A Organização Mundial de Saúde declarou nesta quarta que a disseminação da covid-19 pelo mundo evoluiu para uma pandemia. Isso acontece após o novo coronavírus se espalhar por 114 países e infectar 118 mil pelo mundo, mais de 4 mil já morreram por causa da doença. Mas o que é uma pandemia e o que muda agora que a OMS passou a adotar esse termo?
Meu nome é Camilla Veras Mota, repórter da BBC News Brasil e vou responder essas perguntas nesse vídeo. Uma pandemia é declarada quando uma doença nova, para qual as pessoas não têm imunidade, se alastra e passa a ser detectada em vários lugares do mundo ao mesmo tempo O que a define não é a gravidade, mas a distribuição geográfica, ou seja não é algo mais localizado em um lugar ou outro, como foi o caso da China no início do surto de coronavírus. Em tese, pessoas em qualquer país estão sujeitas à infecção É o caso do novo coronavírus e foi o caso por exemplo da disseminação do vírus influenza A h1n1 em 2009, a mais recente pandemia vivida pelo mundo Pandemias são diferentes de epidemias e de infecções endêmicas Epidemias descrevem o aumento de casos até um ponto máximo, seguido por uma diminuição.
É o que ocorre nos países que enfrentam ondas de gripe: há um aumento das ocorrências no outono e no inverno geralmente e depois esses casos diminuem As infecções endêmicas por sua vez são doenças presentes em uma zona específica por muito tempo, com casos distribuídos por todo ano. Isso acontece em regiões africanas que sofrem com malária, por exemplo. A humanidade enfrenta pandemias pelo menos desde 1580, quando um vírus do tipo influenza, aquele que causa a gripe, surgiu na Ásia e se espalhou para a África, Europa e América do Norte.
Mas a pandemia que causou o maior estrago é mais recente: de 1918. Foi a gripe espanhola, que, estima-se, matou 50 milhões de pessoas. A OMS afirmou que o uso do termo para descrever a disseminação do novo coronavírus não muda a avaliação da organização sobre a ameaça representada pelo vírus nem as recomendações feitas até então aos países.
A mensagem aí é de que ainda é hora de se trabalhar para evitar que a doença se espalhe ainda mais Nesse sentido, o diretor-geral da OMS destacou que o termo pandemia não deve ser usado à toa para causar pânico nem para criar um sentimento de que estamos perdendo a luta. Ele afirmou que ainda é possível reverter o quadro atual. Apesar de a organização ressaltar que as recomendações não mudam, os infectologistas com quem conversamos afirmam que a declaração de pandemia tem uma série de consequências práticas.
O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta disse à imprensa por exemplo que agora o Brasil passa a considerar como suspeitos todos os casos de viajantes com sintomas associados à infecção, vindos de qualquer parte do mundo. Até então, viajantes que apresentassem sintomas, mas viessem de outros países da América do Sul ou da África não eram tratados como suspeitos Agora, a regra vale para quem vem de todos os continentes, algo que pode ajudar a evitar novas transmissões e conter o avanço do vírus no Brasil O infectologista da USP Marcos Boulos, que conversou com a gente, explicou que a declaração de pandemia também facilita a importação de produtos usados no tratamento das infecções, como máscaras e medicamente. Segundo o médico, esses produtos ficariam agora mais livre de vistorias alfandegárias, o que aceleraria a entrada deles nos respectivos países.
Outra mudança é que os aeroportos podem passar examinar passageiros vindos de todos os países e não só dos que tinham mais casos da doença. Boulos disse que o status de pandemia também dá a autoridades argumentos para que suspendam eventos que atraem multidões, como um show de música. Na Itália e na França, jogos de futebol já têm acontecido com portões fechados, o que também pode passar acontecer por aqui.
O infectologista afirma que a pandemia também dá as autoridades de áreas mais impactadas argumentos para que decretem estado de emergência e redirecionem verbas de outros setores para saúde. Em fala na Câmara, o ministro da Saúde do Brasil diz que está pedindo mais recursos para lidar com a doença. Boulos e outros especialistas dizem que há uma tendência de crescimento exponencial dos casos aqui nas próximas semanas.
O infectologista avalia que deve chegar o momento em que casos suspeitos deixarão de ser examinados em laboratório. Os médicos vão simplesmente parte do pressuposto de que o paciente está infectado e seguir os protocolos de tratamento da doença. A preocupação maior será com os idosos, que são mais vulneráveis a morrer pela infecção.
O novo coronavírus apresenta grande potencial de transmissão, mas tem dado sinais de que é menos letal do que aqueles que causaram outras duas epidemias nas últimas décadas. A OMS estima que 3,4% dos pacientes morrem por causa da covid-19, a doença causada pelo novo coronavírus. O surto da SARS causado por outro tipo de coronavírus, de 2003, teve taxa de mortalidade de 10%.
No caso da Síndrome Respiratória do Oriente Médio, 35% dos infectados morreram. Mas com o vírus causando uma pandemia e se espalhando por todo mundo, uma taxa de mortalidade de 3,4%é muita coisa em números absolutos. Estamos falando aí milhares ou até milhões de mortes potenciais.
O infectologista Marcos Boulos diz que embora a taxa de mortalidade novo coronavírus não seja tão alta, ainda não se sabe como será a nossa relação com ele no futuro Ele disse que o vírus não deve desaparecer e que é possível que tenhamos que continuar convivendo com ele assim como hoje convivemos com vírus do tipo influenza. A esperança é que surja uma vacina capaz de impedir novas infecções e pesquisadores de vários países já estão trabalhando para tentar desenvolver essa vacina. É isso, eu fico por aqui, se você quiser continuar acompanhando nossa cobertura sobre coronavírus pode acessar os vídeos aqui no Youtube ou a nossa página bbcbrasil.
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