Meu nome é Juvi e esse é o podcast Monólogos, onde eu falo por alguns minutos sobre algum assunto, não para dar respostas, mas sim para abrir janelas de perguntas e reflexões. E no episódio de hoje eu vou falar sobre infelicidade. Antes de entender a infelicidade, a gente precisa entender o que é a felicidade, qual a nossa relação com a felicidade desde que a gente se entende por gente, porque a felicidade ela vem como uma espécie de promessa pra nossa vida, como olha, isso vai acontecer, o futuro vai ser bom, existirão realizações no seu futuro, ou seja, uma espécie de eterno quando quando isso vai acontecer.
Então, a gente vive com essa ânsia na esperança de algo que nunca vem, um fim que não existe, ou quando vem esse fim, ele acaba não sendo o suficiente, porque o fim da vida não é ser feliz. A vida não tem um fim. Ela não se esgota em vida.
A vida se esgota em morte. Ou seja, essa promessa da felicidade que pode existir alimenta uma espécie de ansiedade pelo simples ato de existir. E essa ansiedade de existir, essa promessa de felicidade, ela vem fruto de uma lógica um tanto capitalista, um tanto dinheirista, um tanto liberal, neoliberal, meritocrática, porque ela se baseia muito no nosso imaginário coletivo como uma promessa de algo físico, como uma promessa de acesso material.
E através desse acesso material do dinheiro, da sua profissão, da sua estética, da sua roupa, da casa que você vai ter, da comida que você vai ter, dos romances que você vai ter, do amor que você vai merecer, tudo isso tá ligado a essa estética do sucesso, do dinheiro, da performance e do status. E nisso a felicidade, então assim como a infelicidade e a felicidade e a infelicidade se vê como sensações espelhadas, elas acabam não se apresentando como um estado de humor, mas sim como uma espécie de estética do fracasso, né? Então, não é como se a felicidade fosse um estado de alegria ou como se a infelicidade fosse um estado de depressão ou tristeza existencial, mas sim essa estética do fracasso tá muito ligada então à felicidade ao não ter, a não performar, a não provar que a meritocracia é uma farsa.
Ou seja, tudo isso que a gente entende como felicidade, riqueza, amor, a infelicidade é como se fosse tudo isso ruindo, toda essa promessa de vida sendo quebrada e você percebendo que o mundo, no final das contas, não é o paraíso. Nossa, quem diria, né? Jura que o mundo não é o paraíso?
Então precisa cair essa máscara de ingenuidade nossa pra gente entender tanto o que é a felicidade, tanto entender o que é infelicidade e perceber que elas fazem parte de um mesmo ciclo, mas com tempos opostos. Então, na verdade, quando a gente pensa a felicidade e a infelicidade com esse nosso imaginário materialista e capitalista, a gente vê que é meio que um espantalho do senso comum, como se a gente fosse computadores onde existe zero e um e o zero é infelicidade e o um é infelicidade. Então, ou você é uma pessoa feliz ou você é uma pessoa infeliz.
Isso dita toda a materialidade, todos os campos do seu ser, que são imensos e complexos e diversos. E isso ignora uma verdade incomensurável da vida, que é é possível estar feliz e infeliz ao mesmo tempo. Por quê?
Porque não é sobre a nossa existência, é sobre pontos de referência, tanto a felicidade quanto a infelicidade. Por exemplo, você pode ser lindo, linda, mas você é lindo ou linda para alguém. Ou seja, precisa de um segundo objeto para que você balize o que é ser lindo ou ser linda.
Você precisa de um ponto de referência. Da mesma forma, você pode estar feliz com algo e infeliz com outra coisa, com alguém, com algum acontecimento, algum episódio. Ou seja, você precisa de um ponto de referência para definir se você está feliz em relação a algo ou infeliz em relação a algo.
Ou seja, a felicidade e a infelicidade não é um estado do ser, é um estado em relação a algo, em relação a alguma referência. Somos seres que vivem, olham, se movimentam e que reagem. Então, a felicidade e a infelicidade são reações nossas, relações às vezes um tanto voluntárias, às vezes um tanto involuntárias, mas são reações.
Não é o que a gente é, não é o que compõe a gente. A gente não é absolutamente feliz nunca. E a gente não é absolutamente infeliz também nunca.
E essa é a boa notícia. Monstros. A infelicidade e a infelicidade elas se ligam muito com os axiomas.
Sou uma pessoa infeliz, como eu disse aqui, ou sou uma pessoa infeliz, mas só que vai além do sou. é sobre o verbo estar, é sobre algo que é temporário, é algo que é passageiro, mas ao mesmo tempo diz respeito também ao ser, que o ser é algo perene, existencial, constante. Aí tanto a felicidade quanto a infelicidade, elas se apresentam como monstros, né?
E o que são os monstros? São coisas irreais feitas de distorões de coisas reais. A pressão de que a felicidade ou a infelicidade tem que definir quem a gente é enquanto ser humano, enquanto indivíduo.
E isso abraça todo um estilo de vida e tudo que a gente é e todo ente. E por que que a gente diz que existe esse monstro da felicidade, esse monstro da infelicidade? Porque são distorções, como eu disse, que causam horror e que manifestam uma irrealidade na realidade.
Porque se algo é irreal e esse algo te assusta, é porque ele desafia as leis da realidade. Ou seja, é algo que você não consegue acreditar, é algo que você não consegue crer. Mas antes de tudo, a gente precisa lembrar aqui, caso alguém não saiba, que monstros não existem.
Monstros são histórias, conceitos, são mentiras. Da mesma forma que acreditar em uma plenitude da felicidade, da satisfação ou da ausência de resoluções na vida, a ausência de manutenção da vida, é uma mentira, é um monstro também. Assim como a infelicidade, onde nada pode ser resolvido, nada pode ser consolidado e seja impossível se escapar disso, também é um monstro.
é uma irrealidade baseada em conceitos da realidade, porque a felicidade e a infelicidade existem, mas não da forma como contam pra gente, como se fosse uma espécie de aura que toma conta da sua vida. E a partir de então isso diz sobre o seu ser, sobre o seu organismo, sobre a pessoa que se movimenta, quando na verdade é sobre o que essa pessoa sente, sobre como essa pessoa está em relação a algo e não sobre quem você é de fato. Ou seja, tanto a felicidade quanto a infelicidade são fragmentos da nossa existência.
É um vidro estilhaçado de assalto que nunca mais vai ser reconstituído. É uma espécie de fragmentos de episódios e coisas que acontecem com a gente, seja por nossa escolha, a nossa agência ou totalmente fora da nossa escolha. Fora da nossa agência, seja ligada à sorte ou azar, que vai produzir algo na gente, um pequeno estilhaço de algo a partir daquela experiência.
E todos esses estilhaços juntos dizem respeito a quem a gente é, mas não constituem quem a gente é ainda, porque é impossível remontar um vidro quebrado. Então, a boa notícia é que a gente nunca vai ser feliz e a má notícia é que a gente nunca vai ser infeliz. Ou talvez o contrário também, porque no final das contas a gente não vai ser nada.
A gente não é nada. Não existe uma palavra capaz de decidir quem a gente é. E às vezes, em meio a momentos terríveis na nossa vida, a gente também consegue experimentar felicidade.
E isso parece uma contradição, parece uma espécie de irrealidade na realidade, ou seja, o oposto de monstro. Quando, na verdade, essa é a vida. A vida são fragmentos não lineares e paralelos e coisas acontecem ao mesmo tempo.
E por isso que é possível estar feliz e infeliz ao mesmo tempo com coisas diferentes, porque no final das contas a gente não é um quadro único que é pintado, está pronto, está feito. E é isto. A gente é um mosaico de peças diferentes, de quadros diferentes, de coisas diferentes e sempre tá faltando peça.
E por isso que quando a gente tenta enxergar a felicidade ou a infelicidade como algo pronto que dita o nosso ser por completo, isso é um monstro. Ou seja, só serve para colocar medo na gente e um medo do que não existe, que é o medo de nossa, eu nunca vou ser feliz completamente. Sim, você nunca vai ser feliz completamente.
E essa é a verdade. Você não tem que ter medo então da infelicidade também, porque você nunca vai ser infeliz completamente também. Então, tipo, apenas ignore isso e viva performance.
A gente vive em um mundo de aparência, de vitrine, de caos disfarçado, porque muitas pessoas tentam maquiar a própria bagunça da vida e de caos organizado, porque a gente tenta ver tudo que acontece na nossa vida de disfuncional e que a gente acha errado muito, entre aspas, e a gente tenta organizar isso para fazer algum sentido, como se a gente tivesse fazendo uma curadoria do que a gente exibe pras pessoas e a gente exibe o que convém, quando convém, para quem convém, a impreensão de quem a gente é, de quem a gente não é. Então, meio que o nosso medo não é o nosso estado real e quem a gente é e quem a gente sabe que é e a carne que a gente vive. O nosso medo é a percepção do outro em relação à carne que ela consegue ver.
Nossa. E algo é muito engraçado nisso, porque quem nunca viveu um episódio que é mais ou menos assim: você tá de boa numa situação, num show, na casa de amigos, numa festa de aniversário, não sei, você tá de boa, mas você tá na sua, você tá tipo na sua, em silêncio. Tem dias que a gente tá mais light e alguém pergunta: "Tá tudo bem?
" Aí você fala: "Tá, não, tipo, tá tudo bem, você tá parecendo meio para baixo, meio triste, mas você sabe dentro de você que tá tudo 100% bem nos conformes, assim, tipo, tem nada de errado comigo. " Mas a partir da pergunta do outro, da percepção do outro, você começa a questionar a percepção que você tem de si. E você começa a se questionar, tipo, eu tô bem.
Logo, a gente vive numa sociedade onde estar bem não é o suficiente, não basta. É necessário parecer estar bem. Caso contrário, você vai se deparar com episódios como esses episódios que fazem você refletir exatamente como você está.
E às vezes a gente tem medo desse processo de confronto que causa reflexão. Então, tipo, eu vou parecer estar bem porque isso não gera preocupação, isso não gera demanda. Ou seja, não basta estar bem, eu preciso performar, estar bem e performar é como eu me pareço e não como eu sou.
Porque ser não é o suficiente, ser não é sedutor, ser não é o necessário para que a pessoa me olhe e saiba aquilo. Então, o nosso erro é acreditar que o olho alheio dita a realidade sobre a gente vivendo pelos nossos olhos. Em um mundo onde todos fingem, onde tudo é doce, industrializado, tudo é maravilhoso, aquilo que é orgânico, tranquilo, natural, sem nada espalhafatoso, parece um desvio, parece um erro.
E principalmente no mundo hiper conectado com a presença digital, cada vez mais necessária, integrada ao dia a dia, seja na profissão, no relacionamento, no lazer, nos momentos de tristeza. Em todos os momentos surge uma oportunidade, uma possibilidade de performar, de mostrar, de fazer uma curadoria da própria vida. E essas possibilidades são imensas.
E nisso a ânsia do ser atual é pelos símbolos de bem-estar e não pela materialidade do bem-estar. Como que a gente separa essas duas coisas? O símbolo do bem-estar são coisas que são muito nítidas.
muito violentas e que saltam os olhos, que é sobre aparência, sobre procedimentos estéticos ditos ou não, é sobre a sua casa, sobre onde você foi passar as suas férias, é sobre as fotos disso e todas as fotos que são postadas, os eventos que você vai, as pessoas com quem você anda, o seu cargo, a sua profissão e tudo que é estético, tudo que é vitrine, tudo que é aparência. E esses símbolos não dizem respeito à materialidade do bem-estar, porque a materialidade do bem-estar é algo muito mais simples, muito mais silencioso, algo não espalhafatoso. A materialidade do bem-estar é você dormir bem, é você comer de maneira saudável e irregular, é você ter boas amizades, é você ter boas conversas, é você ter a possibilidade de se abater perder o controle.
E nada disso da materialidade do bem-estar, que é como realmente a gente está bem. E todo mundo consegue entender isso. Eu acho que a gente tem um consenso que a gente estar bem estar dentro de coisas muito simples e coisas que não são postáveis, coisas que não são mostráveis, que às vezes parecem sem graça e tediosas, mas a vida não é sobre esses ápses, sobre esses picos, sobre essa aparência.
A vida é sobre o invisível, sobre a nossa subjetividade, sobre quem a gente é da carne para dentro, sobre quem a gente sente no nosso coração e na nossa cabeça e das coisas simples que a gente faz todo dia com consistência. Isso que faz com que a materialidade do bem-estar seja suficiente. Não é sobre o olho alheio, é sobre a vida através dos nossos próprios olhos.
estética. A crise do nosso tempo é uma crise estética, não é sobre o que a gente vê no espelho, né? E tipo, a aparência, o contorno e a nossa pele, o nosso cabelo e as roupas que a gente usa, mas sim sobre o que a gente pensa quando olha no espelho.
Ou seja, são dois entes diferentes, aquele que a gente observa e aquele que pensa sobre o que observa. Então, a gente fazendo esse exercício da gente se olhando no espelho, fica mais fácil de entender e enxergar, porque isso também se estende pro olha o outro e a gente acaba se distraindo do que é visto para nos prender aquilo que é esperado e seja aquilo que é esperado da gente para a gente, aquilo que a gente espera do outro, aquilo que o outro espera da gente. E o outro quando se depara com a gente, ele pensa o que a gente vai esperar deles.
Então é um choque de realidades e de visões e de conceitos que geram inúmeras forças de insegurança. E essa insegurança é estética, é sobre aparência. Por exemplo, hoje a gente tem a condição de apresentar como nós somos de uma maneira que a gente não é, mas sim como a gente gostaria de ser.
principalmente por conta de redes sociais, acesso a símbolos e eh o capitalismo que traz cada vez mais produtos, cada vez mais novidades, cada vez mais bens, cada vez mais coisas socadas na nossa cabeça. E tudo isso é ferramenta para mentira que a gente conta sobre a gente. E quando a gente sabe que a gente tá mentindo sobre a gente, faz com que a nossa infelicidade seja direcionada a nós e não a um objeto externo, como sei lá, estou infeliz com o meu emprego ou estou infeliz com uma frase que me disseram ou estou infeliz com esse filme, eu pensava que ele ia ser bom e perdi 1 hora e meia.
Nisso, a infelicidade, através da estética é uma infelicidade onde o externo é a gente. A gente projeta algo nosso para fora da gente e se permite estar infeliz com a gente como se a gente fosse um outro, algo externo. e se coloca uma pressão na felicidade nesse nosso dual externo.
Ou seja, a felicidade e a infelicidade passa a ditar a nossa existência, mas não é existência porque é a projeção de algo externo nosso. É uma camada muito fina, nossa, mutável e frívula. Isso é reforçado pela mídia, pela TV, pelos outdoors, pelas redes sociais.
Todo mundo se apresenta ao mundo usando diversos filtros de status, filtros de humildade, filtros de poder, talento, fama, ser descolado, ser uma pessoa séria. E a gente sabe que esses filtros na maioria das vezes são coisas falsas. na maioria das vezes.
E quando são coisas reais de tipo, nossa, essa pessoa realmente tem dinheiro ou essa pessoa realmente é séria, essa pessoa realmente é descolada, ela realmente tem talento, ela realmente tem poder, a gente sabe que isso não é o suficiente para um ser humano. Mesmo que a pessoa tenha, isso não é o suficiente, isso é pouco, é merda. Nisso a aparência se mostra como um dos problemas a ser resolvido com dinheiro, porque a gente vê isso no outro e a gente por acreditar que aquilo não é merda, aquilo é algo legal, eu também quero ter aquilo.
E que o veículo para ter aquilo é um veículo capital, é um veículo do dinheiro. A vida pode ser resolvida através disso, com cosméticos, com vida fitness, com skincare, com alimentação irreal e por aí vai. E a autodecepção de não ter isso faz com que a gente acredite que a gente é infeliz, que a gente está numa infelicidade constante e perene e que o nosso ser dita isso.
Ou seja, a infelicidade deixa de ser uma reação às coisas externas do mundo e passa a ser um estado de mim para mim. E a cruel realidade é pessoas mesmo com ótima aparência e pensando esteticamente mesmo, segundo os padrões, elas podem ser lindas, maravilhosas. Essas pessoas mesmo assim elas são ansiosas, elas se sentem não atraentes, elas se sentem infelizes.
Ou seja, é uma corrida atrás do próprio rabo, é tratar sintomas e não tratar a causa. E você acaba procurando estar bem, mas você procura isso do jeito errado, no lugar errado. Então, acaba que existe uma máxima na vida que é ainda não somos imortais.
Enquanto seres humanos, não somos imortais, a gente vai morrer. Todos os recursos que a gente vê as pessoas criando para manter a juventude, melhorar a estética, soluções mágicas de longevidade e tudo mais que o capitalismo te oferece para ser adquirido através do dinheiro, tudo isso é falho, tudo isso tá errado, tudo isso vai falhar, porque no final das contas a gente não tem medo da infelicidade ou não é sobre a ânsia pela felicidade. A gente tem medo do tempo que passa, porque o tempo ele não só passa como ele acaba, ele é escasso.
Uma hora é caixão e acabou. Ou seja, o destino da estética, da aparência, da performance é desaparecer, é sumir, é se esgotar. E o capitalismo que faz isso com a nossa autoestima, porque ele gera inveja.
E nisso você atrela essa inveja com um querer bem-estar, querer felicidade. Mas na verdade a gente tá falando sobre um recurso que é naturalmente escasso. Vocês vai o ser humano definha esteticamente.
Lembrando que a gente tá falando de estética especificamente. Logo, a infelicidade acaba sendo pro capital o maior drive para fazer alguém comprar algo e gerar demandas de mercado, porque todo mundo vai definhar, envelhecer, todo mundo vai sair dos padrões estéticos que foram ditos os padrões da juventude. Por quê?
Porque o capital criou essa lógica etarista de que apenas a juventude é bela, feliz, admirável e que você tem que manter isso ao máximo. Isso faz com que você corra atrás do próprio rabo e que você perceba que é uma corrida perdida. Então você tenta lutar contra isso acreditando que isso vai te trazer a felicidade quando na verdade não.
Então é necessário para o capital a infelicidade do ser humano. Não só a infelicidade como uma reação, mas a infelicidade como um estado de espírito, um estado do ser. Porque isso vai fazer com que você procure soluções e compre soluções, esteja o tempo todo correndo atrás de algo, como se sempre tivesse algo errado e como se esse algo errado não fosse um detalhe da vida, um campo, uma área, mas sim uma existência.
Nisso, exaltar a juventude e a beleza e a estética é um jeito fácil e eficaz de produzir pessoas infelizes e não com algo externo e passageiro, mutável, mas sim com elas mesmas. Ou seja, a infelicidade que você sente no seu ser produzida pelo capitalismo. Felicidade.
Existe um livro que se chama O velho e o Mar do escritor Ernest Hemenway. Muito bom. Tem uma versão em quadrinhos que é muito boa também.
Eu acho que para quem quiser experimentar essa história e não tem o hábito de ler livros longos, aconselho a versão em quadrinhos, mas é um clássico, muito gostoso de ler também, se não for os quadrinhos. Mas eu vou contar essa história aqui, porque é um clássico para exemplificar esse movimento da felicidade e da infelicidade como reações da vida, porque a gente já entendeu aqui conceitualmente que não é um estado do ser. E esse livro ele conta a história de um velho pescador cubano que por 84 dias ele ia pro mar, não conseguia pescar nada e voltava para casa.
E nisso, no vilarejo, ele acabou sendo visto como um fracassado. Mas aí ele foi pro mar no dia 85 tentar mais uma vez. E nisso ele vai mais longe do que ele conhecia, onde ele nunca tinha ido antes.
E foi ali que ele percebeu que fisgou o Anzol. E no meio do alto mar, sozinho, num barquinho, um Marlin, um peixe espada, um peixe muito grande, fisga esse anzol. E nisso ele percebe, é hoje, é esse dia, é um peixe muito grande, é um sucesso.
Eu estou reagindo com felicidade a isso. Ele luta com aquele peixe por três dias e três noites. E nisso ele desenvolve um relacionamento com aquele peixe.
Ele sangra, ele conversa, ele chama o peixe de irmão e no final dessa luta ele acaba vencendo. Mas o peixe era muito pesado pro seu barco. Então ele vem arrastando esse peixe pelo mar.
e ele vem arrastando. Mas no trajeto ele percebe que os tubarões devoram esse peixe, fazendo com que ele volte para casa apenas com esqueleto. Ou seja, ele reage aquele esqueleto com a infelicidade.
E é algo que diz sobre o resquício de uma felicidade. E no final das contas, quando a gente pensa tanto sobre a felicidade quanto a infelicidade na história, a gente percebe que o fracasso é uma bússola que aponta uma direção. A vida não é feita só de sucesso, como a gente vê nessas redes sociais e como tudo que a gente almeja ser não é uma verdade, é um monstro, é uma mentira.
E a consciência do fracasso, que é essa bússola. da infelicidade, do azar, que você percebe que isso faz parte da vida e é inevitável e que não existe controle sobre isso, sobre o que acontece com a gente e o que fazem com a gente e como a gente reage essas coisas, porque no final das contas as reações que guiam a gente e o pescador ele acaba reconhecendo que mesmo que ele tenha vencido, mesmo após 85 dias sem conseguir consir fisgar um peixe. Ele acabou fisgando o maior peixe que ele já pescou, mas ao mesmo tempo ele viu essa felicidade seva ir dia após dia.
E isso não quer dizer que ele não tenha conseguido aquela felicidade e que ele não tenha sido feliz naquele momento e reagido assim com um dado da vida, mesmo após 84 dias da vida ter mostrado outra coisa para ele. E é essa consciência que faz o fracasso ser uma bússola, que é a vida vai devorar as nossas conquistas e os nossos motivos pra felicidade podem virar motivos pra infelicidade. E essa lucidez que é um tanto assustadora, que é esse movimento da vida, que é exatamente a desfragmentação.
E é esse movimento que fez com que ele fosse ao mar por 85 dias, mesmo sem pegar nada. E a felicidade acaba sendo a possibilidade, é o que faz a gente ir mesmo assim, mesmo podendo ter infelicidade, mas ao se expor que a gente pode ter a felicidade também. Ou seja, são duas faces de um espelho.
No mesmo peixe existiu a felicidade, no mesmo peixe existiu a infelicidade. E por isso que a gente precisa entender que é como a gente reage às coisas que acontecem ao nosso redor. Não é com a gente, não é sobre quem a gente é e não dita a materialidade do nosso ser e a essência do nosso ser.
diz sobre como a gente se sente em relação a algo na nossa vida e a possibilidade de navegar e a agência de navegar em direção a mudar algo. Eu quero peixe, eu não tenho peixe. Então eu posso navegar em direção à minha infelicidade, buscando a felicidade naquele lugar para mudar algo ali.
E sabendo que a felicidade pode existir ali, ela pode se esvair, mas ela pode existir novamente em outros lugares, em outras coisas, em contextos diferentes. Então é a mutabilidade, é a dança da felicidade com a infelicidade. Elas são irmãs, mas sem ir ao mar não existe essa possibilidade.
E você estar feliz com algo ou infeliz com algo não te torna uma pessoa melhor ou pior, te torna uma pessoa que sente. E que bom que você sente, sabe? E quando você vai ao mar, existe a possibilidade de felicidade e infelicidade, mas sem irão existe a possibilidade de nada.
Porque a vida não é feita para ser vencida, a vida é feita para ser vivida. Aí não é sobre voltar com peixe, é sobre ir pescar, é sobre se expor às possibilidades, é estar em alto mar, é viver, é ver o fluxo da felicidade e da infelicidade acontecendo na gente. E como que essas delícias tragédias da vida é que fazem a gente em busca de outras coisas.
Mas se a felicidade fosse estática ou a infelicidade fosse estática, não haveria vida, porque a vida não existe nas coisas paradas no tempo, nas coisas estacionadas. E as velhas felicidades não são suficientes, elas não te alimentam. A gente precisa se expor à possibilidades de felicidades novas e principalmente se expor a possibilidade das infelicidades envelhecerem e a gente perceber que passou.
é perene. São coisas que podem se esvair, mas que deixam resquícios na gente. Mas a gente precisa sempre abrir espaço para novas felicidades.
E o nome desse espaço é infelicidade. Ela inevitavelmente vai acontecer. Ninguém passa na vida de maneira ilesa a infelicidade, mas ela é um processo natural, saudável e que abre espaço para momentos felizes.
Então que você nunca pare de velejar.