando essa mulher foi buscar ajuda, já fazia vários dias que esse pó estava sendo espalhado entre as pessoas, sem controle nenhum, sem ninguém ter ideia do que estava acontecendo.
Só que agora eles sabiam e como é que a gente vai lidar com esse problema. O acidente nuclear de Chernobyl tinha acontecido fazia pouco mais de um ano. Então, essa coisa de radioativo, de nuclear, de radiação que você não consegue ver, era um assunto que tava muito na cabeça das pessoas.
E qualquer informação sobre isso poderia deixar a cidade em pânico, [música] extremamente assustada. Quantas pessoas tinham sido contaminadas? Será que dava para beber água?
Será que a gente podia [música] comer a comida do supermercado? Será que a cidade inteira já não estava contaminada? A treta tá feita e agora começa a guerra.
Vamos ter que resolver esse problema. E o que eu achei muito interessante de ter assistido à série é que a gente tá falando de um Brasil de 40 anos atrás numa cidade do interior que nessa época não era nem sombra do que Goiânia é hoje, uma cidade grande, bem desenvolvida. É, a gente tá falando de outro Brasil, mas a galera foi em frente.
Olha só, primeiro de tudo, tinha que tratar as pessoas que estavam doentes. E o sésio faz muito estrago no corpo. Tá na mesma família que o sódio e o potássio.
Significa que o nosso corpo encara o césio mais ou menos como se ele fosse sódio ou potássio, que são dois elementos químicos muito importantes pro nosso corpo. Então, o corpo do ser humano na hora que o sésio entra fala: "Vem aqui, Sésio, estamos precisando de você. Vamos botar você dentro das nossas células aqui e tudo mais.
Não existe uma rejeição natural contra o césio. Muito pelo contrário, se você respirar ou engolir, ele vai começar a fazer parte do seu corpo e vai continuar emitindo radiação lá dentro, vai continuar te estragando de dentro para fora. E o que que faz exatamente essa radiação?
Se estraga o DNA das células, isso quer dizer que jogando contra as células que t câncer, ela pode matar as células que t câncer. Mas se você jogar muito nas células sadias, ela pode causar câncer. Mas isso muitos anos depois, o que acontece na hora mesmo também é grave.
Quem tem contato direto assim com material radioativo pode sofrer de um negócio que chama síndrome aguda da radiação, que vai dar vômito, diarreia, tontura, queimaduras gravíssimas na pele que vão aparecendo aos poucos, não é na hora. Ela ataca por dentro do nosso corpo e pode ser que você deixe de produzir glóbulos brancos no seu sangue, ou seja, você fica sem defesa, o corpo fica indefeso e pode ser atacado por qualquer tipo de infecção. E aí você pode imaginar que lá em Goiânia eles estavam lascados, né?
Primeiro tinha que lavar muito bem as pessoas para tirar o césio que podia estar em qualquer parte do corpo delas, porque se tiver uma pedriquinha ali na pele, aquela pedra fica emanando, fica soltando radiação o tempo inteiro. Tem que se livrar disso. Depois tem que tratar a pessoa como um doente comum mesmo, fazer tratar as feridas, o vômito.
E eles usaram bastante um pigmento chamado azul da prússia, que ele se liga com o césio dentro do corpo e facilita com que você solte no cocô. que você deve ter imaginado que era um outro problema, porque o sucesso tava dentro do corpo de algumas pessoas, quando elas faziam cocô ou xixi, isso tava contaminado, tinha radiação no cocô da pessoa. Por isso o lugar em que elas ficavam no hospital tinha que ser completamente isolado.
E por isso muita gente também tinha medo de chegar perto delas, não só pessoas na rua, mas os médicos e tudo mais. Um outro problema gigante era descobrir quem tava contaminado além das pessoas que estavam passando mal, porque os sintomas poderiam surgir depois. E aí eles montaram uma espécie de uma operação de guerra no estádio de Goiânia para as pessoas chegarem lá e serem escaneadas.
E era esse instrumento aqui que a galera usava na época para conseguir detectar a radiação. Isso aqui é um contador Geiger. Como a gente não consegue enxergar a radiação, você tem que ficar passando perto dos objetos para ver se aumenta esse barulho.
Aqui a gente tem algumas coisas que tem um pouquinho de radiação, tipo nosso prato de urânio. A gente tem aqui trinitita também, que é um resto de explosão atômica. Mas eu acho que a coisa mais radioativa que a gente tem é a areia monazítica.
É uma areia do Espírito Santo. Isso aqui não é perigoso, tá? Tem mais radiação do que as coisas do dia a dia, mas também não é uma radiação que vai matar ninguém, não.
Não vai deixar ninguém doente. Mas ó, o que acontece com o barulho. Quando eu chegar perto daqui do sensor do contador Geiger é outra coisa, né?
A ideia então era passar isso aqui em volta das pessoas como se fosse um detector de metais e se ele apitasse forte, você sabia que a pessoa tava contaminada. Mais de 100. 000 pessoas foram testadas no estádio de Goiânia e eles encontraram um nível de radiação perigoso em 249 delas.
E ainda tinha um terceiro problema bem grande que é o seguinte: as pessoas mexeram com radiação dentro de casa, no ferro velho, lá no prédio abandonado, em tudo quanto é lugar. O que que a gente faz com essas coisas que estão contaminadas? Eles começaram a guardar tudo isso dentro de tambores do jeito que se faz com um lixo radioativo mesmo.
O problema é que foi juntando tambor, tambor, tambor, tambor, tambor, tambor, tambor e precisava guardar esse negócio em algum lugar. Só para vocês terem uma ideia, da dificuldade desse trabalho, várias casas foram demolidas e todo o entulho, toda a demolição virou lixo radioativo. E não só as paredes, o piso das casas, mas até uma camada de terra que ficava por baixo ali foi raspada.
Deu um total de 6. 000 toneladas de material com problema. Mas e no final das contas, que que aconteceu?
Essas coisas foram resolvidas? Hum, mais ou menos. Quatro pessoas morreram logo de cara.
morreram nas primeiras semanas, elas foram pro hospital e não resistiram à aquela síndrome aguda da radiação. Não vou falar mais sobre elas porque são personagens importantes da série e eu acho bacana que vocês assistam. Ó, na matéria do Globo aqui diz que a Associação das Vítimas afirma que mais de 100 pessoas morreram depois por causa dessa contaminação com sésio.
Esses números são muito difíceis da gente verificar porque as pessoas têm câncer normalmente tendo contato com o sésio ou não. Existe um centro de monitoramento de saúde em Goiânia que faz exame e tal nas pessoas e mais de 1000 pessoas são monitoradas até hoje por causa do acidente. criaram um lugar para colocar o lixo radioativo numa cidade vizinha chamada Abadia de Goiânia.
Isso tudo foi concretado e hoje em dia é um parque. Então, se a gente olhar no Google Maps, dá para ver uma espécie de montanha gramada ali, que é onde foi colocado todo esse lixo. Cinco pessoas que estavam ligadas à clínica que abandonou esse equipamento lá, sem proteção nenhuma, foram condenadas, mas acabaram nem cumprindo pena porque passou o tempo e tudo mais.
A justiça considerou que os catadores material reciclável não tiveram culpa porque não tinham a menor ideia de que aquilo tinha algum perigo. Mas o que eu acho muito interessante dessa história é que o Brasil, mesmo em 1987, conseguiu lidar com esse problema. Goiânia hoje é uma cidade absolutamente segura.
Ninguém pousa em Goiânia pensando, poxa vida, será que eu vou ser contaminado com Césio 137? Não, isso passou, faz parte da história da cidade. Foi o acidente de nuclear mais grave da história da da humanidade que aconteceu fora de uma usina nuclear.
Tem alguns acidentes tipo Chernobyl, Fukushima e tal que foram muito importantes, [música] mas fora das usinas esse tipo de acidente é muito raro. Então esse problema também ensinou pro mundo uma série de técnicas de como lidar com esse tipo de desastre, como se comunicar com a população, como que você faz a varredura depois, onde é que vai colocar o lixo radioativo e tudo [música] mais. Enfim, se você não assistiu a série ainda, isso aqui não é uma propaganda Netflix, tá?
Mas eu acho muito legal que você assista para entender um pouquinho da história do Brasil. E eu acho a história muito bem contada também, a amarração dos personagens. Você vê que não é só um drama de ciência.
A gente falou muito aqui de elementos químicos, de números, mas tem pessoas que estão por trás disso. E eu acho que isso a série explora muito bem. Vale a pena assistir.
E uma coisa que eu tava esquecendo de falar no final para você que ficou com medo aí do Césio 137, as máquinas de radioterapia hoje em dia já não usam mais material radioativo dentro delas. A radiação é criada de um jeito muito mais parecido com raio X, com máquinas muito mais fáceis de descartar, que não tem o perigo que tinham essas máquinas antigonas de 40 anos atrás. Se você quiser saber um pouco mais sobre radiação aqui no Manual do Mundo, a gente já fez vários vídeos desde como funciona esse prato de urânio, como funciona o contador Geiger.
Uma das coisas mais legais que a gente já fez foi uma câmara de nuvens em que você consegue ver a radiação passando. É uma coisa muito bonita.